Diálogo sem dissolução: até onde Leão XIV pretende levar a abertura às outras religiões?
“Não se trata de fundar uma grande religião mundial na qual todas as crenças sejam niveladas”. O objetivo é outro: construir uma sociedade fraterna que seja capaz de acolher as diferenças.
Papa Leão XIV assina a Nota “Um Caminho de Esperança” na presença dos Cardeais Prefeitos dos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso Foto: Vatican News/ Vatican Media
Redação (20/09/2026 11:37, Gaudium Press) Sessenta anos depois da Nostra aetate, o Vaticano não se limitou a comemorar a declaração conciliar que transformou a relação da Igreja Católica com as religiões não cristãs. Decidiu reafirmá-la e projetá-la para o futuro. Publicada em 16 de setembro, a nota A Journey of Hope (Um Caminho de Esperança) foi elaborada conjuntamente pelos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso. O texto recebeu a aprovação de Leão XIV em audiência concedida aos responsáveis pelos três organismos, em 22 de junho, e teve sua publicação expressamente determinada pelo Papa.
A circunstância é significativa. Não se trata de uma reflexão proveniente exclusivamente do organismo vaticano encarregado do diálogo inter-religioso. A participação do Dicastério para a Doutrina da Fé coloca deliberadamente a questão no terreno teológico. O Vaticano parece querer responder a uma pergunta que acompanha a Igreja desde o Concílio Vaticano II: como dialogar seriamente com outras religiões sem transformar o diálogo numa relativização da pretensão cristã de verdade?
A resposta da nova nota é ambiciosa. O diálogo não aparece como simples instrumento diplomático destinado a diminuir conflitos entre comunidades religiosas. É apresentado como parte da própria missão evangelizadora da Igreja. Simultaneamente, o documento estabelece uma fronteira que merece atenção: dialogar não significa colocar todas as religiões no mesmo plano, abandonar a identidade católica ou substituir o anúncio de Cristo pela busca de um mínimo denominador comum religioso.
Da Shoah a uma nova relação com as religiões
Para compreender o alcance do documento é preciso voltar à origem da Nostra aetate. A nota recorda que a declaração nasceu num contexto marcado pela experiência devastadora da Shoah e pela necessidade de repensar profundamente a relação dos cristãos com o povo judeu. O texto, que começou concentrado nessa questão, acabou ampliado durante o Concílio para tratar também do islamismo, do hinduísmo, do budismo e das demais tradições religiosas.
A mudança produzida foi enorme. A Igreja não abandonou a afirmação da singularidade de Cristo, mas passou a procurar também, nas outras tradições, aquilo que pudesse ser reconhecido como verdadeiro e santo. A Nostra aetate estabeleceu assim uma linguagem que marcaria profundamente as décadas seguintes, condenando a discriminação religiosa e estimulando o conhecimento, o respeito e a cooperação entre os povos.
Um Caminho de Esperança interpreta os últimos sessenta anos como desenvolvimento dessa intuição conciliar. Paulo VI institucionalizou o diálogo. João Paulo II levou representantes das religiões a Assis. Bento XVI procurou vinculá-lo à verdade, à razão e à rejeição da violência. Francisco colocou no centro a fraternidade humana, particularmente por meio do Documento de Abu Dhabi e da Fratelli tutti. Agora, Leão XIV recebe essa herança e parece disposto a mantê-la como uma das linhas estruturais da presença da Igreja no mundo contemporâneo.
Há, porém, uma diferença importante entre afirmar que os católicos devem dialogar com outras religiões e afirmar que esse diálogo constitui uma dimensão da evangelização. É precisamente nesse ponto que o novo documento avança com maior força.
Dialogar também é evangelizar?
A nota recupera o desenvolvimento doutrinal ocorrido sobretudo durante o pontificado de João Paulo II. Recorda Redemptoris missio, de 1990, e o documento Diálogo e Anúncio, de 1991, para apresentar duas exigências que considera inseparáveis: o anúncio de Cristo e o diálogo com aqueles que professam outras religiões.
O documento reconhece duas tentações opostas. Aos cristãos que desejariam insistir exclusivamente na necessidade de anunciar Cristo, recorda que o diálogo integra a missão evangelizadora da Igreja. Aos que, no sentido contrário, tendem a relativizar a própria identidade religiosa, recorda a fidelidade a Jesus Cristo, “o Caminho, a Verdade e a Vida”.
Essa passagem fornece, provavelmente, a chave de leitura de todo o documento.
