Gaudium news > Bispo nicaraguense exorta as pessoas a não serem passivas diante das ditaduras

Bispo nicaraguense exorta as pessoas a não serem passivas diante das ditaduras

“Não podemos (…) ficar como espectadores passivos enquanto as ditaduras impõem estruturas políticas abusivas”, afirmou o bispo no exílio.

Foto: Facebook/ Silvio José Báez

Foto: Facebook/ Silvio José Báez

Redação (08/09/2026 09:17, Gaudium Press) Mais uma vez, Dom Silvio José Báez Ortega, bispo auxiliar de Manágua e carmelita descalço, elevou a voz do exílio na Flórida. Perseguido e forçado a deixar a Nicarágua em 2019 pela ditadura de Daniel Ortega e Rosario Murillo, ele celebrou a Missa dominical na paróquia Santa Agatha, em Miami — espaço que se tornou ponto de encontro e esperança para a numerosa comunidade de nicaraguenses no exterior. Em sua homilia, o prelado condenou com firmeza as estruturas ditatoriais e lembrou aos cristãos que o silêncio diante da injustiça transforma as pessoas em cúmplices.

“Não podemos ser espectadores passivos enquanto as ditaduras impõem estruturas políticas abusivas que não apenas destroem a democracia, mas também atentam contra a liberdade do povo e seu direito de ser sujeito de sua própria história”, afirmou. Para Báez, denunciar essas arbitrariedades não é discurso de ódio nem ameaça à paz. Pelo contrário: “Chamados por Deus a ser sentinelas da história, os cristãos denunciam a injustiça como exigência da fé e do amor”.

O bispo vinculou essa atitude à missão profética. Um profeta, explicou, escuta a Deus e não se cala: denuncia o mal, alerta sobre suas consequências e convida à conversão, mesmo sabendo que essa missão pode custar a perseguição e até a vida. Referindo-se às leituras do domingo, citou o profeta Ezequiel: se aquele que deve falar permanece em silêncio, “o Senhor lhe pedirá contas” (Ez 33,8). E recordou as palavras de Isaías sobre os “cães mudos, incapazes de ladrar” (Is 56,10), figura daqueles que, tendo a responsabilidade de alertar, preferem o conforto do silêncio.

Báez também abordou a correção fraterna, que deve ser feita “com franqueza, mas com misericórdia; com prontidão, mas com paciência”, seguindo o estilo de Jesus. A denúncia, portanto, não se confunde com agressividade, mas com fidelidade à verdade e ao amor ao próximo.

Uma trajetória marcada pela coragem e pelo exílio

Nascido em 28 de abril de 1958 em Masaya, Nicarágua, Silvio José Báez Ortega ingressou na Ordem dos Carmelitas Descalços e se especializou em Sagrada Escritura. Doutorou-se na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, e lecionou por anos. Em 2009, o Papa Bento XVI o nomeou bispo auxiliar de Manágua. Quando os protestos de abril de 2018 estouraram — inicialmente contra reformas na previdência e logo transformadas em reivindicação de democracia —, Báez se destacou como mediador e, sobretudo, como voz firme contra a repressão estatal, que, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, deixou mais de 350 mortos.

Em julho de 2018, ele foi agredido por grupos pró-governo enquanto tentava proteger manifestantes e religiosos na basílica de San Sebastián, em Diriamba. Ameaças de morte se intensificaram. Em abril de 2019, o Papa Francisco o convocou a deixar o país por razões de segurança, declarando que não queria “outro bispo mártir” na América Central. Desde então, Báez vive no exílio nos Estados Unidos, onde celebra missas na paróquia Santa Agatha, acompanha a diáspora nicaraguense e leciona Escritura no seminário de Boynton Beach. Em 2023, o regime o despojou da nacionalidade nicaraguense, junto com centenas de opositores.

A perseguição à Igreja católica na Nicarágua continua intensa: dezenas de sacerdotes e religiosos foram expulsos, paróquias fechadas ou vigiadas, e bispos encarcerados ou forçados ao exílio. Organizações de direitos humanos e especialistas da ONU qualificam parte dessas ações como crimes contra a humanidade. Mais de 800 mil nicaraguenses — cerca de 11% da população — deixaram o país desde 2018.

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas