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Torreciudad: um santuário, uma imagem milenar e a disputa entre Opus Dei e diocese espanhola

O Opus Dei considera Torreciudad parte essencial de sua história espiritual e apostólica. A diocese considera que essa projeção universal não pode apagar a origem local da devoção nem reduzir o papel do ordinário do lugar.

Foto: Wikipedia

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Redação (06/09/2026 11:34, Gaudium Press) A controvérsia que envolve o Santuário de Torreciudad, a Diocese de Barbastro-Monzón e o Opus Dei parece, à primeira vista, tratar-se de uma discussão sobre a administração de um templo. Na realidade, o caso abrange pelo menos quatro questões distintas: a propriedade dos edifícios, o direito de uso da antiga ermida, a custódia da imagem românica de Nossa Senhora dos Anjos e a autoridade para nomear o reitor e organizar a vida pastoral do complexo.

A confusão começa pelo próprio nome. Embora seja conhecido internacionalmente como Santuário de Torreciudad, o grande templo inaugurado em 1975 continua juridicamente constituído como um oratório semipúblico. A antiga ermida, por sua vez, possui uma história mariana que remonta ao século XI. A distinção pode parecer técnica, mas dela depende a definição de quanto poder pertence ao bispo local e quanto permanece com a Prelazia do Opus Dei.

Da ermida medieval ao grande templo do Opus Dei

A tradição situa, em 1084, a entronização da imagem de Nossa Senhora dos Anjos na antiga ermida de Torreciudad, localizada no atual território da Diocese de Barbastro-Monzón, na província espanhola de Huesca. Durante séculos, a pequena imagem românica esteve ligada à devoção dos povoados de Ribagorza e Sobrarbe, cujas famílias peregrinavam até a ermida para rezar, agradecer graças e pedir proteção para suas casas, colheitas e enfermidades.

Em 1904, José Escrivá e Dolores Albás levaram até a ermida o filho Josemaría, então com dois anos, após uma grave doença. O menino sobreviveu e, décadas mais tarde, já como fundador do Opus Dei, associaria sua própria história à intercessão de Nossa Senhora de Torreciudad.

A relação institucional começou a ser formalizada em 24 de setembro de 1962. Por meio de uma escritura pública, o bispo de Barbastro cedeu à empresa Inmobiliaria General Castellana o chamado domínio útil da ermida, da hospedaria, das dependências anexas e da imagem. A propriedade continuou pertencendo à diocese, enquanto o uso foi concedido com vocação de perpetuidade, mediante o compromisso de conservar o lugar, restaurar a imagem, manter o culto e garantir o acesso dos peregrinos.

Segundo a documentação apresentada pelo Opus Dei, um segundo acordo, datado em 8 de setembro de 1966, autorizou a construção de um novo templo e estabeleceu que a imagem seria venerada nele. A antiga ermida e o novo edifício formariam, conforme esse documento, um único recinto religioso.

A imagem passou por trabalhos de restauração e foi colocada no retábulo do novo templo. O Opus Dei afirma que o traslado aconteceu com o conhecimento e a aprovação do então bispo, Dom Jaime Flores. A atual Diocese de Barbastro-Monzón contesta essa interpretação e declara não ter encontrado, em seus arquivos ou nos do cabido, uma autorização canônica suficiente para retirar permanentemente a imagem de sua ermida histórica.

O grande templo foi construído com doações mobilizadas pelo Opus Dei e inaugurado em 7 de julho de 1975. Sua propriedade pertence atualmente à Fundação Canônica Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, criada pela Prelazia. A antiga ermida e a imagem, entretanto, continuam sendo propriedade da diocese, embora estejam sujeitas aos direitos de uso reivindicados com base nos acordos de 1962 e 1966.

Durante quase cinquenta anos, essa arquitetura jurídica funcionou sem produzir uma ruptura pública. O Opus Dei administrava o complexo, sustentava sua atividade e indicava os sacerdotes responsáveis. A diocese reconhecia a presença pastoral da instituição, enquanto Torreciudad se consolidava como destino de peregrinações internacionais e importante centro de devoção mariana.

A tentativa de regularização que terminou em confronto

A crise atual iniciou-se em 2020, curiosamente por iniciativa do próprio Opus Dei. A Prelazia propôs atualizar os antigos acordos e adaptar Torreciudad ao Código de Direito Canônico promulgado em 1983, o qual passou a estabelecer normas específicas para os santuários. Também sugeriu substituir a empresa civil que figurava nos documentos de 1962 pela fundação canônica criada em 2018.

A proposta incluía a possibilidade de transformar o grande templo em santuário diocesano. Nesse modelo, o bispo aprovaria os estatutos e teria autoridade para nomear o reitor, embora a atenção pastoral pudesse continuar confiada ao Opus Dei. O que deveria ser uma modernização jurídica acabou por revelar divergências profundas sobre a validade e o alcance dos acordos históricos.

Após solicitar estudos jurídicos, a diocese comunicou, em 2 de dezembro de 2022, que considerava encerrado o contrato enfitêutico. Alegou nulidade ou, subsidiariamente, descumprimento das condições estabelecidas. Também exigiu que a imagem fosse devolvida à antiga ermida e que o conjunto cedido em 1962 retornasse ao controle diocesano.

