Venezuela: homenagem à Virgem do Vale
Quando o mar do Caribe se transforma: muitas embarcações sulcam as ondas, não para a pesca diurna, mas para escoltar sua rainha do mar, a Virgem do Vale.
Redação (15/09/2026 09:55, Gaudium Press) Há um dia no calendário em que as águas do Caribe venezuelano deixam de ser apenas azul, sal e correntezas para se converterem em um verdadeiro altar flutuante. Todos os anos em 8 de setembro, a Ilha de Margarita testemunha um espetáculo de fé que une peñeros (barcos de pesca artesanal), navios da Marinha e milhares de devotos: a tradicional procissão marítima — conhecida localmente como barloventeo — em honra à Virgen del Valle (Nossa Senhora do Vale).

Foto: Buques Escuela Navegando/ Facebook
A imagem da padroeira do Oriente venezuelano, dos pescadores e da Armada Nacional Bolivariana parte da Praia Valdés, em Porlamar, escoltada por centenas de embarcações. À frente navega frequentemente o Navio Escuela Simón Bolívar, o famoso navio-escola da Marinha venezuelana. Em anos recentes, o número de barcos chegou a superar 480 e, em algumas edições, ultrapassou as 800 unidades, transformando a Baía de Pampatar em um mar colorido de bandeiras, flores, balões e orações. O destino é o Farallón, uma rocha onde duas imagens da Virgem permanecem submersas, como um santuário oculto nas profundezas, velando em silêncio por quem vive do e no mar.
Para o pescador margariteño, a Virgencita del Valle não é apenas um símbolo religioso. Ela é a “marinheira suprema”, a protetora que acompanha cada saída ao amanhecer e cada retorno ao entardecer. A saudação diária dos homens do mar é sempre a mesma: “Com Deus e a Virgem”. Como costuma dizer um pescador local, “quem não tem fé não é bom pescador”. A vida no mar é imprevisível: depende da sorte, do tempo, das correntes e da abundância dos peixes. Por isso, a fé se torna a âncora mais firme. “São duas coisas que vão juntas”, afirmam gerações de famílias que transmitem a tradição de pai para filho.
Origens de uma devoção centenária
A história da Virgem do Vale remonta ao século XVI. A imagem chegou à ilha de Cubagua (então importante centro de extração de pérolas), por volta de 1529-1530, vinda da Espanha. Após um devastador furacão que destruiu Nueva Cádiz em 1541, a imagem foi levada para a Ilha de Margarita, no Vale do Espírito Santo, onde se consolidou a devoção. Com o tempo, a pequena ermita deu lugar à atual Basílica Menor de Nuestra Señora del Valle, construída no final do século XIX e elevada a basílica em 1955.

A procissão marítima propriamente dita — o barloventeo — é mais recente. Nasceu no final dos anos 1990 (por volta de 1997-1998) por iniciativa de uma família de Pampatar, inspirada nas tradicionais procissões marítimas em honra a Nossa Senhora do Carmo. O que começou com um único barquinho de pesca chamado El Furiosito cresceu e se tornou uma das manifestações de fé popular mais vistosas da ilha, reunindo não só pescadores, mas também residentes, visitantes e autoridades civis e militares.
Muito além do mar
As celebrações se estendem por vários dias. No início de setembro ocorre a “bajada” da imagem de seu camarim até a nave da basílica ou o Campo Eucarístico. No dia 8, a programação começa na madrugada com missas especiais (incluindo a da juventude), seguida da Eucaristia pontifical e, à tarde, da procissão terrestre. Paralelamente, o barloventeo transforma a baía em um cenário único, onde fé, tradição e vida marinha se encontram.
Entre os milagres mais conhecidos atribuídos à Virgem está o de um pescador de pérolas que, após ser picado por uma raia e correr risco de amputação, prometeu oferecer a primeira pérola que encontrasse caso se curasse. Recuperou a saúde e encontrou uma pérola em formato de perna, que hoje se conserva no museu diocesano. Histórias como essa alimentam a devoção de gerações.
Em meio a um mar tempestuoso e incerto, a devoção à “Virgencita del Valle” permanece como a única âncora inabalável que une a terra firme à eternidade.
Buques Escuela Navegando






Deixe seu comentário