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Fénelon: arcebispo dulçoroso, sentimental e mundano

Durante o reinado de Luís XIV, viveu na França um prelado que foi preceptor de um neto do Rei Sol, escreveu várias obras e chegou a ser admitido na Academia Francesa, o que na época era considerado grande glória: Fénelon.    

François de Salignac de La Mothe-Fénelon Foto: Wikipedia

François de Salignac de La Mothe-Fénelon Foto: Wikipedia

Redação (09/09/2026 08:53, Gaudium Press) Filho de marquês, François de Salignac de La Mothe-Fénelon nasceu em 1651, no Castelo de Fénelon, em Dordogne –Sudoeste da França. Ordenado sacerdote em 1677, tornou-se Superior de um internato de Paris para a educação religiosa de moças cujos pais eram protestantes convertidos ao Catolicismo.

Dez anos depois, foi nomeado preceptor do menino Duque de Borgonha, neto de Luís XIV e seu eventual herdeiro, para o qual escreveu “As aventuras de Telêmaco”. Trata-se de um poema – imitação da Odisseia, de Homero – onde ele expõe uma pedagogia para formar seu discípulo.

Nomeado arcebispo de Cambrai, Norte da França, recebeu os títulos de Duque e Príncipe do Sacro Império romano alemão.

Descontente com os escritos de Fénelon, Luís XIV o expulsou da Corte. O célebre memorialista Duque de Saint-Simon (1675-1755) assim descreveu o Duque de Borgonha, que fora educado por Fénelon e completara 18 anos de idade: “é um príncipe afável, doce, humano, moderado”.[1]

Ora, “todo verdadeiro católico deve tender a uma alta respeitabilidade, a uma gravidade, a uma firmeza, a uma elevação que o deve distinguir da vulgaridade, da sordície, da extravagância de tudo quanto cai sob o domínio de Satanás”.[2]

Influenciado pela heresia quietista

Nessa época, difundiu-se, em regiões da Europa, a heresia do quietismo, pregada pelo padre espanhol Miguel de Molinos.

Madame Guyon, uma viúva francesa, escreveu diversos livros contendo palavras, doutrinas e “profecias” eivadas dessa heresia. Dizia, por exemplo, que, no estado de perfeição, a alma deve ser indiferente a todas as coisas, aos bens espirituais e à salvação, bem como aos bens temporais.

Fénelon deixou-se envolver por essa viúva e chegou a afirmar que era uma santa. Entretanto, ela foi conduzida a uma prisão de um convento e depois à Bastilha.

Em 1697, ele escreveu a obra “Explicação das máximas dos santos sobre a vida interior”, contendo erros quietistas. O Papa Inocêncio XII condenou 23 proposições extraídas desse livro por serem “temerárias, escandalosas, mal sonantes, ofensivas aos ouvidos piedosos, perniciosas na prática”.[3]

O arcebispo Fénelon acolheu a sentença papal e morreu em 1715, aos 63 anos.

Luta entre Deus e o demônio, o bem e o mal

Sua obra “Telêmaco”, onde propugna uma educação desprovida da virtude da fortaleza, foi utilizada na formação de diversos príncipes da França, causando-lhes graves deformações na mentalidade. Ignorava, portanto, a necessidade de se combater as más ideias e as tendências desordenadas causadas pelo pecado original.

Ora, a existência da luta entre Deus e o demônio, o bem e o mal, é ponto essencial da Doutrina católica. Conforme narra o Apocalipse, no Céu ocorreu uma grande batalha na qual o Arcanjo São Miguel expulsou Lúcifer, que passou a ser chamado Diabo e Satanás. (cf. Ap 12, 7-9).

  Essa guerra continuou entre os filhos do Onipotente e os sequazes de Satanás. Após o pecado original, Deus disse ao diabo representado pela serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher – isto é, a Virgem Maria –, entre a tua descendência e a dela” (Gn. 3, 15).

O admirável Jó, que foi premiado por Deus após ter sofrido muitas investidas do demônio, exclamou: “A vida do homem nesta Terra é uma luta” (Jó 7, 1).  Santo Elias, perseguido por Jezabel que era dirigida por 450 profetas do maligno, “levou-os à torrente do Quison, onde os matou”. (I Rs 18, 40).

Nos salmos de Davi, há muitos trechos que exprimem a cólera de Deus contra os maus. Exemplo: “Ele esmaga a cabeça dos que são seus inimigos, e os crânios contumazes dos que vivem no pecado.” (Sl. 67,22).

Nosso Senhor Jesus Cristo expulsou duas vezes os vendilhões do Templo. Perseguido pelos fariseus, increpou-os truculentamente com palavras transcritas pelo Apóstolo São Mateus (cf. Mt 23, 13-33).

Os Santos praticaram heroicamente a virtude da combatividade. A bondosa, paciente, caridosa Santa Terezinha de Menino Jesus, numa carta a sua irmã Celina, escreveu: “A santidade não consiste em dizer coisas bonitas, nem mesmo consiste em pensá-las, nem em senti-las!…  É preciso conquistá-la à ponta da espada.”[4]

Estilo de piedade que se opunha à combatividade

A obra “As aventuras de Telêmaco” teve grande difusão na Europa e foi elogiada por autores revolucionários, como Rousseau que a cita várias vezes em seu livro “Emilio”.

Sinterizamos comentários feitos por Dr. Plinio Corrêa de Oliveira sobre esse tema.

Fénelon foi um “arcebispo dulçoroso, imaginando coisas de uma piedade toda ela de mel, mas não um mel santo e bento de São Francisco de Sales, mas sentimental, mundano, todo humano; um estilo de piedade segundo o qual atacar, discutir, lutar, guerrear eram atitudes censuráveis.

“O discípulo perfeito dele, Télémaque, era um homem que andava pelos bosques apreciando a natureza e não tinha o espírito preparado para o caráter militante desta vida.

“Quem formou Fénelon? Quem permitiu que chegasse a ser Arcebispo de Cambrai ou impediu que ele fosse destituído desse cargo? Assim, nós poderíamos ir até as origens da Revolução e encontraríamos sempre duas fileiras de culpados: os que fizeram e os que permitiram que fosse feito. Quiçá no dia do Juízo os que permitiram serão mais castigados do que aqueles que realizaram. E não será pouco!”

Luís XVI, um dos responsáveis pela Revolução Francesa

Um dos responsáveis pela Revolução Francesa foi Luís XVI, “rei mole, bobo, indolente, não cônscio de seus deveres e direitos, que por sua negligência permitiu tornar-se possível esse acontecimento”.[5]

Seu pai Louis Ferdinand de Bourbon (1729-1765) era um homem católico, mas morreu cedo, sem muita possibilidade de formar o filho. Por causa disso, a formação de Luís XVI, enquanto Delfim, foi entregue a instrutores que se baseavam no livro “Telêmaco”. [6]

Quem foi mais responsável por Luís XVI ser assim? Os estudos históricos mais recentes revelam todo um filão de uma sociedade secreta à qual ele pertencia, constituída por discípulos do Arcebispo de Cambrai, Fénelon, quem talvez seja o fundador da ‘heresia branca’”.

A expressão “heresia branca” foi criada pelo próprio Dr. Plinio para denominar “a mentalidade, frequente em certos ambientes católicos a partir do século XVIII, de quem considera a Religião com um otimismo sistemático, como se o pecado original e o mal não existissem, hipótese cuja formulação constituiria uma verdadeira heresia e que traz como consequência a falta de vigilância e de combatividade em relação aos defeitos morais próprios e alheios”.[7]

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] DICTIONNAIRE DE THÉOLOGIE CATHOLIQUE. Paris: Letouzey et Ané. 1912; v. 7-II, coluna 2141.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Festa de glória e de paz. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XXVIII, n. 333 (dezembro 2025), p. 17.

[3] DICTIONNAIRE DE THÉOLOGIE CATHOLIQUE. Paris: Letouzey et Ané. 1912; v. 7-II, coluna 2142.

[4] SANTA TEREZINHA DO MENINO JESUS. Carta 89, de 26-4-1889.

[5] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Como ocorrem as grandes derrocadas da História. In Dr. Plinio.  Ano XXIV, n. 280 (julho 2021), p. 26.

[6] Cf. Idem. Perambular incerto do trono à guilhotina. Ano XXVI, n. 304 (julho 2023), p. 20.

[7] Idem. Escudo e gládio da Igreja. In Arautos do Evangelho. São Paulo. Ano XXIII, n. 273 (setembro 2024), p. 28.

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