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Mística: o que é?

Quem pode resistir ao Espírito do Senhor? Quando Ele quer atuar sobre alguém, nada se pode opor. Portanto, Deus não leva em conta as qualidades para escolher ninguém.

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Redação (19/09/2026 08:34, Gaudium Press) Que saudades sentimos tantas vezes do Paraíso, que nem sequer conhecemos!

Lá, o Senhor descia todos os dias, à brisa da tarde, para conversar com Adão e dar-lhe um antegozo do Céu. Aqui, no calor da constante luta que travamos, nem sequer sentimos uma leve brisa. A verdade, porém, é que Deus criou o Céu e a Terra não para estarem longe, mas para ser uma só realidade!

Se estamos desterrados, é para que desejemos com mais ardor “aquilo que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram” (1Cor 2,9); e se vivemos em dura batalha, é para que nos tornemos heróis, dignos dos bens que Deus preparou aos que O amam.

Para suavizar a dureza de nosso exílio “neste vale de lágrimas” e nos dar um antegozo do Céu – um “sabor de vida eterna” –, e a fim de que nos portemos de modo digno da filiação que recebemos, Deus nos deu o seu Espírito Santo.

A atuação do Espírito Santo em nós

Cabe, assim, ao “Divino Pedagogo” a missão de fazer-nos crescer na vida da graça até atingirmos “a estatura de homem perfeito” (Ef 4,13), segundo Deus.

É o Divino Espírito quem nos torna filhos de Deus, quem revela os segredos do Altíssimo, quem une a criatura ao Criador, a Terra ao Céu, e quem nos faz agir ao modo divino. Ele é o nosso Grande Necessário.

Por que necessitamos da atuação do Espírito Santo?

Sem o Espírito Santo, nós seríamos sempre crianças. Sem o Divino Enviado, jamais atingiríamos “a medida da plenitude de Cristo” (Ef. 4,13).

A razão é simples: estamos falando de uma realidade divina, que supera qualquer capacidade humana. Devemos reconhecer que, se não fosse o Espírito Santo, a vida da graça em nossa alma “não seria totalmente sobrenatural”.

Assim aconteceu até mesmo com os Apóstolos, que conviviam diariamente com o Filho de Deus: “Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de compreendê-las agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, Ele vos ensinará todas as coisas. É melhor para vós que Eu me vá. Se Eu não for, não virá a vós o Defensor” (Jo 16,12-13.7).

De que modo atua o Espírito Santo?

O Espírito Santo age por meio dos seus dons. Somente por esse meio somos capazes de agir no campo sobrenatural, não ao modo humano, mas divino.

Como se chama a atuação do Espírito Santo por meio dos seus dons?

A atuação do Divino Espírito em nós, por meio dos seus dons, é o que, em Teologia, se denomina mística. Em outros termos, a mística nada mais é do que a vida da graça sob o regime do Espírito Santo.

A mística

A vida mística é privilégio de poucos?

Os teólogos estão de acordo em afirmar que não se pode viver com perfeição a vida sobrenatural e divina sem a ação dos dons do Espírito Santo.

Daí concluirmos ser a mística uma via aberta a todos. Ela se apresenta como desenvolvimento e desabrochar natural da vida espiritual; é o cume para o qual caminham todos os que buscam a perfeição e o corolário da santidade.

“Sede santos como o vosso Pai celeste é Santo”. Ora, para nós, homens, isso só se torna possível pela atuação dos dons do Espírito Santo.

A vida mística é igual em todos?

De modo algum! O Espírito Santo distribui seus dons como Lhe apraz: “o vento sopra onde quer” (Jo 3,8). A algumas almas o Divino Hóspede visita como uma suave brisa; a outras, Ele vem como uma impetuosa ventania.

Nestes casos, o Espírito Santo produz efeitos na ordem mística que ultrapassam a ação comum dos dons – são os fenômenos extraordinários da mística. Visões, comunicações sobrenaturais, aparições, contemplações espirituais, revelações, vozes interiores, discernimento dos espíritos, estigmas, calores intensos, resplendores, troca de coração, desposório espiritual e muitos outros fenômenos são exemplos dessa “impetuosa visita” do Espírito na alma que Ele escolheu.

