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Se Ele fere, Ele cuida da ferida

A correção é um grande meio de salvação; quem dela foge rejeita um remédio divino.

“A repreensão”, por Claudius Jacquand - Museu de Belas Artes, Rouen (França) Foto: Francisco Lecaros

“A repreensão”, por Claudius Jacquand – Museu de Belas Artes, Rouen (França) Foto: Francisco Lecaros

Redação (05/09/2026 16:51, Gaudium Press) Toda a criação reflete algum esplendor do seu Criador: “Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 18,2). Tomemos o exemplo de uma etapa imprescindível no bom crescimento das vinhas: a poda. Para que a vide produza uvas de qualidade, é preciso cortar, muitas vezes, aquilo que parece prometer uma colheita fecunda. A poda é feita por diversas razões conhecidas do agricultor: seja pela falta de robustez da raiz, seja pelos brotos que diminuem a concentração da seiva. O que pode parecer prejudicial à planta é, na verdade, sabedoria do vinhateiro. Ora, não será a poda um reflexo do papel da correção que Deus quer que tenha em nossas vidas?

Fugir da correção é insensatez

Bem podemos identificar como tema central deste Evangelho dominical a correção: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo!” (Mt 18,15). Será realmente necessária a correção para o progresso na vida espiritual, em nossa peregrinação e luta rumo à Igreja Triunfante? “Ninguém é bom juiz em causa própria”, com muita razão afirmam os filósofos. Com efeito, se, segundo as leis, é suspeito o juiz que é amigo de uma das partes, quanto mais suspeito não será alguém naquilo que lhe diz respeito? Os santos comparam aqueles que fogem da correção aos enfermos frenéticos e loucos, os quais não consentem que se aproxime deles o médico, mas dele fogem, resistem aos remédios que lhes aplicam e os lançam longe de si. É comparação do Espírito Santo: “Aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que detesta a reprimenda é insensato” (Pv 12,1). Está, pois, louco e frenético quem detesta o remédio e se indigna contra o médico, que só pretende curá-lo e remediá-lo.

Um grande meio de salvação

A correção sempre foi considerada um grande meio de salvação. Já nos primórdios da Igreja, há o caso em que o Apóstolo corrigiu São Pedro diante de todos, devido à atitude incoerente deste em relação às práticas mosaicas superadas pela Nova Lei (cf. Gl 2,11-14). De tal maneira a prática da correção foi estimada nas ordens religiosas que se instituiu o capítulo: momento em que a comunidade se reúne para deitar atenção sobre um ponto da regra, levantar as faltas cometidas com verdadeiro amor fraterno, rumando, por essa via, à perfeição a que visa a vida na religião. Conta-se que, na Idade Média, tendo um santo Abade se encontrado com o próprio diabo no seu mosteiro, interrogou-o sobre o mau que fazia em cada ambiente, este confessou ser a sala capitular o lugar onde perdia todo o fruto de seus malefícios.

Amor é corrigir e ser corrigido

Contudo, hoje, a humanidade está imbuída de uma mentalidade que foge da correção. Ao fugir da correção, ela foge do amor, já que não há verdadeiro amor que pactue com o erro. Aquele que ama deseja ver logo o amado livre de qualquer mal. Se for uma doença, procura prover o remédio salutar, por mais penoso que seja. Não seria insensato privar um enfermo de seu medicamento sob o pretexto de livrá-lo do amargor? Seja um vício, um itinerário equivocado, companhias nocivas ou as mil ocasiões de pecado que existem, aquele que ama deveras não deixará de advertir no momento oportuno.

Assim sendo, pode-se chamar de amor a atitude de pais que, vendo seus filhos escorregarem pelo lodaçal do pecado, omitem a correção sob o pretexto de favorecer uma suposta liberdade? Se erra aquele que não aceita uma correção, quanto mais erram aqueles que, investidos de autoridade – seja doméstica, civil ou eclesiástica –, dela prescindem?

A correção purifica, o perdão transforma

Tempo houve em que os homens tinham mais fé e sabiam ler a didática divina, discernindo a mão de Deus por detrás dos acontecimentos. Embora não seja regra absoluta, há enfermidades, desastres naturais, fracassos e desgraças que são instrumentos de uma correção divina. A História no-lo ensina: a lepra de Aarão, o dilúvio de Noé, a peste de três dias escolhida por Davi, etc.

Em outras ocasiões, tais fatos podem ter o intuito de provar, de acrisolar o amor ou sofrer pelos outros como Jó, Tobit, e ainda mais recente, São Damião e Santa Teresinha. É preciso saber olhar para os infortúnios com visão sobrenatural: “nós sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

Quem será mais santo que Davi, mais sábio que Salomão, mais forte que Sansão? Entretanto, todos eles pecaram e Deus, na sua clemência, os corrigiu. Não necessita a humanidade pecadora de uma grande correção? Porém, a correção purifica, não transforma. O que a transformará será o grande perdão que a Mãe de Misericórdia obterá do Coração Sagrado de Jesus. Peçamos a sua intercessão para que, em cada correção, vejamos o Coração Divino pronto e sôfrego para nos perdoar: “Vinde, voltemos ao Senhor, ele feriu-nos, ele nos curará” (Os 6,1).

Por Marcus Yip

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