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Bartolomeu I pede plena comunhão com Roma: unidade ainda esbarra no primado do Papa

Bartolomeu aponta um caminho possível, não uma solução já alcançada.

Foto: Ecumenical Patriarchate

Foto: Ecumenical Patriarchate

Redação (08/09/2026 08:44, Gaudium Press) O Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, voltou a manifestar publicamente a sua esperança na restauração da plena comunhão entre católicos e ortodoxos. A declaração foi feita em 4 de setembro, em Budapeste, durante o encerramento do 27º Congresso Internacional da Sociedade para o Direito das Igrejas Orientais, dedicado ao tema “O Bispo de Roma: horizontes futuros a partir das antigas tradições para católicos e ortodoxos”.

Em seu discurso, publicado pelo próprio Patriarcado Ecumênico, Bartolomeu afirmou esperar que, “pela graça e a ajuda do alto”, seja restaurada a plena comunhão com a Igreja de Roma no interior do único Corpo de Cristo. A frase possui um peso que não deveria ser subestimado. O Patriarca não falou apenas em melhorar as relações diplomáticas, promover iniciativas humanitárias comuns ou continuar um diálogo sem conclusão definida. Falou explicitamente em plena comunhão eucarística e eclesial.

A pergunta inevitável é se essa unidade é efetivamente possível depois de quase mil anos de separação.

Do ponto de vista católico, a resposta é afirmativa. A Igreja Católica reconhece nas Igrejas Ortodoxas a sucessão apostólica, o episcopado válido, a verdadeira Eucaristia e os demais sacramentos. O Concílio Vaticano II ensinou que, por meio da celebração eucarística, “a Igreja de Deus é edificada e cresce” nas Igrejas orientais separadas. A divisão, portanto, não ocorre entre a Igreja Católica e comunidades completamente privadas de estrutura sacramental, mas entre Igrejas que conservaram elementos essenciais da constituição apostólica da Igreja (cf. Decreto Unitatis redintegratio).

Isso torna a reconciliação teologicamente mais próxima, mas não necessariamente mais simples do ponto de vista institucional.

A proposta de Bartolomeu

Bartolomeu recorre à imagem da antiga Pentarquia, formada pelas cinco grandes sedes de Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Durante o primeiro milênio, segundo o Patriarca, a comunhão entre essas sedes funcionava como a manifestação mais visível da unidade da Igreja universal. Roma ocupava o primeiro lugar, porém dentro de uma comunhão de Igrejas e não acima delas.

Para explicar esse modelo, Bartolomeu recordou a maneira como o Patriarca Atenágoras recebeu São Paulo VI em 1967: o Papa era o sucessor de Pedro, o primeiro em honra e aquele que preside na caridade. Na leitura ortodoxa apresentada em Budapeste, o primado romano seria um serviço exercido “dentro, e nunca acima” da comunhão das Igrejas irmãs.

O Patriarca também retomou uma conhecida formulação de Joseph Ratzinger, anterior à sua eleição como Bento XVI: Roma não deveria exigir do Oriente, a respeito do primado, mais do que aquilo que foi formulado e vivido durante o primeiro milênio.

Essa referência é importante, mas não resolve automaticamente o problema. A frase de Ratzinger pode indicar um método para a reconciliação, contudo, permanece em aberto o que exatamente significava, na prática, o primado romano no primeiro milênio. Católicos e ortodoxos reconhecem que Roma ocupava o primeiro lugar, mas não interpretam da mesma maneira as prerrogativas ligadas a esse primado.

Bartolomeu parece propor uma presidência romana real, mas limitada pela sinodalidade e desprovida de jurisdição universal imediata. Para a doutrina católica, entretanto, o primado do Papa não pode ser reduzido a uma precedência honorífica nem a uma simples coordenação entre patriarcas iguais. O Concílio Vaticano I ensinou que o Bispo de Roma possui um primado de jurisdição sobre a Igreja universal. O Concílio Vaticano II manteve essa doutrina, situando-a mais claramente no interior da colegialidade episcopal.

Esse é o ponto central. Não basta que os ortodoxos reconheçam o Papa como primus inter pares se a expressão significar apenas “primeiro entre iguais”, sem qualquer autoridade efetiva para servir à unidade universal. Da mesma maneira, uma solução dificilmente será aceita pelo Oriente se a jurisdição papal for apresentada como uma administração centralizada que transforma os patriarcas e bispos orientais em representantes locais de Roma.

A diferença entre o primado e seu exercício

A possibilidade real de acordo encontra-se na distinção entre a essência do primado e a sua forma histórica de exercício. São João Paulo II, na encíclica Ut unum sint, convidou os responsáveis e teólogos das outras Igrejas a buscar com ele uma maneira de exercer o primado que, sem renunciar ao essencial da sua missão, estivesse aberta a uma situação nova.

O convite não significava colocar em discussão a existência do ministério petrino, mas reconhecer que o seu exercício pode assumir formas diferentes. A administração fortemente centralizada que se desenvolveu no Ocidente durante o segundo milênio não precisa ser reproduzida integralmente nas Igrejas orientais reconciliadas (cf. Encíclica Ut unum sint).

O documento vaticano O Bispo de Roma, publicado em 2024, reuniu os resultados de diferentes diálogos ecumênicos e propôs uma releitura do primado em chave sinodal. Entre as sugestões encontram-se uma distinção mais clara entre as responsabilidades do Papa como bispo de Roma, patriarca do Ocidente e primaz da Igreja universal, além de uma maior participação das Igrejas locais no exercício da autoridade.