A Igreja não propõe escolher entre missão e diálogo. Quer manter os dois. Mais ainda, deseja que sejam compreendidos como dimensões complementares de uma única missão. Segundo a própria nota, o diálogo inter-religioso não substitui o anúncio explícito de Cristo, mas o “acompanha e enriquece”. O anúncio continua no coração da missão cristã, enquanto o diálogo constitui uma forma de testemunho realizada por meio da escuta, do respeito e do reconhecimento da liberdade do outro.
Isso significa que o Vaticano não está propondo uma Igreja que silencie Cristo para tornar possível o encontro. Está propondo, pelo menos no plano doutrinal, exatamente o contrário: somente alguém consciente da própria identidade pode entrar verdadeiramente em diálogo.
A palavra decisiva: identidade
É aqui que Um Caminho de Esperança estabelece uma salvaguarda particularmente importante. O diálogo, afirma o documento, deve estar livre de ambiguidades, evitando “relativismo e sincretismo”. Ao mesmo tempo, deve existir “a mais plena afirmação possível da identidade” juntamente com “o mais pleno compromisso possível com o diálogo”.
A formulação é importante porque rejeita duas soluções aparentemente fáceis.
A primeira seria o fechamento. Para preservar a identidade cristã, seria necessário reduzir ao mínimo o encontro com outras religiões. O documento rejeita essa posição. A segunda solução seria a diluição. Para tornar possível a convivência, seria necessário relativizar as diferenças doutrinais e concentrar-se apenas nos valores compartilhados. A nota também rejeita essa possibilidade.
O desafio proposto é mais difícil: máxima identidade e máximo diálogo.
Leão XIV já havia apresentado essa lógica ao comemorar os 60 anos da Nostra aetate. O Papa afirmou que o diálogo autêntico não começa no compromisso, mas na convicção. Segundo ele, os cristãos não percorrem esse caminho abandonando a própria fé, mas permanecendo firmemente enraizados nela.
É uma distinção essencial. Se todas as religiões fossem simplesmente expressões equivalentes de uma mesma realidade espiritual, o diálogo perderia grande parte de seu sentido. Não haveria propriamente duas convicções dialogando, mas diferentes linguagens descrevendo uma realidade considerada previamente idêntica. O documento não aceita essa premissa.
O ponto central: não haverá uma religião mundial
Ao se voltar para o futuro, o Vaticano reconhece que as próximas décadas serão marcadas por conflitos identitários, fundamentalismos, manipulação política da religião e por uma crescente indiferença diante de qualquer experiência espiritual.
Nesse cenário, poderia surgir a tentação de imaginar uma espécie de religião universal da fraternidade, construída a partir daquilo que todas as tradições possuem em comum. O documento fecha explicitamente essa porta.
“Não se trata de fundar uma grande religião mundial na qual todas as crenças sejam niveladas”, afirma a nota. Essa possibilidade, acrescenta, deve ser excluída precisamente por respeito a si mesmo e aos outros. O objetivo é outro: construir uma sociedade fraterna que seja capaz de acolher as diferenças.
A distinção é fundamental para compreender o rumo pretendido pelo Vaticano. Fraternidade não significa unidade religiosa. Cooperação não significa equivalência doutrinal. Paz não exige sincretismo.
O desafio, naturalmente, consistirá em assegurar que essa clareza teológica prevaleça quando os princípios forem traduzidos em gestos, encontros e iniciativas pastorais.
O ponto mais delicado do documento
Há, contudo, uma formulação que certamente provocará debate teológico. Ao tratar da dimensão espiritual do encontro, a nota afirma que o diálogo inter-religioso pode tornar-se ocasião de maior fidelidade ao amor universal de Deus manifestado em Jesus Cristo, e acrescenta que ele pode transformar pessoas, comunidades e até estruturas eclesiais.
Em seguida, vem uma afirmação ainda mais forte: o diálogo inter-religioso, longe de ser uma questão marginal, representa um “lugar teológico” no qual o Espírito Santo deseja ser escutado através do encontro com o outro.
A expressão merece atenção. Um “lugar teológico” não é simplesmente uma oportunidade diplomática ou sociológica; significa reconhecer que o encontro pode oferecer à própria Igreja uma ocasião de discernimento e aprofundamento.
Isso levanta, inevitavelmente, uma pergunta: o que exatamente a Igreja pode receber desse encontro?
