Um convite ao Papa da prisão: Leão XIV seguirá os passos de Francisco na Argentina?
O convite argentino suscita uma comparação inevitável: Leão XIV demonstra a mesma proximidade de Francisco com os encarcerados? Uma análise das agendas dos dois papas em períodos equivalentes oferece uma resposta.

Leão XIV visita prisão de Bata na Guiné Equatorial Foto: Vatican Media
Redação (13/09/2026 15:42, Gaudium Press) Mais de 480 detentos da Unidade Penitenciária nº 17 de Urdampilleta, na província argentina de Buenos Aires, escreveram ao Papa Leão XIV convidando-o a visitar o presídio durante sua próxima viagem ao país. As cartas foram reunidas por iniciativa da pastoral carcerária e encaminhadas ao Vaticano. Não se trata apenas de um pedido para encontrar uma personalidade mundial. Para aqueles homens privados de liberdade, a possível presença do Papa representaria a confirmação de que, apesar dos crimes cometidos e das penas recebidas, eles não deixaram de pertencer à sociedade nem foram abandonados por Deus.
A escolha de Urdampilleta é significativa. Trata-se de uma pequena localidade distante dos grandes centros políticos e religiosos que normalmente integram o itinerário de uma viagem pontifícia. Caso aceite o convite, Leão XIV desviará o olhar do cerimonial oficial para adentrar uma realidade que raramente recebe atenção, exceto quando ocorre uma rebelião, uma fuga ou uma tragédia. É precisamente esse deslocamento – do centro para uma periferia esquecida – que transformou as visitas de Francisco aos presídios em uma das imagens mais características de seu pontificado.
O convite argentino suscita, por isso, uma comparação inevitável: Leão XIV demonstra a mesma proximidade de Francisco com os encarcerados? Uma análise das agendas dos dois papas em períodos equivalentes oferece uma resposta mais equilibrada do que meras impressões gerais.
As visitas de Leão XIV aos presídios
Leão XIV foi eleito em 8 de maio de 2025. Até 12 de setembro de 2026, transcorreram aproximadamente 16 meses de pontificado. Nesse intervalo, ele realizou duas visitas propriamente ditas a estabelecimentos penitenciários.
A primeira ocorreu em 22 de abril de 2026, durante sua viagem apostólica à África. Na prisão de Bata, na Guiné Equatorial, o Papa afirmou que ninguém está excluído do amor de Deus e defendeu uma justiça que não se limite a punir. Para ele, a verdadeira justiça deve reconstruir a vida das vítimas, dos culpados e das comunidades atingidas pelo mal. Leão também pediu oportunidades de estudo e trabalho para os detentos, elementos indispensáveis a uma reinserção digna. Foi uma intervenção de grande densidade, na qual a misericórdia não apareceu como negação da responsabilidade, mas como abertura à transformação pessoal. O discurso encontra-se registrado no site oficial da Santa Sé.
A segunda visita ocorreu em 10 de junho de 2026, no Centro Penitenciário Brians 1, próximo a Barcelona, durante a viagem de Leão XIV à Espanha. Ali, o Papa ouviu o testemunho de duas mulheres presas, abraçou-as e recordou que os erros cometidos não determinam definitivamente a identidade de uma pessoa. Inspirando-se nas Confissões de Santo Agostinho, explicou que o passado não precisa condenar o futuro, pois pode tornar-se o ponto de partida para novas escolhas. Sua mensagem foi sintetizada em uma frase particularmente forte: Deus ama cada pessoa como ela é, mas a sonha melhor. A visita foi relatada pelo site Vatican News.
As visitas de Francisco às prisões
No mesmo período de pontificado, contado a partir de sua eleição em 13 de março de 2013, Francisco havia realizado três visitas a presídios. A primeira aconteceu apenas quinze dias após o conclave, em 28 de março de 2013. Na Quinta-feira Santa, o novo Papa dirigiu-se ao centro de detenção juvenil Casal del Marmo, em Roma, onde lavou os pés de doze jovens presos. O gesto causou impacto não somente por romper com a celebração pontifícia tradicional na Basílica de São João de Latrão, mas também por incluir mulheres e jovens de outras religiões. Francisco explicou que ali se encontrava movido por uma exigência do coração e pelo desejo de servir, conforme registra a homilia oficial.