Por que age o Espírito Santo assim de forma impetuosa?

Simplesmente porque assim o quis, porque escolheu uma alma para visitá-la dessa forma; isso basta para explicar.

Tais fenômenos são uma manifestação da união entre Céu e Terra, um resplendor do poder de Deus no homem. É uma fenda nas nuvens pela qual se pode contemplar como é o Céu por dentro.

As manifestações “físicas” ou “sensíveis” da mística servem para demonstrar com clareza a realidade do sobrenatural. Mística não significa fantasia, e não é porque nossos olhos corporais não vejam o sobrenatural que ele não exista. Na realidade, os místicos experimentais não fazem senão confirmar, com suas sublimes experiências, os ensinamentos mais elevados da Teologia.

Como são esses fenômenos extraordinários?

Moisés conversava com Deus como um homem fala ao seu amigo. A todo momento encontramos no Antigo Testamento a expressão: “A Palavra do Senhor foi-me dirigida… O Senhor mostrou-me uma visão…”.

São Paulo conta que foi arrebatado ao Céu, onde viu coisas que os olhos não podem ver, e que, por revelação do Espírito, teve conhecimento do mistério desde sempre escondido.

O Santo Cura d’Ars possuía tão grande discernimento dos espíritos que era como se lesse no interior de seus penitentes.

Santa Francisca Romana convivia com seu Anjo da guarda, o qual lhe repreendia as faltas com um tapa.

Para a salvação de uma religiosa de seu mosteiro, Madre Mariana de Jesus Torres ficou misticamente cinco anos “condenada” no inferno.

Santa Gema Galgani sofria em si a Paixão de Nosso Senhor: o sangue escorria de seu corpo, ela gemia terrivelmente, “morria” misticamente por três horas e depois ressuscitava luminosa.

Que qualidades é preciso ter para ser um místico experimental?

Os fenômenos extraordinários da mística vêm acompanhados de um grande desprendimento naqueles que os experimentam.

Todos se reconhecem indignos, insuficientes e despreparados. São unânimes em confessar que tais prodígios ultrapassam de todo suas capacidades físicas, intelectuais e morais, nem podem ser produto de sua exaltada imaginação.

E, no entanto, nenhum deles se atreve a negar a realidade sobrenatural que vivem. Bem poderiam eles repetir as palavras de São Pedro e São João: “Não nos podemos calar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20).

Quem pode resistir ao Espírito do Senhor? Quando Ele quer atuar sobre alguém, nada se pode opor. Portanto, Deus não leva em conta as qualidades para escolher ninguém.

A mística exclui o sofrimento?

O Espírito Santo, que é o amor de Deus, não poderia deixar de convidar ao sofrimento as almas que Ele visita com seu amor. O que é o amor senão sofrimento?

Por isso, é comum, entre as pessoas beneficiadas com a mística dita extraordinária, um grande desejo de sofrer por Deus: “Procuro completar em minha carne o que falta às tribulações de Jesus Cristo” (Cl 1, 24), dizia São Paulo.

Certa vez, perguntaram a São Pio por que demorava tanto em celebrar a Santa Missa (às vezes três horas). O Santo respondeu com simplicidade: “Achas que é pouco subir o Calvário com Jesus Cristo?”.

Paraíso, Calvário e Céu

Muito haveria ainda a dizer sobre a mística, pois esta, além de se revelar tão vasta como o seu Autor, o Divino Espírito Santo, é indispensável para todo aquele que busca o caminho da perfeição; afinal, ela é o reinado do Espírito Santo no coração do homem, o paraíso interior onde Terra e Céu se unem, o Calvário espiritual onde se padece com o Divino Redentor, o Céu aberto!

Felizes os que podem vê-lo, bem-aventurados também os que creem sem ver!

Por Luís Filipe Defanti

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