A França que receberá Leão XIV ainda é católica?
Leão XIV encontrará um país onde catedrais ainda dominam a paisagem das cidades, mas onde grande parte da população já não conhece a fé que construiu essas catedrais.
Redação (22/09/2026 10:45, Gaudium Press) A França ainda é católica? A pergunta parece simples, mas talvez nenhuma outra ajude tanto a compreender a transformação religiosa que ocorre hoje no coração da Europa. Durante séculos, falar da França significava falar de uma das grandes potências do catolicismo. Foi ali que floresceram Cluny e Cister, que São Luís fez de sua monarquia uma referência cristã, que surgiram algumas das maiores congregações missionárias da modernidade e que Lourdes se tornou um dos principais centros de peregrinação do mundo. Foi também a França que deu à Igreja São Vicente de Paulo, São João Maria Vianney, Santa Teresinha de Lisieux e uma impressionante sucessão de santos, teólogos e missionários.
A França que recebe Leão XIV entre 25 e 28 de setembro de 2026, porém, é profundamente diferente daquela que durante gerações se compreendeu espontaneamente como católica. O próprio itinerário pontifício parece percorrer as contradições religiosas do país: Paris e Notre-Dame, o encontro com jovens, Lourdes, Metz, autoridades civis e representantes de uma sociedade marcada pela laicidade. De um lado está uma das nações que mais contribuíram para formar a civilização católica europeia; de outro, uma sociedade na qual a ausência de religião tornou-se estatisticamente mais comum do que a identificação com o catolicismo.
Estatísticas
Os números mostram a dimensão dessa ruptura. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos da França, o INSEE, em pesquisa realizada em 2019 e 2020 entre pessoas de 18 a 59 anos na França metropolitana, 51% dos entrevistados declararam não possuir religião, enquanto apenas 29% se identificaram como católicos. Ainda mais significativo é o fato de que, entre os que se declaravam católicos, somente cerca de 8% afirmavam frequentar regularmente um lugar de culto. O problema francês, portanto, não consiste apenas na diminuição da prática religiosa. A própria identificação cultural com o catolicismo, que durante muito tempo sobrevivia mesmo entre aqueles que raramente entravam numa igreja, está perdendo terreno.
Existe ainda outro indicador talvez mais importante para compreender o futuro. O mesmo levantamento mostrou que cerca de 67% das pessoas criadas em famílias católicas conservavam a religião dos pais. Entre os muçulmanos, o índice chegava a 91% e, entre os judeus, a 84%. Isso significa que a secularização francesa não ocorre apenas quando um adulto deixa de praticar a religião recebida na infância. Ela acontece dentro da própria transmissão familiar, quando uma geração católica já não consegue necessariamente produzir outra geração católica.
Durante muito tempo, a Igreja francesa pôde contar com aquilo que se poderia chamar de catolicismo de herança. Uma criança era batizada porque seus pais haviam sido batizados, fazia a primeira comunhão porque isso fazia parte da vida social, e casava-se na Igreja porque o casamento religioso continuava sendo um rito natural de passagem. Mesmo aqueles que raramente assistiam à Missa mantinham algum vínculo com uma paróquia, uma escola católica, uma peregrinação, uma festa religiosa ou simplesmente com a memória cristã da própria família. Esse universo não desapareceu completamente, mas perdeu boa parte de sua capacidade de reprodução.
O crescimento inesperado dos catecúmenos
É justamente nesse ponto que surge um fenômeno aparentemente contraditório. Enquanto o catolicismo herdado diminui, cresce de forma acelerada o número de pessoas que pedem conscientemente para entrar na Igreja. Em 2016, pouco mais de 4.100 adultos foram batizados na França. Em 2023 foram 5.463, em 2024 chegaram a 7.135, em 2025 foram 10.384 e, em 2026, segundo a Conferência Episcopal Francesa, o número alcançou 13.234 adultos. Somados aos 8.152 adolescentes batizados neste ano, são mais de 21 mil adolescentes e adultos que receberam o batismo na França em 2026.
A progressão merece especial atenção, pois não se trata de uma oscilação estatística isolada. Em apenas dez anos, o número anual de batismos de adultos mais que triplicou, e o perfil dos catecúmenos também mudou. Em 2025, 42% dos catecúmenos adultos tinham entre 18 e 25 anos. Poucos anos antes, os adultos entre 26 e 40 anos constituíam um grupo muito mais numeroso do que os mais jovens. Agora é justamente uma geração criada numa França profundamente secularizada que aparece com crescente força às portas da Igreja.
Seria precipitado transformar esses números numa narrativa de “recatolização” da França. Treze mil batismos de adultos representam muito pouco diante de uma população superior a 68 milhões de habitantes, enquanto dioceses continuam reorganizando paróquias, igrejas enfrentam baixa frequência e numerosas comunidades sofrem com a falta de sacerdotes. Em 2025, foram ordenados apenas 90 novos padres para toda a França, dos quais 64 para o clero diocesano. Há regiões nas quais uma única ordenação sacerdotal se tornou acontecimento excepcional, realidade quase inimaginável no país que durante séculos enviou milhares de missionários para todos os continentes.
Contudo, seria igualmente simplista olhar para esses dados e concluir que o catolicismo francês está simplesmente agonizando. Uma religião em processo linear de desaparecimento dificilmente apresentaria, durante vários anos consecutivos, um crescimento tão acentuado entre adultos que voluntariamente pedem o batismo. A contradição entre igrejas envelhecidas e catecumenatos rejuvenescidos sugere algo mais complexo: talvez não estejamos assistindo apenas ao declínio do catolicismo francês, mas à substituição de uma determinada forma histórica de ser católico.
