Seguidores ou perseguidores?
Não há mal algum em admirar a arte de alguém, em gostar de música, em compartilhar um talento ou em mostrar o fruto do próprio trabalho. O erro começa quando a aprovação humana se torna o único oxigênio da nossa alma.

Foto: Aaron Weiss/ Unsplash
Redação (05/09/2026 14:57, Gaudium Press) Vivenciamos uma era em que a vitrine das redes sociais prometeu conectar a humanidade, mas acabou por erguer tribunais implacáveis em cada tela de smartphone. Recentemente, o mundo estarreceu-se com mais uma tragédia que escancara essa ferida: Mina Chan, uma jovem japonesa de 26 anos, fã do grupo de K-pop ENHYPEN, morreu durante uma transmissão ao vivo em sua residência, em Seul, na Coreia do Sul, depois de sofrer uma intensa onda de ataques virtuais. O caso é investigado pelas autoridades sul-coreanas como aparente suicídio.
Um gesto simples de afeto por parte da jovem — entregar flores depois de um show de sua banda preferida e pedir que fossem repassadas a um de seus ídolos — transformou-se em pretexto para a sanha coletiva. Críticas cruéis, o mal-entendido em torno de uma declaração de um dos integrantes da banda e a agressão virtual por parte de pessoas que sequer a conheciam isolaram-na em profunda angústia.
Não é possível medir quanto cada palavra pesou sobre aquela jovem, mas a tragédia expõe uma pergunta que não podemos evitar: até onde pode chegar a violência de uma multidão escondida atrás das telas?
Um caso que nos obriga a parar e perguntar: por que as pessoas se tornaram tão cruéis? Por que há uma satisfação mórbida em destruir a dignidade de um ser humano do outro lado da tela, esquecendo-se de que ali pulsa uma vida real, frágil e vulnerável, uma alma feita à imagem e semelhança de Deus?
A ilusão de buscar seguidores
Em reflexões recentes sobre esse fenômeno, ouviu-se de uma observadora perspicaz uma definição que desarma a vaidade moderna: todos buscam seguidores, mas, muitas vezes, encontram perseguidores.
A ânsia por aprovação em massa transformou-se numa armadilha psicológica e espiritual. É verdade que o ser humano, desde a Antiguidade, sempre buscou o reconhecimento, o afeto e a validação do seu semelhante. Contudo, nas últimas décadas, essa busca foi hipertrofiada e mercantilizada. Os jovens, sobretudo, cresceram sob a promessa de que a existência só tem valor se for validada por números, curtidas e comentários.
Quando a vida se reduz a isso, a pessoa deixa de viver o real para habitar uma projeção. O café da manhã, o passeio com o cão, o desabrochar de uma flor no jardim ou o silêncio de um momento de paz perdem o seu sentido íntimo se não forem expostos ao julgamento alheio. Cria-se uma dependência tirânica: entrega-se o leme da própria existência a estranhos anônimos que aparecem para aplaudir hoje e apedrejar amanhã.
Não podemos ignorar o perigo do espelho digital: precisamos identificar a ilusão das redes e a extrema necessidade do retorno ao sagrado.
A crueldade do anonimato
A raiz dessa crueldade contemporânea reside na despersonalização. Atrás de um teclado, o ser humano perde a noção do sagrado que habita o próximo. Sem o freio empático do olhar físico, do tom de voz e da presença, a turba digital descarrega frustrações, recalques e uma necessidade doentia de superioridade moral.
Perdeu-se a capacidade de lidar com a alteridade — com o fato de que o outro pensa diferente, sente diferente e caminha em outro ritmo. Qualquer desvio de um padrão imaginário é punido com o linchamento virtual. O anônimo que comenta, o seguidor que julga e a multidão que cancela operam como engrenagens de um moedor de carne que consome a alma dos mais sensíveis.
O manto da invisibilidade
Fica explícita a dificuldade de lidar com a diferença, e pessoas protegidas pelo anonimato acabam escrevendo coisas terríveis, que dificilmente diriam a outro ser humano face a face. O véu do anonimato parece conferir o mesmo poder do “manto da invisibilidade” das histórias fantásticas contadas às crianças.
Muitas vezes, no calor de uma discussão, podem-se proferir palavras duras por impulso, falar sem pensar. Numa publicação, porém, muito do que se diz é calculado e escrito com o fito único de machucar, ferir, golpear a autoestima do outro.
Dá tempo de evitar, dá tempo de mudar. No entanto, na existência virtual, os haters não fazem isso, porque o que almejam é machucar, desvalorizar, diminuir e humilhar o outro. Parece haver uma disputa pelo posto de quem fere mais e melhor.
Para quem devemos apresentar a nossa vida?
O antídoto para essa epidemia de exposição e vazio não é o isolamento amargo, mas o redimensionamento da nossa bússola espiritual. Não há mal algum em admirar a arte de alguém, em gostar de música, em compartilhar um talento ou em mostrar o fruto do próprio trabalho. O erro começa quando a aprovação humana se torna o único oxigênio da nossa alma.
Quando tudo o que fazemos precisa ser postado e validado, abdicamos da nossa soberania interior. A nossa dignidade não pode depender da opinião de quem não conhece as nossas lutas nem a nossa história.
A sabedoria milenar e a nossa fé nos lembram uma verdade libertadora: as nossas ações, os nossos talentos e o nosso caminhar deveriam aparecer e buscar validação apenas diante de Deus. No olhar do Criador, não precisamos de filtros, de aplausos calculados ou de armaduras digitais. Ele nos conhece pelo nome, acolhe as nossas fragilidades e nos ama na quietude do que é verdadeiro.
Retirar os olhos da tirania das telas, voltar a atenção para a simplicidade do mundo real — o afeto dos que estão fisicamente ao nosso lado —, e buscar agradar a Deus é o caminho para recuperar a sanidade.
Que possamos ensinar aos mais jovens, e a nós mesmos, a coragem de viver sem plateia, lembrando sempre que a verdadeira vida acontece no silêncio do coração que descansa na paz de Deus.
Por Afonso Pessoa





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