Novo bispo em Chongqing: crescem as preocupações com o controle da Igreja pelo Partido Comunista na China
A consagração do novo bispo de Chongqing voltou a colocar em evidência as sérias concessões que o “acordo secreto” entre o Vaticano e Pequim implica.

Foto: chinacatholic.cn
Redação (11/09/2026 08:49, Gaudium Press) A diocese chinesa de Chongqing, vacante há 25 anos, tem novo bispo. O fato, contudo, longe de ser motivo de júbilo unânime, volta a colocar em evidência as sérias concessões envolvidas no “acordo secreto” entre o Vaticano e Pequim, sob o qual esses hierarcas vêm sendo escolhidos.
Em uma contundente análise, publicada no site católico The Catholic Herald, o jornalista Michael Haynes examina a consagração de Dom André Ding Yang e destaca as perplexidades e os temores fundamentados que cercam a nomeação, sobretudo pela sua inegável ligação com o aparato estatal chinês.
Cronologia de uma escolha marcada pela imposição ideológica
A consagração de Dom Ding Yang ocorreu formalmente no dia 8 de setembro, na Catedral de São José, em Chongqing. O comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé informou que o Papa Leão XIV o havia nomeado em 28 de julho. Haynes, no entanto, sublinha um detalhe revelador da realidade pastoral na China: o bispo já havia sido eleito três meses antes, em 15 de abril, pela Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC).
O jornalista não hesita em recordar a verdadeira natureza dessa associação, descrevendo-a categoricamente como a “igreja estatal leal a Pequim e à ideologia comunista”. Esse é o principal motivo de preocupação que paira sobre a consagração: o novo pastor de Chongqing é, antes de tudo, um candidato indicado, formado e aprovado por uma estrutura governamental cujo objetivo primordial é submeter a religião aos ditames do Partido Comunista Chinês (PCC).
A trajetória de Dom André Ding Yang
Um dos pontos centrais destacados por Haynes e por outros analistas eclesiais é o perfil do novo prelado.
Nascido em 1981 e ordenado sacerdote em 2007, Dom Ding Yang possui formação acadêmica que inclui estudos no Seminário de Pequim, em Macau e na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma (2014-2015). Em 2023, foi um dos delegados da China continental na sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade, no Vaticano.
No entanto, sua trajetória também inclui uma sólida carreira ligada às estruturas do Partido Comunista. Não se trata de um simples clérigo obrigado a se registrar civilmente para celebrar a Missa. Ele ocupava os cargos de vice-presidente das “duas associações” (a Associação Patriótica e o Comitê de Assuntos Eclesiásticos) em Chongqing e exercia a função de subsecretário-geral do Conselho de Bispos Chineses — órgão estatal que dirige a vida da Igreja e não possui reconhecimento formal da Santa Sé.
Além disso, apenas dois meses antes de sua consagração episcopal (no final de junho de 2026), Dom Ding Yang participou como responsável oficial de uma campanha de formação política e ideológica dirigida ao clero local, realizada em coordenação direta com o Departamento de Trabalho da Frente Unida do PCC.
O encontro não tinha como objetivo o aprofundamento da fé ou da doutrina católica, mas sim instruir os sacerdotes na aplicação das orientações do 20º Congresso do Partido Comunista, na assimilação do “Pensamento de Xi Jinping” e no fortalecimento do princípio de “independência e autogestão” da Igreja em relação a Roma. Sem emitir juízos sobre a fé pessoal do prelado, trata-se de alguém que tem atuado como engrenagem ativa da maquinaria comunista que busca a “sinização” da fé católica na China — processo que, na prática, significa a submissão da Igreja ao PCC.
Um padrão que se repete
A consagração de Chongqing soma-se a uma série de nomeações ocorridas em 2026, em dioceses como Chifeng, Bayannur e Datong. Todas seguem o mesmo padrão descrito por observadores internacionais e agências especializadas: é o Partido Comunista Chinês quem escolhe, prepara e impõe os candidatos, garantindo previamente seu perfil “patriótico” e socialista. Ao Vaticano resta apenas a faculdade formal de um “direito de veto” ou de uma aprovação a posteriori, a fim de evitar um cisma aberto.
Nesse sentido, os detalhes do acordo “secreto” já não são exatamente secretos. E, à luz dos contextos acima, não deixam a Santa Sé em boa posição — especialmente quando se considera que os membros da Igreja clandestina, fiéis a Roma e que se recusam a se submeter ao comunismo de Pequim, continuam a ser hostilizados, vigiados e forçados ao ostracismo.
Um acordo secreto e um desprezo público
Haynes mostra ainda como o governo chinês conduz a narrativa dessas nomeações, evidenciando as assimetrias do acordo diplomático.
Enquanto o Vaticano anunciou que o novo bispo havia sido aprovado “nos termos do acordo da Santa Sé com a China”, a Associação Patriótica (APCC) fez seu próprio anúncio omitindo completamente qualquer menção à nomeação papal. Para Pequim, a autoridade do Papa simplesmente não é mencionada — o que revela, no mínimo, um menosprezo, se não um desprezo aberto, por essa autoridade. Como destaca o autor, “como sempre, os detalhes divulgados pela APCC não fizeram menção à nomeação… já que a igreja estatal não reconhece a autoridade da Santa Sé”.
Haynes enfatiza que essa nomeação continua a ocorrer “alinhada ao acordo secreto do Vaticano com a China”, recordando a opacidade de um pacto cujos detalhes exatos os fiéis e a Igreja universal ainda desconhecem. Os frutos práticos, contudo, mostram uma Igreja oficialista chinesa atuando com total independência de Roma em suas comunicações públicas.





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