A segunda visita ocorreu em 21 de junho de 2014, no presídio de Castrovillari, na Calábria. Francisco advertiu que uma pena sem verdadeiro esforço de reinserção degenera em instrumento de vingança social. A sociedade, sustentou, não pode simplesmente isolar o condenado e considerar o problema resolvido. O perdão de Deus não abandona a pessoa no lugar em que ela caiu, mas a acompanha no caminho de volta. O encontro está documentado pela Santa Sé.
Duas semanas depois, em 5 de julho de 2014, Francisco visitou o presídio de Isernia. Ali pronunciou uma de suas reflexões mais conhecidas sobre os encarcerados: diante de um preso, perguntava a si mesmo por que aquela pessoa estava ali e ele não. Não se tratava de minimizar o crime, mas de reconhecer a fragilidade comum a todos os seres humanos. O Papa voltou a insistir que o simples agravamento das penas não resolve o problema da criminalidade e que a reinserção deve começar tanto na consciência do detento quanto nas condições oferecidas pela sociedade. O texto também pode ser consultado no arquivo oficial do Vaticano.
Análise
A comparação, portanto, apresenta um resultado objetivo: em seus primeiros 16 meses, Leão XIV visitou dois presídios, enquanto Francisco visitou três. Não foram contabilizadas missas celebradas no Vaticano com a participação de detentos, audiências com grupos de presos, telefonemas, mensagens ou encontros realizados fora dos estabelecimentos penitenciários. O critério adotado foi a presença física do Papa em uma prisão para encontrar seus internos.
A diferença numérica existe, mas é pequena e não permite concluir que Leão XIV tenha relegado a pastoral carcerária a um plano secundário. Francisco fez dela um sinal imediato de seu pontificado, entrando em um centro de detenção apenas quinze dias depois da eleição. Leão demorou quase um ano para realizar sua primeira visita, mas já esteve em dois presídios de países diferentes e incorporou o tema às suas viagens apostólicas. Mais importante ainda, sua linguagem demonstra continuidade substancial com a de seu antecessor.
Francisco insistia na misericórdia, na proximidade e na pergunta pessoal: “Por que ele e não eu?”. Leão XIV acrescenta uma formulação mais sistemática sobre a justiça restaurativa. O castigo pode ser necessário para proteger a sociedade e reconhecer a gravidade do mal, mas não pode apagar a dignidade do culpado. Uma justiça incapaz de oferecer reconstrução converte a prisão em um depósito de seres humanos, produzindo mais ressentimento e violência.
A eventual visita a Urdampilleta poderia igualar o número alcançado por Francisco no mesmo período e, acima de tudo, conferir um caráter profundamente argentino à primeira passagem de Leão XIV pelo país. Francisco, embora tenha visitado repetidamente prisões em diferentes partes do mundo, nunca voltou como Papa à sua terra natal. Leão teria agora a possibilidade de levar aos detentos argentinos uma proximidade que eles aguardaram durante todo o pontificado de seu compatriota.
A Igreja não entra em uma prisão para declarar inocente quem foi condenado nem para ignorar a dor das vítimas. Ela entra porque Cristo se identificou com o prisioneiro e porque nenhuma sentença humana possui autoridade para declarar uma pessoa irremediavelmente perdida. As 480 cartas de Urdampilleta recordam ao Papa e a toda a Igreja que, por trás das grades, ainda existem consciências capazes de arrependimento, famílias que esperam e homens que desejam ser vistos novamente como homens.
Se Leão XIV aceitar o convite, sua visita não apagará os crimes nem abrirá automaticamente as portas das celas. Poderá, porém, abrir uma porta mais difícil: a possibilidade de que uma vida condenada pelo passado volte a acreditar no futuro.
Por Rafael Ribeiro





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