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Leão XIV e a discreta ascensão da Secretaria do Sínodo

O procedimento escolhido por Leão XIV confere à Secretaria do Sínodo uma posição relevante: ela não apenas conserva a memória de um grande processo consultivo da Igreja, mas participa do mecanismo pelo qual algumas de suas conclusões poderão chegar à mesa do Papa.

secretaria do sinodo

Redação (16/09/2026 10:37, Gaudium Press) Sem anunciar uma nova reforma da Cúria, o Papa parece ampliar o raio de ação de uma estrutura que adquiriu enorme relevância durante o pontificado de Francisco. O encontro mundial sobre Amoris laetitia, em outubro, será um teste importante dessa nova configuração.

Observa-se uma mudança discreta dentro da Cúria Romana. Não houve publicação de uma nova constituição apostólica, criação de um dicastério nem anúncio de uma reforma estrutural. Ainda assim, algumas decisões tomadas durante os primeiros meses do pontificado de Leão XIV sugerem que a Secretaria Geral do Sínodo poderá ocupar um espaço cada vez mais amplo no governo da Igreja.

A questão ganhou destaque nesta semana, após uma análise publicada pelo site The Pillar. O ponto de partida é o encontro convocado por Leão XIV para os dias 7 a 14 de outubro, quando os chefes das Igrejas Católicas Orientais e os presidentes das Conferências Episcopais se reunirão no Vaticano para discutir os dez anos da exortação Amoris laetitia.

O detalhe institucional é importante. O Vaticano esclareceu que a reunião não será uma assembleia do Sínodo dos Bispos. Quando o encontro foi oficialmente apresentado, em abril, a responsabilidade por sua preparação foi confiada ao Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, cabendo à Secretaria Geral do Sínodo prestar apoio organizacional e metodológico.

Nos meses seguintes, porém, as duas instituições passaram a aparecer lado a lado na preparação. Em julho, ambas publicaram conjuntamente o percurso temático que orientará os trabalhos. O próprio site da Secretaria do Sínodo mantém atualmente uma área dedicada ao encontro.

Isoladamente, tal fato poderia ser interpretado como mera questão organizacional. Considerado, porém, juntamente com outras decisões recentes de Leão XIV, o movimento merece atenção.

Uma herança de Francisco

A Secretaria do Sínodo não surgiu com Francisco. A sua origem remonta a São Paulo VI, que instituiu o Sínodo dos Bispos em 1965. Mas foi durante o último pontificado que a sua importância aumentou de forma significativa.

Francisco transformou a sinodalidade em um dos grandes eixos de seu governo. Em 2018, a constituição apostólica Episcopalis communio reforçou a participação da Secretaria tanto na preparação das assembleias como na implementação posterior de suas conclusões. Em 2022, a constituição Praedicate Evangelium consolidou a sua presença dentro da estrutura da Cúria Romana.

O Sínodo sobre a Sinodalidade ampliou ainda mais essa importância. O processo iniciado em 2021 não terminou simplesmente com a assembleia de outubro de 2024. Francisco determinou uma fase de implementação, acompanhada por grupos de estudo encarregados de examinar algumas das questões mais complexas surgidas durante os trabalhos.

Quando Leão XIV foi eleito, recebeu, portanto, uma estrutura sinodal em plena atividade. A questão era saber o que faria com ela.

Os primeiros sinais indicam mais continuidade do que retração.

Leão XIV não encerrou o processo

Uma das decisões mais significativas do novo Papa consistiu em permitir que os trabalhos herdados do processo sinodal prosseguissem e que os seus resultados fossem publicados.

Recentemente, a Secretaria tornou públicos novos relatórios dos grupos de estudo. Estes tratam de questões concretas da organização da Igreja, entre elas as relações entre bispos e institutos religiosos, bem como possíveis mudanças nas visitas ad limina, realizadas periodicamente pelos bispos a Roma.

Leão XIV determinou também que os relatórios finais fossem publicados progressivamente e solicitou aos dicastérios competentes, juntamente com a Secretaria do Sínodo, que transformassem as conclusões em propostas operacionais a serem posteriormente submetidas à sua decisão.

Trata-se de uma distinção fundamental. Os documentos dos grupos de estudo não constituem decisões do Papa; são propostas. A autoridade final continua pertencendo ao Romano Pontífice e aos organismos da Cúria competentes para cada matéria.

