Catedrais antigas da Inglaterra viram palcos de shows e discotecas silenciosas
A justificativa oficial é financeira. “As catedrais não recebem financiamento regular do governo e muito pouco da Igreja da Inglaterra, por isso precisamos ser imaginativos para preservar esses lugares antigos e preciosos”, disse a Reverenda Jo Kelly-Moore, decana de St. Albans e presidente da Associação das Catedrais Inglesas.

Foto: Silent Discos in Incredible Places/ Facebook
Redação (04/09/2026 08:24, Gaudium Press) As majestosas catedrais medievais da Inglaterra, símbolos da história cristã britânica, enfrentam uma crise financeira profunda. Sem financiamento regular do governo e com pouco apoio da própria Igreja da Inglaterra, cerca de três quartos delas operam no vermelho. Para manter as portas abertas — com custos diários que podem chegar a dezenas de milhares de libras — esses templos antigos estão abrindo espaço para shows de artistas pop, “discotecas silenciosas” (as pessoas usam fone de ouvido) e até parcerias com casas noturnas. A medida gera receita e atrai novos públicos, mas também provoca acusações de profanação.
O jornalista Edward Pentin, do National Catholic Register, descreveu detalhadamente essa realidade em reportagem publicada em 3 de setembro. Segundo Pentin, neste outono, os chamados “concertos à luz de velas” ocorrem semanalmente em diversas catedrais medievais. Não se trata de música sacra ou clássica.
Na Catedral de Worcester, fundada em 680, reconstruída por São Wulfstan e local de sepultamento do Rei João (que assinou a Magna Carta), serão interpretados os maiores sucessos de Whitney Houston. Em outras noites, bandas cover tocam Eagles, Coldplay e Tina Turner. A Abadia de Selby, em Yorkshire — famosa pela “Janela Washington” do século XIV que inspirou a bandeira americana —, receberá tributos aos Beatles e ao Queen em outubro.
Já a Catedral de Wells, de 1175 e a primeira inteiramente gótica do país, abrigará um show em homenagem a David Bowie em 21 de novembro. Praticamente todas as catedrais medievais inglesas acolhem esses eventos, com exceção de Westminster Abbey e da Catedral Christ Church, em Oxford. Eles são organizados comercialmente pela empresa espanhola Fever, que começou com música clássica em 2021 e depois expandiu para covers de pop e rock.
Ainda mais polêmicas, conforme relatado por Pentin, são as “discotecas silenciosas”, promovidas pela empresa londrina MEGA Events. Os participantes usam fones de ouvido e dançam ao som de hits dos anos 1980 e 1990, projetando luzes. Uma das mais recentes ocorreu em Canterbury — a igreja-mãe da Inglaterra por séculos e local do martírio de São Tomás Becket — no dia da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Havia vários bares e bancas vendendo álcool e souvenirs nos corredores laterais da nave. Catedrais como St. Albans, Truro, Durham e Salisbury também realizam essas festas.
A reação online à discoteca silenciosa de Canterbury foi majoritariamente negativa, inclusive entre anglicanos. O comentarista Adrian Hilton classificou o evento como “desacralização de um espaço sagrado”. Tim Dieppe, do grupo Christian Concern, afirmou que a Igreja da Inglaterra “já não acredita no poder de atração do Evangelho e recorre à música secular”.
Em 2024, uma petição contra as primeiras discotecas nas igrejas reuniu mais de 3 mil assinaturas e houve vigília de oração em frente à catedral. A oposição, porém, diminuiu, e os eventos se tornaram rotina, lamenta Cajetan Skowronski, organizador dos protestos iniciais. Ele criticou ainda o anúncio de 1º de setembro passado: a Catedral de St. Paul’s, em Londres, assinou um contrato de quatro anos com uma casa noturna para realizar shows musicais. “Agora somos convidados a transformar St. Paul’s em uma discoteca e dançar sobre os túmulos de heróis nacionais como Nelson, Wellington, Wren e Fleming”, escreveu. Descendentes de Lord Nelson consideraram a iniciativa um insulto à sua memória.