A restauração do título “Patriarca do Ocidente” no Anuário Pontifício de 2024 foi recebida por Constantinopla precisamente dentro desse contexto. Bartolomeu revelou ter tratado pessoalmente do assunto com o Papa Francisco, que teria prometido restaurá-lo no momento oportuno. Para o Patriarca, a recuperação constitui um passo pequeno, porém significativo, porque permite distinguir a autoridade patriarcal exercida diretamente no Ocidente do serviço universal atribuído ao Bispo de Roma.

O gesto facilita o diálogo, mas não altera por si mesmo a doutrina católica sobre o primado. Tampouco significa que Roma tenha aceitado a Pentarquia como modelo suficiente e permanente da constituição da Igreja.

O que o diálogo já alcançou

O diálogo católico-ortodoxo produziu avanços importantes. O Documento de Ravena, de 2007, reconheceu que primado e sinodalidade existem nos níveis local, regional e universal da Igreja. Também houve concordância de que, no nível universal, Roma ocupava o primeiro lugar na ordem das sedes durante o primeiro milênio.

O desacordo permanece sobre as funções concretas desse primeiro lugar e sobre os fundamentos bíblicos e teológicos de sua autoridade. O Documento de Alexandria, de 2023, avançou no estudo da relação entre primado e sinodalidade durante o segundo milênio, mas não apresentou uma fórmula definitiva para a reunificação (cf. Documento de Alexandria).

Outras diferenças doutrinais, como o Filioque, a formulação do purgatório e os dogmas marianos proclamados no Ocidente depois da separação, continuam a exigir esclarecimentos. Algumas delas talvez possam ser compreendidas como diferenças legítimas de linguagem e tradição teológica. A questão do primado, todavia, atinge diretamente a estrutura visível da Igreja e permanece como o problema decisivo.

Constantinopla não pode decidir sozinha

Existe ainda uma dificuldade interna ao mundo ortodoxo. Bartolomeu é o primeiro na ordem de honra entre os patriarcas ortodoxos, mas não possui sobre as demais Igrejas autocéfalas uma autoridade equivalente àquela que o Papa exerce na Igreja Católica. Por isso, o Patriarcado de Constantinopla não pode restaurar sozinho a plena comunhão em nome de toda a Ortodoxia.

Uma decisão dessa dimensão exigiria a participação e a recepção das diferentes Igrejas ortodoxas. Seria extremamente difícil obter atualmente o consentimento de patriarcados como os de Moscou, da Sérvia, da Bulgária ou da Geórgia. As tensões provocadas pela concessão de autocefalia à Igreja Ortodoxa da Ucrânia aprofundaram a divisão entre Constantinopla e Moscou, e enfraqueceram a possibilidade de uma posição ortodoxa comum.

A própria evocação da Pentarquia revela essa limitação. Os cinco antigos patriarcados possuem enorme importância histórica, mas já não abrangem toda a realidade institucional da Ortodoxia. As numerosas Igrejas autocéfalas surgidas posteriormente não poderiam simplesmente ser excluídas de uma decisão sobre a comunhão com Roma.

Também não se pode ignorar a existência de fortes correntes antiecumênicas em mosteiros, episcopados e comunidades ortodoxas. Alguns desses grupos consideram a Igreja Católica não apenas separada, mas herética. Uma aproximação conduzida apenas pelos patriarcas, sem preparação teológica e pastoral dos fiéis, poderia gerar novos cismas em vez de superar o antigo.

Uma esperança real, mas não imediata

As declarações de Bartolomeu I não constituem uma novidade absoluta. Desde o encontro entre Atenágoras e Paulo VI em Jerusalém, em 1964, Constantinopla e Roma repetem o desejo de recuperar a unidade. Em 1965, as excomunhões de 1054 foram retiradas da memória das duas Igrejas. Desde então, papas e patriarcas rezam juntos, trocam delegações e reconhecem publicamente a fraternidade que já os une.

O discurso de Budapeste, contudo, oferece algo mais concreto ao indicar a Pentarquia, o primeiro milênio e uma concepção sinodal do primado como bases de um possível acordo. Ele mostra que Constantinopla não rejeita necessariamente um primado universal do Bispo de Roma. O que rejeita é a sua compreensão como jurisdição absoluta, imediata e exercida acima das Igrejas locais.

A plena comunhão é, portanto, teologicamente possível. A Igreja Católica não exige que os ortodoxos abandonem a sua liturgia, espiritualidade, disciplina ou legítima autonomia. As Igrejas orientais católicas demonstram, ao menos em princípio, que é possível permanecer em comunhão com Roma conservando uma tradição própria.

Mas a unidade não poderá ser alcançada por meio de fórmulas diplomáticas suficientemente vagas para que cada lado continue a interpretá-las de maneira incompatível. Será necessário encontrar uma expressão de primado que seja verdadeiramente efetiva para a Igreja Católica e verdadeiramente sinodal para a Ortodoxia.

Bartolomeu aponta um caminho possível, não uma solução já alcançada. O seu desejo de ouvir novamente a “lira de cinco cordas” expressa uma esperança cristã legítima. Entretanto, para que essa antiga harmonia seja restaurada, Roma e Constantinopla precisarão resolver não apenas as consequências do cisma de 1054, mas quase mil anos de desenvolvimento eclesiológico separado. E Constantinopla terá ainda de convencer uma Ortodoxia que atualmente se encontra profundamente dividida dentro de si mesma.

Por Rafael Ribeiro

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