É possível ser feliz nesta Terra?
Entre aquele que vende a consciência por milhões e aquele que entrega a própria vida por alguns instantes de prazer, existe uma multidão de homens procurando, por caminhos diferentes, exatamente a mesma coisa: ser feliz.

Foto: Shaurya Sagar/ Unsplash
Redação (20/09/2026 10:38, Gaudium Press) Há algo que aproxima todos os homens, independentemente de sua origem, condição social, cultura ou religião: todos desejam ser felizes. Podemos discordar sobre quase tudo, escolher caminhos completamente diferentes e até antagônicos, mas, no fundo de nossas escolhas, permanece esse desejo.
O problema não está, portanto, em desejar a felicidade. Está em onde decidimos procurá-la.
Nem todo homem que pratica o mal acordou pela manhã desejando tornar-se pior. Evidentemente, existem atos deliberadamente perversos, crueldades e escolhas feitas conscientemente contra o bem. Em muitas escolhas erradas, pode-se encontrar um desejo legítimo embora procurando satisfazer-se de maneira desordenada.
Criados por Deus, fomos originariamente feitos para o bem. O pecado, porém, introduziu a desordem na natureza humana. Desde a queda de Adão e Eva, carregamos essa inclinação que nos faz tantas vezes reconhecer o bem e, ainda assim, escolher aquilo que nos afasta dele.
Ao longo da vida, caímos e levantamos. Podemos crescer em virtude e depois retroceder; vencer um vício e sucumbir a outro; aproximar-nos de Deus e, algum tempo depois, perceber que novamente nos afastamos. E continuamos procurando alguma coisa que finalmente possa nos satisfazer.
O mesmo desejo, caminhos opostos
Pensemos em dois homens aparentemente muito diferentes. Um deles ocupa uma posição privilegiada; tem casa, prestígio, conforto, talvez uma família. Um dia, porém, deixa-se seduzir pela possibilidade de ganhar milhões por meio da corrupção. Sabe que aquilo é errado, mas imagina tudo o que o dinheiro poderá proporcionar: segurança, poder, conforto, reconhecimento, prazer.
No outro extremo está um homem dominado pela dependência química. Talvez também tenha tido casa, família, trabalho e conforto. Agora vive nas ruas, passa fome, veste roupas sujas e chega a revirar o lixo para comer. Ainda assim, é capaz de sacrificar quase tudo por alguns instantes de alteração da consciência produzidos por uma droga.
O que poderia haver em comum entre os dois? Mais do que parece.
O primeiro imagina encontrar no dinheiro algo que o satisfaça. O segundo procura numa substância alguns momentos de prazer, alívio ou esquecimento. Um recebe milhões; outro talvez tenha apenas algumas moedas nas mãos. Entretanto, ambos procuram, por caminhos profundamente desordenados, alguma forma de felicidade. E ambos se enganam.
Entre esses extremos há uma imensa variedade de comportamentos humanos. Há quem procure a felicidade na vaidade, no poder, na luxúria, no reconhecimento, no consumo, no sucesso profissional. Há quem a procure na família, na amizade, no serviço aos outros, na religião, na oração e na caridade.
O desejo pode ser semelhante. Os caminhos e suas consequências, evidentemente, não o são.
Por que nunca basta?
Talvez aí esteja uma das grandes tragédias humanas: exigimos das coisas aquilo que elas não podem nos oferecer. O dinheiro é útil, mas não pode nos dar a felicidade. O prazer é um bem quando vivido ordenadamente, mas é passageiro.
O reconhecimento dos outros muda. A juventude termina. A beleza se transforma. Pessoas que amamos partem. A saúde pode faltar. Bens podem ser perdidos. Até aquilo que é verdadeiramente bom nesta vida permanece limitado.
Podemos ter uma família amorosa, amigos fiéis, trabalho digno, saúde, uma casa agradável e momentos de enorme alegria. Devemos agradecer a Deus por tudo isso e desfrutar desses bens. O Cristianismo não nos pede desprezo pela vida.
Contudo, nenhum desses bens consegue preencher completamente o coração humano. Por isso, quando depositamos em algo terreno a esperança de uma felicidade absoluta, começamos a preparar nossa própria frustração; não necessariamente porque aquilo seja mau, mas porque estamos exigindo de um bem finito uma resposta infinita.
Então não podemos ser felizes?
Podemos experimentar felicidade nesta Terra — e devemos procurar viver bem. Devemos cultivar relações saudáveis, afastar-nos daquilo que nos conduz ao vício, trabalhar honestamente, cuidar daqueles que nos foram confiados, praticar a caridade, buscar a paz, apreciar a beleza e agradecer pelas alegrias que Deus coloca em nosso caminho.
Existe, portanto, uma felicidade possível nesta vida. Entretanto, ela é imperfeita, relativa e passageira. A felicidade completa, aquela que já não pode ser ameaçada pela perda, pela doença, pelo pecado ou pela morte, não pertence a este mundo.
É por isso que o cristão não transforma a vida terrena em finalidade última. Ele a transforma em caminho.
Feitos para uma felicidade maior
Se fomos feitos para Deus, somente n’Ele nosso desejo encontrará finalmente aquilo que procura. E então muda também a maneira de viver aqui.
Seguimos os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, olhamos para o exemplo de Nossa Senhora e dos santos e procuramos o caminho da santidade não porque desejamos uma existência fácil em troca de uma recompensa futura, mas porque começamos a ordenar nossa vida para o fim para o qual fomos criados.
Nesse caminho, cairemos muitas vezes. Levantaremos outras tantas. Teremos alegrias, perdas, conquistas e frustrações. Poderemos experimentar momentos verdadeiramente felizes e proporcionar felicidade a quem estiver ao nosso redor. No entanto, não pediremos mais à Terra aquilo que somente o Céu pode oferecer.
Talvez grande parte de nossas frustrações nasça exatamente deste equívoco: procuramos uma felicidade infinita em coisas que terminam.
A vida presente pode ser boa. Pode ser bela. Pode ser fecunda e cheia de alegria. Deve ser vivida com gratidão. Mas nossa felicidade perfeita não está aqui; está em Deus.
Por Afonso Pessoa





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