O Opus Dei rejeitou essa posição. Para a Prelazia, a escritura permanece válida, foi registrada civilmente e concedeu perpetuamente o domínio útil da ermida e da imagem. A instituição não nega que a diocese seja proprietária, mas sustenta que propriedade não equivale à liberdade de ignorar os direitos de uso, custódia e localização concedidos no século passado.

Em janeiro de 2023, representantes das duas partes ainda discutiam a substituição do antigo acordo por um novo instrumento. Em 2 de julho daquele ano, o prelado do Opus Dei, Monsenhor Fernando Ocáriz, reuniu-se com o bispo de Barbastro-Monzón, Dom Ángel Pérez Pueyo. Poucas semanas depois, contudo, o conflito tornou-se público.

Em 18 de julho de 2023, o bispo nomeou o sacerdote diocesano José Mairal como reitor de Torreciudad. Era a primeira vez, desde a inauguração do grande templo, que a função deixava de ser atribuída a um sacerdote indicado pelo Opus Dei. A diocese invocou o cânon 557, o qual atribui ao bispo diocesano a nomeação do reitor de uma igreja.

A Prelazia respondeu que o bispo não poderia fazer essa nomeação porque o templo era um oratório próprio do Opus Dei, não um santuário diocesano. Na prática, Torreciudad passou a ter duas referências de autoridade: o reitor nomeado pelo bispo e o sacerdote que continuava dirigindo o complexo em nome do Opus Dei. A irregularidade institucional estava oficialmente instalada.

Em 24 de julho de 2023, a diocese apresentou um pedido de conciliação diante da Justiça civil contra o Opus Dei e a empresa sucessora da sociedade mencionada no contrato de 1962. O processo pretendia obter a devolução da ermida, de suas dependências e da imagem. O Opus Dei não compareceu à audiência marcada para dezembro, por considerar que participar nos termos propostos poderia significar admitir previamente a nulidade do acordo.

Paralelamente, a Prelazia recorreu à Santa Sé contra a nomeação do novo reitor. Em 30 de agosto de 2023, enviou à diocese uma proposta de acordo que incluía estatutos para transformar o templo em santuário diocesano. A diocese respondeu que estudaria o documento, mas as conversações seguintes não produziram uma solução.

Em dezembro de 2023, Dom Ángel Pérez Pueyo declarou publicamente que Torreciudad se tornaria um santuário diocesano quando fossem cumpridas as condições necessárias. A frase aumentou a tensão porque, para o Opus Dei, o bispo tratava como decidida uma transformação que ainda dependia de acordo sobre os estatutos, a administração e a validade das cessões anteriores.

Durante 2024, ocorreram novas reuniões técnicas. A Prelazia afirma, em seu comunicado de setembro de 2024, que uma reunião realizada em março havia produzido avanços, mas que a diocese posteriormente modificou pontos importantes. A diocese, ao contrário, concluiu que as divergências já não poderiam ser solucionadas apenas no âmbito local.

Foto: torreciudad.org/ screenshot

Foto: torreciudad.org/ screenshot

Roma entra em cena e a imagem torna-se o centro da disputa

Em 25 de setembro de 2024, a Diocese de Barbastro-Monzón anunciou que havia entregado à Santa Sé a solução das diferenças jurídicas, canônicas e pastorais. Em 9 de outubro, o Papa Francisco nomeou o arcebispo Alejandro Arellano Cedillo, decano do Tribunal da Rota Romana, como comissário pontifício plenipotenciário para o complexo.

A nomeação divulgada pelo Vatican News concedeu a Dom Arellano poderes amplos para estudar a situação e apresentar uma solução. A escolha de um especialista em Direito Canônico demonstrava que Roma não considerava o problema apenas uma divergência pastoral, mas um emaranhado institucional que exigia arbitragem de alto nível.

Inicialmente, as duas partes manifestaram confiança no comissário. Com o passar dos meses, entretanto, surgiram informações sobre um possível acordo que permitiria ao Opus Dei apresentar uma lista de candidatos ao cargo de reitor, cabendo ao bispo escolher um deles. Em 24 de junho de 2025, a Prelazia esclareceu que nenhum acordo definitivo havia sido alcançado e que aguardava a resolução de Dom Arellano.

Em 1º de julho de 2025, a diocese apresentou uma nova proposta. Em vez de transformar Torreciudad em santuário diocesano, pediu que fosse reconhecido como santuário internacional diretamente dependente da Santa Sé. Nesse modelo, Roma supervisionaria a vida pastoral, as contas e as instituições vinculadas ao complexo, enquanto a diocese renunciaria à administração e a qualquer benefício econômico.

A proposta representou uma mudança importante. O bispo deixava de reivindicar o governo do grande templo, mas mantinha duas exigências simbólicas: o retorno da imagem original à antiga ermida e a devolução dos fragmentos da pia batismal na qual São Josemaria foi batizado, atualmente conservados em Roma.

