Jerusalém pertence a todos? Cardeal Pizzaballa propõe recuperar a vocação universal da Cidade Santa
Segundo o Cardeal Pizzaballa, a missão da Jerusalém terrestre é tornar-se imagem e reflexo da Jerusalém celeste, além de profecia da reconciliação e da paz desejadas por Deus para toda a família humana.

Foto: latinpatriarchateofjerusalem
Redação (10/09/2026 17:09, Gaudium Press) Em uma região na qual até mesmo as palavras “paz”, “convivência” e “diálogo” parecem ter perdido o significado, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa decidiu começar por uma pergunta anterior às negociações diplomáticas e aos projetos políticos: afinal, qual é a verdadeira vocação de Jerusalém?
O Patriarca Latino de Jerusalém lançou nesta semana o fórum Within Your Gates, expressão que pode ser traduzida como “Às tuas portas”. Desenvolvido em parceria com o centro acadêmico da Universidade de Notre Dame em Jerusalém, o novo fórum reunirá teólogos, historiadores, cientistas políticos, arquitetos, líderes religiosos e representantes da sociedade civil. A proposta consiste em estudar a missão universal da Cidade Santa e buscar caminhos concretos para o bem de todos os seus habitantes.
A iniciativa nasce após anos de guerra, violência e deterioração das relações entre israelenses e palestinos. Para Pizzaballa, o conflito não destruiu somente vidas, famílias e edifícios, mas também contaminou a linguagem empregada para falar sobre a região. Palavras repetidas continuamente em pronunciamentos oficiais já não parecem capazes de traduzir o sofrimento cotidiano nem de oferecer um horizonte de esperança.
Quando a linguagem deixa de comunicar a realidade, advertiu o Patriarca, a violência passa a falar mais alto. Recuperar o significado de Jerusalém torna-se, portanto, uma maneira de recuperar também a possibilidade de imaginar um futuro diferente.
O sonho de Deus para Jerusalém
A proposta de Pizzaballa não consiste em apresentar uma nova solução territorial para o conflito, nem em defender os interesses de uma das partes. O ponto de partida é essencialmente religioso: Jerusalém possui uma vocação que ultrapassa seus muros, seus habitantes e as fronteiras dos Estados que disputam o seu controle.
Segundo o Cardeal, a missão da Jerusalém terrestre é tornar-se imagem e reflexo da Jerusalém celeste, além de profecia da reconciliação e da paz desejadas por Deus para toda a família humana. É uma afirmação ousada, sobretudo quando pronunciada em uma cidade marcada por divisões políticas, religiosas e étnicas aparentemente irreconciliáveis.
Jerusalém não é somente o cenário de uma disputa contemporânea. Ela ocupa um lugar central na experiência religiosa de judeus, cristãos e muçulmanos. Para os cristãos, é a cidade da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Nela, a violência humana alcançou o Filho de Deus, mas também foi vencida pela Ressurreição.
Essa dimensão impede que os cristãos olhem para Jerusalém apenas como uma questão geopolítica. A Cidade Santa é também um sinal espiritual. Suas divisões revelam as feridas da humanidade, enquanto sua vocação recorda que a reconciliação não é uma ingenuidade diplomática, mas faz parte do plano de Deus.
O nome Within Your Gates foi inspirado no Salmo 121, tradicionalmente cantado pelos peregrinos durante sua subida a Jerusalém: “Nossos pés já se detêm às tuas portas, Jerusalém”. A imagem das portas é particularmente significativa. Elas podem servir para proteger e separar, mas também para acolher aqueles que chegam.
Pizzaballa propõe interpretar as portas de Jerusalém como uma abertura em todas as direções. A cidade não deveria ser monopólio de um povo, de uma religião ou de uma ideologia. Sua identidade mais profunda estaria precisamente em acolher peregrinos e estrangeiros, permitindo que cada um se aproxime do mistério que ela representa.
Um fórum sem agenda partidária
O novo fórum pretende produzir pesquisas interdisciplinares aplicadas à realidade de Jerusalém. Entre os temas previstos estão o significado teológico da cidade, sua vocação universal, a linguagem empregada nos conflitos e as possibilidades de atuação das pessoas que vivem sob severas limitações políticas e sociais.
A intenção é evitar tanto as abstrações acadêmicas quanto as respostas partidárias previamente estabelecidas. Os participantes deverão enfrentar questões concretas da vida dos habitantes de Jerusalém e desenvolver estudos capazes de contribuir para projetos reais de reconciliação, dignidade humana e convivência.
