Cardeal Müller lembra aos bispos alemães que sua missão não é política
Cardeal Gerhard Müller lembra que bispos são pastores de almas, não árbitros partidários nas eleições alemãs, corrigindo as declarações “desconcertantes” de vários bispos alemães.

Foto: Brujulacotidiana.com
Redação (07/09/2026 15:49, Gaudium Press) O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito emérito da então Congregação para a Doutrina da Fé, publicou um comentário no portal alemão Kath.net intitulado Ermahnung zur parteipolitischen Neutralität (Advertência para neutralidade político-partidária). Nele, o prelado alemão corrige o que classifica como declarações “desconcertantes” ou “estranhas” de vários bispos do país por ocasião de eleições federais, estaduais e municipais recentes. O texto surge em meio a uma polarização eclesial intensa na Alemanha.
Nos últimos tempos, setores da hierarquia católica alemã têm pedido publicamente que os fiéis não votem na Alternativa para a Alemanha (AfD). Alguns líderes da própria AfD, por sua vez, responderam convidando católicos a “economizar” o imposto eclesiástico (Kirchensteuer). A vitória ou o forte desempenho da AfD em estados do leste, como a Saxônia-Anhalt, gerou reações de alarme em partes da Conferência Episcopal Alemã e em outras igrejas cristãs. Em declarações conjuntas, líderes religiosos afirmaram que acompanharão criticamente qualquer governo regional liderado ou influenciado pela AfD e que não permanecerão em silêncio diante de violações da dignidade humana ou ameaças à democracia.
A verdadeira missão dos bispos segundo Müller
Müller centra seu argumento na natureza teológica do ministério episcopal. Os apóstolos e seus sucessores, recorda ele, foram instituídos por Jesus para anunciar o Evangelho do desejo salvífico universal de Deus, chamar os pecadores à conversão e transmitir a nova vida na graça por meio dos sacramentos. Não lhes compete colocar a autoridade espiritual a favor ou contra um partido político concreto no âmbito da legítima disputa democrática de um Estado de Direito como a República Federal da Alemanha.
Fazer isso, sustenta o cardeal, constituiria abuso da autoridade espiritual para fins políticos. Historicamente, segundo ele, essa interferência partidária sempre obscureceu a verdadeira missão da Igreja, voltada para a salvação eterna e a relação pessoal de cada pessoa com Deus. Müller distingue com clareza essa ingerência ilegítima da aplicação necessária dos princípios morais à política — por exemplo, a defesa dos direitos humanos e da dignidade da pessoa diante de ideologias anticristãs. O poder espiritual do bispo, porém, não se estende ao comportamento eleitoral de católicos que simplesmente divergem dele em preferências partidárias legítimas.
Em uma eleição democrática, afirma o cardeal, todo católico tem o direito de votar no partido que considere melhor capacitado para resolver os problemas do país, desde que um eventual governo não recorra a meios imorais. Quem deve decidir qual partido obtém a maioria são os eleitores; a proteção da democracia cabe aos órgãos do Estado competentes, como o Tribunal Constitucional Federal. Os bispos, por sua vez, são, em nome de Cristo, pastores das almas e modelos para o rebanho de Deus. Sua tarefa prioritária é cuidar da salvação eterna dos fiéis e exortar as partes em disputa a não se tratarem como inimigos.
Müller considera um “grave escândalo” que bispos, padres ou associações católicas apareçam alinhados com agitadores político-ideológicos. Com isso, a Igreja se apresenta como um ator político e trai sua missão. Ele cita a constituição conciliar Lumen Gentium (n. 8), que lembra que a Igreja não foi fundada para buscar a glória terrena, mas para difundir a humildade e o serviço aos mais necessitados. O cardeal também alerta que declarações episcopais que aceitam ou relativizam a “perda de eleitores da AfD” podem fazer com que fiéis se sintam incompreendidos, traídos ou rejeitados pela própria Igreja, o que se configuraria como falha na formação das consciências.
Contexto
A posição de Müller não é isolada em sua trajetória. Já em 2024, após a Conferência Episcopal Alemã declarar que o nacionalismo “völkisch” (étnico-nacionalista) é incompatível com o cristianismo e que partidos dominados por essa mentalidade não são elegíveis para cristãos, o cardeal criticou a postura como oportunismo e alertou que a hierarquia não deveria atuar como “cabo eleitoral” de governos progressistas. A AfD, fundada em 2013, cresceu significativamente no leste alemão e em eleições federais recentes, conquistando percentuais elevados e tornando-se a segunda força em algumas disputas. Os bispos alemães, em documentos oficiais, apontam elementos de extremismo de direita e ideologia incompatível com a doutrina cristã sobre a dignidade humana, a solidariedade e a rejeição do racismo. A AfD rejeita essas acusações e apresenta-se como partido de oposição à imigração descontrolada, às políticas climáticas e a elites estabelecidas.
A relação entre Igreja e política na Alemanha é complexa. O sistema do imposto eclesiástico vincula financiamento e pertencimento confessional, e o crescimento da AfD entre católicos gera tensões pastorais. Müller, conhecido por posições doutrinais firmes e críticas ao chamado “caminho sinodal” alemão, insiste que a Igreja deve manter distância profética do poder temporal, formando consciências sem se transformar em partido ou ONG político-ideológica.




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