A antiga Igreja francesa era extensa, territorial e cultural. Podia contar com milhões de pessoas cuja pertença religiosa não exigia uma decisão particularmente consciente, porque o catolicismo estava incorporado à família, ao calendário, às escolas, às festas e aos costumes. A Igreja que emerge desse processo de secularização parece menor, porém mais voluntária. Antes, alguém podia permanecer católico quase por inércia social; hoje, um francês de 20 anos que pede o batismo precisa tomar uma decisão precisamente porque o ambiente que o cerca já não o conduz naturalmente à Igreja.
Existe nisso uma das grandes ironias da secularização. Ao destruir grande parte das estruturas sociais que sustentavam automaticamente a fé, ela também tornou mais claramente religioso o ato de crer. Para um jovem francês do século XIX, ser católico podia significar simplesmente continuar sendo aquilo que sua família sempre fora. Para um jovem francês de 2026 criado sem religião, iniciar um catecumenato significa romper com a indiferença religiosa predominante e assumir deliberadamente uma identidade que já não oferece qualquer vantagem evidente de integração social.
Isso ajuda a compreender por que o fenômeno dos catecúmenos desperta tanta atenção dentro da própria Igreja francesa. Esses jovens não representam simplesmente novos membros acrescentados às estatísticas, mas uma inversão do mecanismo tradicional de transmissão da fé. Durante séculos, a Igreja batizava crianças e esperava conservá-las quando adultas. Agora começa a encontrar adolescentes e adultos que chegam à Igreja depois de terem crescido fora dela, muitas vezes sem sequer possuir a formação religiosa elementar que anteriormente se recebia dentro da família.
A questão decisiva será saber se a Igreja francesa conseguirá transformar esse primeiro entusiasmo em vida cristã duradoura. O batismo é o começo, não o término da conversão, e o crescimento do catecumenato exigirá comunidades capazes de oferecer formação doutrinal, vida sacramental, acompanhamento espiritual e integração paroquial. Existe o risco paradoxal de que uma Igreja que finalmente volta a receber jovens não disponha de estruturas suficientemente vivas para acompanhá-los, justamente porque essas estruturas foram construídas para administrar um catolicismo de massa que já não existe.
Também será necessário observar qual tipo de catolicismo esses novos fiéis procuram. Muitos chegam sem a bagagem das disputas eclesiais que marcaram gerações anteriores e sem a memória de um tempo em que a religião fazia parte naturalmente da vida pública. Liturgia, adoração, peregrinações, sacramentos e identidade católica podem ser descobertos por eles não como resíduos de um passado do qual precisam se libertar, mas como novidades encontradas justamente depois de terem crescido numa sociedade que julgava ter superado tudo isso.
Uma geração que busca o que foi abandonado
A juventude dos catecúmenos torna o fenômeno particularmente interessante. A geração mais secularizada da história francesa está produzindo uma minoria de jovens que procura conscientemente aquilo que seus pais ou avós deixaram para trás. Ainda é cedo para saber se estamos diante de uma mudança religiosa duradoura, de uma reação cultural limitada ou de um fenômeno que acabará estabilizando-se em números relativamente pequenos, mas o crescimento é suficientemente consistente para tornar inadequada a antiga narrativa segundo a qual a secularização avançaria inevitavelmente em uma única direção.
Nada disso altera o fato fundamental de que a França deixou de ser sociologicamente católica no sentido tradicional. Quando mais da metade da população adulta pesquisada declara não possuir religião, quando a prática regular entre os próprios católicos se reduz a uma pequena minoria e quando a transmissão familiar da fé perde força, não é possível falar seriamente de continuidade com a antiga França católica. O que desaparece diante dos nossos olhos é uma civilização religiosa na qual o catolicismo podia sobreviver durante gerações mesmo sem uma adesão pessoal particularmente intensa.
Entretanto, o desaparecimento dessa civilização não significa necessariamente o desaparecimento da Igreja. Pode significar que o catolicismo francês esteja passando da condição de herança para a condição de escolha, tornando-se numericamente menor e socialmente menos dominante, mas composto por uma proporção crescente de pessoas que precisaram decidir explicitamente estar ali. Esse processo pode produzir uma Igreja mais frágil institucionalmente e, ao mesmo tempo, mais consciente de sua própria identidade.
É diante dessa França que Leão XIV chega agora. Ele encontrará um país onde catedrais ainda dominam a paisagem das cidades, mas onde grande parte da população já não conhece a fé que construiu essas catedrais. Encontrará também milhares de jovens que, contra a tendência geral das últimas décadas, estão pedindo para entrar voluntariamente na Igreja. A mesma França capaz de transformar igrejas vazias em símbolo da secularização europeia começa a apresentar catecumenatos cheios de pessoas que nasceram depois que muitos já haviam decretado o desaparecimento inevitável do cristianismo.
Talvez, portanto, a pergunta “a França ainda é católica?” precise ser reformulada. A França de um catolicismo majoritário, transmitido quase automaticamente de pais para filhos e profundamente entrelaçado à cultura nacional, parece caminhar para o passado. Ao mesmo tempo, os números dos últimos anos indicam o surgimento de uma presença católica diferente, menor e ainda incapaz de compensar as perdas demográficas, mas marcada cada vez mais pela decisão pessoal de acreditar.
Leão XIV não encontrará a antiga “filha primogênita da Igreja” intacta, tampouco encontrará apenas suas ruínas. Encontrará uma Igreja atravessando talvez uma das transformações mais profundas de sua história moderna, na qual a perda de uma maioria cultural convive inesperadamente com o nascimento de uma minoria de convertidos. A grande questão para as próximas décadas não será saber se a França conseguirá recriar o catolicismo que perdeu, mas se esses novos católicos serão capazes de construir alguma coisa depois dele.
Por Rafael Ribeiro





Deixe seu comentário