A resposta precisa ser lida à luz das salvaguardas que o próprio documento estabelece. A nota não afirma que as religiões possuem doutrinas igualmente verdadeiras nem que a Revelação cristã precise ser completada por outras tradições. Pelo contrário, mantém explicitamente a fidelidade a Cristo e rejeita relativismo e sincretismo. Portanto, interpretar o “lugar teológico” como uma relativização da Revelação cristã equivaleria ler uma passagem isoladamente em contradição com outras afirmações expressas do mesmo documento.
Ainda assim, trata-se de uma linguagem que exigirá precisão. Quanto mais se aprofunda o conceito de diálogo, maior se torna a necessidade de explicar seus limites.
Bento XVI continua presente
É especialmente interessante que o novo documento não construa uma linha de continuidade apenas entre Francisco e Leão XIV. Bento XVI ocupa espaço relevante na argumentação.
A nota recorda que Bento vinculava paz, razão e verdade. Recupera, igualmente, sua advertência de que a violência é incompatível com a natureza de Deus e destaca sua preocupação em impedir que o diálogo se transformasse em relativismo. A continuidade reivindicada pelo documento passa, assim, por Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI, Francisco até chegar a Leão XIV.
Essa escolha parece deliberada. O Vaticano não apresenta a abertura inter-religiosa como uma inovação progressiva que lentamente substituiria uma antiga concepção missionária. Prefere, antes, descrevê-la como um desenvolvimento ocorrido dentro da própria missão evangelizadora.
Justamente por essa razão, a Redemptoris missio assume importância tão grande na nota. João Paulo II foi simultaneamente o Papa de Assis e aquele que reafirmou vigorosamente o mandato missionário. A lógica proposta pelo novo documento consiste em afirmar que não existe contradição necessária entre essas duas dimensões.
O teste será a realidade
No papel, portanto, a arquitetura é relativamente clara. Cristo continua sendo “o Caminho, a Verdade e a Vida”. A missão continua a exigir seu anúncio. O diálogo integra essa missão. O relativismo é rejeitado. O sincretismo é rejeitado. A criação de uma religião mundial também é explicitamente rejeitada. Ao mesmo tempo, a Igreja deseja aprofundar a cooperação com judeus, muçulmanos, hindus, budistas e membros de outras tradições, sobretudo diante da guerra, da pobreza, da perseguição religiosa e da fragmentação das sociedades contemporâneas.
O problema decisivo começa após a publicação do documento.
A história recente mostra que existe sempre uma distância possível entre a precisão de um texto magisterial e a maneira como os seus conceitos chegam às comunidades, universidades, movimentos e iniciativas pastorais. Um diálogo concebido teologicamente como encontro entre identidades fortes pode converter-se, na prática, numa convivência na qual falar das diferenças seja considerado inconveniente. O respeito pelo outro pode degenerar em hesitação em anunciar aquilo que o cristão acredita ser verdadeiro. E a legítima procura por pontos comuns pode terminar por reduzir a religião a um conjunto de valores humanitários compartilhados.
O perigo contrário, no entanto, também existe. O medo do relativismo pode transformar-se em recusa do encontro. A defesa da verdade pode assumir uma linguagem incapaz de reconhecer qualquer bem fora das próprias fronteiras. E uma Igreja que recebeu de Cristo o mandato de anunciar o Evangelho a todas as nações não pode cumprir essa missão se não for capaz sequer de sentar-se diante daqueles que creem de maneira diferente.
Talvez seja precisamente nessa tensão que se encontre a aposta de Leão XIV. Não escolher entre identidade e encontro, mas exigir ambos; não diminuir Cristo para tornar o diálogo possível, nem utilizar Cristo como justificativa para tornar o diálogo impossível.
Sessenta anos depois da Nostra aetate, a questão já não é simplesmente saber se católicos devem conversar com homens de outras religiões. Isso está consolidado no magistério contemporâneo. A pergunta, agora, é muito mais profunda: até onde esse caminho pode avançar sem modificar a própria compreensão que o cristianismo possui de sua missão?
Um Caminho de Esperança responde com uma fórmula exigente: diálogo sem relativismo, fraternidade sem sincretismo, abertura sem abandono da identidade e encontro sem renúncia a Jesus Cristo. Trata-se de uma síntese teologicamente possível, mas pastoralmente delicada. O seu êxito dependerá menos da beleza das declarações internacionais e mais da capacidade da Igreja de conservar, ao entrar profundamente no encontro com o outro, a consciência de quem ela própria é.
E é justamente nesse ponto que permanece a pergunta que acompanhará os próximos passos deste pontificado. Onde estamos indo? Diálogo ou dissolução?
Por Rafael Ribeiro





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