Foto: Silent Discos in Incredible Places/ Facebook
O Pe. Gerald Murray, canonista de Nova York, classificou o uso “profano” dessas igrejas – muitas delas já haviam pertencido à Igreja Católica – como “escandaloso e lamentável”. “Uma igreja é casa de culto a Deus, não um local conveniente para dançar, jantar e ouvir música secular”, afirmou a Pentin. “Essas igrejas foram construídas para promover a prática religiosa, e isso deve ser respeitado”.
Os responsáveis pelas catedrais defendem as iniciativas como necessárias à sobrevivência. “As catedrais não recebem financiamento regular do governo e muito pouco da Igreja da Inglaterra, então precisamos ser imaginativos”, afirmou a decana de St. Albans e presidente da Associação das Catedrais Inglesas. Em Canterbury, o deão David Monteith destacou que atividades comerciais subsidiam o culto diário e que as discotecas silenciosas não são “raves na nave”, mas eventos “apropriados e respeitosos”. Muitos argumentam que esses encontros introduzem o espaço sagrado a pessoas que nunca entrariam de outra forma e mantêm viva a tradição de as catedrais serem centros comunitários além do culto.
No entanto, isso é desrespeito ao caráter sagrado. Petições contra as discotecas de Canterbury reuniram mais de 1.600 assinaturas. Organizadores de protestos afirmam que tais eventos enviam a mensagem de que o entretenimento importa mais do que Deus e não aproximam os jovens de Cristo. É uma profanação dançar ou ouvir letras explícitas em locais de martírio, sepulturas de santos e reis, e espaços construídos para elevar o olhar ao divino. A parceria de St. Paul’s com uma casa noturna, que já teve licença cassada no passado por questões relacionadas a drogas, gerou novas críticas, inclusive de familiares de personalidades sepultadas no local.
O fenômeno reflete um quadro maior: queda na frequência aos cultos, custos elevados de manutenção de edifícios centenários e a necessidade de diversificar fontes de receita. Algumas catedrais já experimentaram antes outras atrações seculares, como mini-golfe ou tobogãs, com resultados mistos em termos de visitantes.
O convertido católico e ex-clérigo anglicano Gavin Ashenden aponta essa dessacralização como fruto da diferença teológica entre católicos e protestantes sobre o espaço sagrado. Na teologia sacramental católica, a missa torna presente o sacrifício de Cristo, enquanto a compreensão protestante trata o culto e os edifícios sagrados principalmente como memoriais, locais de encontro e espaços funcionais. Ele ainda acrescentou que vivemos em uma época “que perdeu o senso de respeito pelas coisas de Deus e que considera que o entretenimento, e não a fé e a adoração a Deus, é o principal interesse e preocupação do homem”.
Os bispos católicos da Inglaterra e do País de Gales preferiram não se pronunciar, afirmando que não lhes cabe falar pela Igreja da Inglaterra. Historiadores e canonistas observam que, do ponto de vista católico, esses espaços deixaram de ser católicos na Reforma e que abusos semelhantes em igrejas católicas são tratados como desvios, enquanto no anglicanismo o uso secular parece cada vez mais normalizado.
A historiadora de arte eclesiástica Elizabeth Lev lembrou episódios passados, como festas no mausoléu de Santa Costanza no século XVII (reprimidas pelo Papa Clemente XIV) e eventos noturnos na Basílica de Santa Croce in Gerusalemme, em Roma, em 2011, que levaram à intervenção do Vaticano. Ela defende que a melhor resposta é as pessoas voltarem a frequentar e apoiar suas igrejas, em vez de transformar espaços sagrados em locais de entretenimento. “Se queremos que os outros respeitem nosso espaço, precisamos respeitá-lo nós mesmos. Poucas mesquitas viram discotecas”, concluiu.
Hoje, infelizmente, a grande maioria das pessoas perdou o senso de espiritualidade, de fé e da graça divina, passando a orientar-se por critérios puramente humanos, mundanos, financeiros e pragmáticos.





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