A morte do Papa Francisco deixou a questão sem resolução definitiva. O processo passou às mãos do Papa Leão XIV, enquanto o comissário continuou o seu trabalho. Em 2025, nas celebrações dos cinquenta anos do templo, o próprio bispo reconheceu expressamente o bem espiritual realizado pelo Opus Dei, agradecendo pelas confissões, conversões, famílias, vocações e peregrinações promovidas em Torreciudad. A cortesia litúrgica, porém, não eliminou o desacordo jurídico.

A tensão aumentou novamente em agosto de 2026. A diocese anunciou que, no dia 5 de setembro, a imagem original seria levada à antiga ermida para a 47ª Romaria das Virgens de Ribagorza e Sobrarbe. De acordo com a programação, a imagem receberia as demais representações marianas na ermida e depois participaria da peregrinação até o grande templo.

Até a autoridade sobre esse traslado foi disputada. A diocese apresentou a iniciativa como uma decisão pastoral do bispo. Os responsáveis por Torreciudad afirmaram que o traslado precisou ser autorizado pelo comissário pontifício. A diferença de linguagem revela o problema central: nenhum dos lados quer aceitar uma formulação que possa ser interpretada como reconhecimento da autoridade exclusiva do outro.

Em 31 de agosto de 2026, Dom Ángel Pérez Pueyo publicou um comunicado particularmente contundente. O bispo afirmou que a imagem deveria permanecer definitivamente em sua “casa milenar”, declarou que não assinaria uma solução que mantivesse a escultura no grande templo e anunciou que colocaria o cargo à disposição caso fosse obrigado a aceitar essa condição.

O bispo também revelou mensagens que teria recebido de Francisco. Segundo seu relato, o pontífice teria escrito “não ceda” em julho de 2023, perguntado, em setembro de 2024, se a imagem já havia retornado e alertado, em outubro daquele ano, para “intrigas mafiosas” em torno do caso. Trata-se de afirmações de enorme peso, as quais, contudo, devem ser apresentadas como documentos e recordações divulgados pelo próprio bispo, e não como uma sentença formal da Santa Sé.

Em 3 de setembro de 2026, o Opus Dei respondeu por meio de uma nota acompanhada de referências documentais. A Prelazia rejeitou as expressões “subtração”, “usurpação” e “retenção ilegal”. Recordou que a propriedade diocesana nunca foi contestada, mas insistiu que a escritura de 1962 e o acordo de 1966 concederam direitos permanentes de uso e previram expressamente a veneração da imagem no novo templo.

O que está realmente em jogo

A Diocese de Barbastro-Monzón apoia sua posição na propriedade da imagem, na autoridade pastoral do bispo e no vínculo milenar da devoção com as comunidades locais. Para Dom Ángel Pérez Pueyo, a questão não é financeira nem administrativa. Depois de renunciar ao governo do novo templo e a qualquer compensação econômica, ele transformou a permanência da imagem na antiga ermida em uma questão de consciência episcopal e de dignidade do povo diocesano.

O Opus Dei baseia sua posição na continuidade jurídica dos acordos, nos investimentos realizados durante mais de seis décadas e no projeto religioso aprovado pelo bispo da época. Para a Prelazia, a imagem não foi retirada clandestinamente, mas transferida dentro de um plano que previa a união da ermida e do novo templo em um único complexo. Devolvê-la definitivamente sem considerar esses documentos equivaleria a romper unilateralmente compromissos assumidos pela própria diocese.

A disputa, portanto, não pode ser resumida como uma briga pela propriedade de um santuário. O grande templo pertence a uma fundação canônica ligada ao Opus Dei. A antiga ermida e a imagem pertencem à diocese. O ponto decisivo consiste em saber se os direitos concedidos em 1962 e confirmados em 1966 continuam válidos, e se permitem manter a imagem no templo novo contra a vontade do atual bispo.

Também está em jogo a relação entre uma prelazia pessoal de alcance internacional e a autoridade territorial de um bispo. O Opus Dei considera Torreciudad parte essencial de sua história espiritual e apostólica. A diocese considera que essa projeção universal não pode apagar a origem local da devoção nem reduzir o papel do ordinário do lugar.

Uma solução poderia reconhecer Torreciudad como santuário internacional, preservar a atividade pastoral do Opus Dei, colocar a supervisão administrativa nas mãos da Santa Sé e estabelecer uma fórmula de custódia ou alternância para a imagem. O problema é que qualquer compromisso sobre a escultura será interpretado como vitória ou derrota, justamente o que dificulta uma saída verdadeiramente eclesial.

Em 4 de setembro de 2026, a controvérsia permanece aberta. O comissário pontifício ainda não anunciou publicamente uma resolução definitiva, o Papa Leão XIV herdou o processo e a imagem deve retornar à antiga ermida no dia seguinte, ao menos para a celebração programada. Depois de contratos civis, recursos canônicos, dois reitores, um comissário pontifício, cartas papais e ameaças de renúncia, talvez o Papa decida intervir e leve a imagem disputada para sua capela privada até que os dois se entendam.

Por Rafael Ribeiro

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