Ainda assim, o procedimento escolhido por Leão XIV confere à Secretaria do Sínodo uma posição relevante: ela não apenas conserva a memória de um grande processo consultivo da Igreja, mas participa do mecanismo pelo qual algumas de suas conclusões poderão chegar à mesa do Papa.

O teste de Amoris laetitia

É nesse contexto que o encontro de outubro ganha significado especial.

Em março, por ocasião do décimo aniversário de Amoris laetitia, Leão XIV anunciou a intenção de reunir os responsáveis pelas Conferências Episcopais e pelas Igrejas Orientais para um discernimento sobre a evangelização das famílias. Em sua mensagem, o Papa apresentou explicitamente a iniciativa como continuidade de um caminho iniciado durante o pontificado de Francisco.

O encontro será de grande representatividade. Em vez de convocar uma assembleia sinodal formal, Leão reunirá diretamente os dirigentes dos episcopados do mundo inteiro. O método, entretanto, será sinodal.

O documento preparatório organiza a discussão em cinco grandes temas: a realidade atual das famílias, a descoberta da vocação matrimonial pelos jovens, os primeiros anos do casamento, o acompanhamento das famílias em situações difíceis e o papel missionário das famílias cristãs.

Temos, portanto, algo institucionalmente interessante: uma reunião que não é um Sínodo, convocada diretamente pelo Papa com os líderes dos episcopados mundiais, mas preparada e conduzida segundo métodos desenvolvidos durante o processo sinodal.

Talvez seja justamente aí que esteja a novidade.

Sinodalidade sem um Sínodo permanente

Durante o pontificado de Francisco, a palavra “sinodalidade” ficou inevitavelmente associada ao grande Sínodo iniciado em 2021. Leão XIV poderá estar começando uma etapa diferente, na qual os métodos desenvolvidos naquele processo deixam de depender de uma única assembleia e passam a integrar outras formas de consulta e de governo.

Isso explicaria por que a Secretaria Geral do Sínodo continua recebendo atribuições relevantes.

Não significa, necessariamente, que ela esteja substituindo os dicastérios. No caso de Amoris laetitia, por exemplo, o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida permanece formalmente envolvido e aparece conjuntamente com a Secretaria na documentação oficial.

A questão mais interessante é outra: a Secretaria do Sínodo estaria se tornando uma espécie de instrumento transversal do pontificado, capaz de fornecer metodologia, consulta e acompanhamento a assuntos cuja competência material pertence a outros dicastérios?

Ainda é cedo para responder.

Mas a pergunta merece ser feita, porque uma mudança desse tipo não precisaria ocorrer por meio de uma grande reforma jurídica. Poderia acontecer gradualmente, mediante encargos sucessivos confiados pelo Papa.

Um estilo de governo começa a aparecer

Leão XIV encontra-se ainda no início de seu pontificado. Qualquer tentativa de definir prematuramente o seu modelo de governo corre o risco de enxergar uma arquitetura onde existem apenas decisões circunstanciais.

Entretanto, outubro oferecerá um teste particularmente interessante.

Será possível observar quem conduzirá efetivamente os trabalhos, qual será o papel do Cardeal Mario Grech e da Secretaria do Sínodo, como o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida participará das discussões e, sobretudo, o que acontecerá depois da reunião.

Este último ponto talvez seja o mais importante.

Se o encontro produzir apenas recomendações pastorais sobre a família, estaremos provavelmente diante de uma colaboração específica entre dois organismos da Cúria. Se, porém, o modelo for posteriormente utilizado para outras grandes questões da Igreja universal, poderá estar surgindo algo mais significativo.

Francisco fez da sinodalidade uma das palavras centrais de seu pontificado. Leão XIV parece não ter intenção de abandoná-la. A questão agora é descobrir o significado que ele próprio atribuirá à palavra.

E talvez a resposta não venha de um novo grande Sínodo, mas da maneira silenciosa como o novo Papa começa a governar.

A chave do texto é não comprar integralmente a tese do The Pillar. Os documentos oficiais revelam algo mais interessante: existe de fato uma ampliação prática da participação da Secretaria, mas formalmente o Vaticano continua distinguindo suas competências das dos dicastérios.

O presente artigo mantém-se, por isso, no plano investigativo, sem transformar uma interpretação vaticanista em fato consumado.

Por Rafael Ribeiro

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