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Ashenden, ex-capelão da rainha: será o fim de 500 anos de anglicanismo?

O recente escândalo em torno da concessão de um prêmio a um clérigo muçulmano, que ilustra uma situação desastrosa de caos interno na Igreja Anglicana, leva o autor, hoje católico, a fazer essa pergunta.

Foto: thomasaquinas.edu

Foto: thomasaquinas.edu

Redação (23/09/2026 10:56, Gaudium Press) Sarah Mullally tornou-se oficialmente a 106ª arcebispa de Canterbury em janeiro de 2026, a primeira mulher a ocupar o cargo em cerca de 1.400 anos de história da sede. A nomeação, anunciada em outubro de 2025 e aprovada pelo rei, foi celebrada por muitos como o marco definitivo da adaptação do anglicanismo a critérios do mundo moderno, especialmente após a ordenação de mulheres ao sacerdócio (a partir de 1994) e ao episcopado (a partir de 2015). Mullally, nascida em 1962, ex-enfermeira-chefe da Inglaterra (a mais jovem a ocupar o cargo) e anteriormente bispa de Londres, chegou ao posto após a renúncia de Justin Welby, marcada por escândalos de proteção e declínio de frequência.

Para o teólogo e escritor Gavin Ashenden, no entanto, o momento pode representar não um avanço, mas “o final de um experimento de 500 anos” e “a gota d’água” do anglicanismo. Ashenden conhece bem a realidade anglicana: foi pastor anglicano, bispo de um grupo tradicionalista e capelão da rainha Elizabeth II antes de se converter ao catolicismo em 2019. Em artigo intitulado “Será que o fracasso de Mullally é a gota d’água que vai acabar com a Igreja da Inglaterra?”, ele analisa um escândalo recente como sintoma de uma crise mais profunda de identidade, autoridade e missão.

O prêmio retirado e o escândalo

Em 11 de setembro passado — exatamente o 25º aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001 —, Mullally concedeu o Prêmio Hubert Walter de Reconciliação e Cooperação Inter-religiosa a Hafiz Muhammad Tahir Mehmood Ashrafi, presidente do Conselho de Ulemás do Paquistão. O reconhecimento pretendia destacar seu trabalho em favor da convivência religiosa, da tolerância e da luta contra o extremismo, especialmente o apoio a minorias cristãs no Paquistão.

Logo, porém, surgiram declarações de Ashrafi de 2007, nas quais ele parecia elogiar Osama bin Laden, chamando-o de “mujahid” que lutava pelo Islã contra russos, americanos e britânicos, e propondo conceder-lhe o título de “Saifullah” (“Espada de Allah”). A cerimônia no aniversário dos ataques que mataram quase três mil pessoas tornou o episódio particularmente delicado. Fotografias da entrega mostravam Ashrafi acompanhado da esposa, vestida com niqab ou burca negra que cobria todo o corpo exceto os olhos — algo que, segundo críticos, contrastava com a postura feminista frequentemente associada a Mullally, sem que isso a incomodasse.

A controvérsia cresceu rapidamente. Poucos dias depois, o Palácio de Lambeth anunciou que o prêmio havia sido reconsiderado e retirado, após os comentários antigos virem à tona. Ashrafi alegou que suas palavras foram tiradas de contexto e que se tratava de uma campanha injusta. Fontes críticas apontaram ainda outras posições do clérigo, como apoio a leis de blasfêmia e de casamento infantil no Paquistão, e declarações sobre ataques suicidas e Israel.

Para Ashenden, a retirada do prêmio não resolve o problema de fundo. O episódio manifesta uma crise estrutural: o anglicanismo nasceu da ruptura com a autoridade papal e carrega desde a origem a semente de uma contradição interna. Tentou criar, como religião oficial da Inglaterra, uma “casa comum” capaz de abrigar sensibilidades cristãs diversas à margem do catolicismo — sem uma autoridade doutrinal firme capaz de distinguir claramente entre verdade e erro.

O “experimento de 500 anos”

Historicamente, o anglicanismo equilibrou a “alta igreja” (mais católica em ritual e teologia) e a “baixa igreja” (mais protestante e evangélica). No século XIX, essas correntes se consolidaram em três alas principais: a evangélica conservadora, a anglo-católica e a progressista. Suas crenças sobre ordens, moral sexual, doutrina e autoridade tornaram-se cada vez mais incompatíveis com a Igreja. O equilíbrio precário manteve-se por décadas até que a abertura do sacerdócio e, depois, do episcopado às mulheres alterou profundamente a dinâmica interna. Setores mais tradicionais e reconhecidamente ortodoxos foram progressivamente marginalizados.

A eleição de Mullally simboliza, para Ashenden e outros observadores conservadores, a vitória definitiva da ala progressista. Desde então, argumenta ele, o anglicanismo tem se concentrado quase exclusivamente em causas sociais e políticas — mudança climática, reparações pela escravidão, ideologia LGBT, uso de catedrais para fins seculares — em detrimento da missão propriamente cristã de proclamação do Evangelho, formação doutrinal e vida sacramental. O declínio demográfico (idade média elevada nas paróquias, queda de frequência) e os escândalos de proteção reforçam o diagnóstico de esvaziamento.

O problema decisivo, segundo Ashenden, é a autoridade. Sem um magistério claro e vinculante, a Igreja não consegue responder de forma coerente à pergunta “o que é a Igreja e de onde vem sua autoridade?”. Iniciativas erráticas, como o prêmio a Ashrafi, seriam sintomas dessa ausência de critérios firmes. O cristianismo, afirma ele, precisa de uma autoridade doutrinal capaz de distinguir verdade e erro; sem ela, termina inevitavelmente como o anglicanismo atual.

Ashenden não vê o escândalo apenas como incompetência de uma arcebispa ou de uma geração de líderes eclesiásticos. Trata-se, em sua leitura, da tomada de consciência de que se está diante do final de um experimento de meio milênio: a tentativa de manter sob o mesmo teto posições teológicas e morais irreconciliáveis. O que restou, em sua análise, é uma instituição politizada, com autoridade enfraquecida e missão diluída.

A escolha de Sarah Mullally marca, assim, um ponto de inflexão histórico. Para críticos como Ashenden, é o sinal de que o experimento anglicano, tal como concebido após a Reforma inglesa, chegou ao fim.

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