Santuário de Fátima mantém mosaico de Rupnik apesar da controvérsia internacional e do exemplo de Lourdes
Enquanto Lourdes optou pela cobertura e o Vaticano deixou de utilizar imagens de Rupnik, outros locais, como o Santuário de Aparecida, continuaram a inaugurar mosaicos associados ao Centro Aletti.

Foto: Wikipedia
Redação (19/09/2026 09:42, Gaudium Press) O Santuário de Fátima, um dos principais centros de peregrinação mariana do mundo, reafirmou recentemente que não pretende remover nem cobrir o imenso mosaico criado pelo antigo jesuíta Marko Rupnik na Basílica da Santíssima Trindade. A decisão mantém o local no centro de um intenso debate na Igreja Católica sobre o destino de obras de arte produzidas por autores acusados de graves abusos.
Rupnik, esloveno de 71 anos, enfrenta-se a julgamento canónico no Vaticano por alegações de abuso sexual, espiritual e psicológico envolvendo dezenas de mulheres, muitas delas religiosas. Algumas acusações sugerem que parte dos abusos esteve ligada à criação dos seus projetos artísticos. Expulso da Companhia de Jesus em 2023, o sacerdote tinha já sido brevemente excomungado por absolver um parceiro sexual no confessionário, antes de ser reintegrado. O processo, reaberto por ordem do Papa Francisco após a prescrição inicial, continua em curso sob total confidencialidade, com o Vaticano a negar rumores de absolvição e a sublinhar que os juízes ainda analisam documentação de diversas fontes.
O painel de cerca de 500 metros quadrados, instalado em 2007 no fundo do presbitério da Basílica da Santíssima Trindade (consagrada nesse ano), representa o Cordeiro Pascal rodeado de santos e anjos. Foi realizado pelo Centro Aletti, atelier fundado por Rupnik em Roma. Desde o conhecimento das denúncias, o Santuário suspendeu o uso de imagens da obra em materiais promocionais e de comunicação, mas insiste em mantê-la exposta. Em declaração oficial, a instituição “repudia liminarmente os atos cometidos” pelo padre e expressa solidariedade às vítimas, reiterando, porém, que não pondera a remoção.
Contraste com Lourdes e a posição do Papa Leão XIV
A postura de Fátima difere significativamente da adotada no Santuário de Lourdes, em França. Ali, o bispo Jean-Marc Micas determinou a cobertura permanente dos mosaicos de Rupnik na fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário. A medida, inicialmente parcial e depois total, foi justificada pelo cuidado para com sobreviventes de abusos, muitos dos quais visitam Lourdes em busca de consolação. Segundo o prelado, o Papa Leão XIV aprovou esta decisão numa audiência privada e revelou ter ordenado pessoalmente a retirada de imagens de obras de Rupnik dos canais oficiais do Vaticano, incluindo o site Vatican News.
Em Portugal, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) alinhou-se com o Santuário de Fátima. O bispo Virgílio Antunes, presidente da CEP e presidente do Conselho Nacional do Santuário, reconheceu a dificuldade de separar a obra do contexto em que foi criada, mas afirmou que, neste momento, não se veem razões suficientes para alterar a posição atual. Alguns responsáveis eclesiásticos defendem que a arte deve ser avaliada de forma relativamente independente do autor, alertando para o risco de um “puritanismo” excessivo e sublinhando a participação de outros artistas no projeto, alguns eventualmente vítimas sem responsabilidade nos alegados crimes.
A voz das vítimas e as preocupações pastorais
A ausência de consultas específicas às vítimas sobre o mosaico de Fátima foi admitida por Antunes, que, no entanto, insistiu na importância de escutar os sobreviventes, apoiá-los e reconhecer a sua dignidade. Sofia Marques, coordenadora Provincial Serviço Proteção e Cuidado Província Portuguesa Companhia, alertou que a presença do imenso mosaico pode constituir “fonte de sofrimento” não só para as acusadoras de Rupnik, mas para qualquer vítima de abuso sexual ou espiritual no ambiente católico. Propôs, como alternativa a uma remoção unilateral, a colocação de um memorial ou de uma nota explicativa junto à obra, que reconheça o sofrimento das vítimas e incentive a reflexão dos peregrinos.
O debate em Portugal reflete visões divergentes. Enquanto Lourdes optou pela cobertura e o Vaticano deixou de utilizar imagens de Rupnik, outros locais, como o Santuário de Aparecida, continuaram a inaugurar mosaicos associados ao Centro Aletti. Em Fátima, os estatutos do Santuário estabelecem que as orientações da Santa Sé sobre santuários devem ser seguidas. Caso o Vaticano ordene a remoção ou o ocultamento, a instituição cumprirá. Vários bispos, contudo, consideram improvável uma intervenção direta, sugerindo inclusive que o Papa poderia evitar a polêmica simplesmente não entrando na Basílica da Santíssima Trindade — solução já adotada por papas anteriores em missas ao ar livre.
Com um possível julgamento ainda sem conclusão anunciada e a perspectiva de uma visita papal a Fátima ligada ao aniversário das aparições, a controvérsia em torno do legado de Marko Rupnik continua longe de se esgotar. O caso coloca a Igreja perante questões profundas: como equilibrar a justiça para as vítimas, a preservação do património artístico e a pastoral num local visitado anualmente por milhões de fiéis? A resposta de Fátima, por enquanto, privilegia a manutenção da obra, acompanhada de solidariedade declarada às vítimas e da suspensão da sua divulgação. O tempo — e eventuais orientações de Roma — dirão se esta posição se manterá.





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