O caráter plural da iniciativa aparece em sua composição. Ao lado de Pizzaballa encontram-se personalidades provenientes de diferentes tradições religiosas e ambientes intelectuais. Participam o filósofo palestino Sari Nusseibeh, conhecido por sua defesa da não violência; Sarah Stroumsa, antiga reitora da Universidade Hebraica de Jerusalém; e Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares e cristã árabe nascida em Haifa.
Também integram os trabalhos pesquisadores cristãos, judeus e muçulmanos, além de especialistas em política, história, arquitetura e relações inter-religiosas. A diversidade não aparece como um obstáculo a ser tolerado, mas como uma condição necessária para que Jerusalém possa ser compreendida em toda a sua complexidade.
O fórum não pertence formalmente ao Patriarcado Latino, embora tenha sido criado a pedido de Pizzaballa e conte com sua participação direta. A estrutura procura preservar a independência necessária para que seus integrantes abordem verdades difíceis, inclusive aquelas capazes de desafiar as próprias comunidades a que pertencem.
A presença cristã como serviço
A criação do Within Your Gates também revela a compreensão de Pizzaballa sobre o papel dos cristãos na Terra Santa. Numericamente minoritários, eles não possuem força política ou militar para determinar os rumos da região. Sua contribuição específica precisa vir de outro lugar.
A presença cristã não pode se limitar à conservação dos santuários ou à administração de instituições. Ela deve oferecer uma maneira diferente de olhar para a cidade e para as pessoas que nela vivem. Em vez de perguntar quem pode possuir Jerusalém exclusivamente, o cristianismo recorda que a Cidade Santa recebeu uma missão em benefício de toda a humanidade.
Isso não significa ignorar as injustiças concretas nem colocar no mesmo nível todas as responsabilidades envolvidas no conflito. A busca pela reconciliação exige verdade e não pode ser construída sobre o esquecimento das vítimas. Ao mesmo tempo, a verdade cristã não permite transformar nenhum povo em inimigo absoluto ou negar a dignidade daqueles que se encontram do outro lado das divisões políticas.
Pizzaballa tem insistido que a Igreja da Terra Santa não deve abandonar sua identidade para aderir a uma narrativa nacionalista. Ela é composta por comunidades diferentes e exerce sua missão entre israelenses, palestinos, jordanianos, migrantes e peregrinos. Sua liberdade está justamente em não reduzir o Evangelho aos interesses de uma das partes.
O fórum representa uma tentativa de traduzir essa vocação em presença intelectual e social. A Igreja não oferece um tratado de paz, mas cria um espaço no qual as diferentes comunidades possam recuperar uma linguagem que não seja determinada pelo medo, pelo ressentimento ou pela propaganda.
Quando o diálogo parece impossível
Em tempos de guerra, iniciativas acadêmicas podem parecer insuficientes diante da urgência do sofrimento. Nenhum seminário devolverá a vida aos mortos, reconstruirá imediatamente as casas destruídas ou eliminará as desconfianças acumuladas ao longo de gerações.
Pizzaballa não apresenta o projeto como solução imediata para o conflito. A sua proposta é mais modesta e, ao mesmo tempo, mais profunda. Antes de reconstruir acordos políticos, será necessário reconstruir a capacidade de reconhecer o outro e de falar sobre a realidade sem transformar cada palavra em instrumento de combate.
O Patriarca parte da convicção de que as fraturas, quando enfrentadas com honestidade, podem se tornar o fundamento de algo novo. O diálogo que evita a verdade produz apenas declarações vazias. Mas a verdade sem abertura ao encontro pode se converter em mais uma arma contra o adversário.
Jerusalém concentra esse paradoxo. É a cidade chamada a testemunhar a paz, mas continuamente atravessada pela violência. É venerada como santa, mas disputada como propriedade exclusiva. Atrai peregrinos do mundo inteiro, enquanto muitos de seus próprios habitantes vivem separados por barreiras, suspeitas e memórias dolorosas.
Perguntar a quem Jerusalém pertence talvez seja começar pela pergunta errada. Para Pizzaballa, a verdadeira questão é saber a quem Jerusalém é chamada a servir. Se sua vocação é ser profecia da reconciliação universal, ela não poderá pertencer plenamente a ninguém enquanto não houver lugar, dentro de suas portas, para todos.
Por Rafael Ribeiro





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