Sudão do Sul: duas religiosas carmelitas sobrevivem a emboscada em rodovia
No domingo, 30 de agosto, duas religiosas carmelitas, identificadas como as Irmãs Helen e Ansa, foram atacadas enquanto viajavam de Torit para Juba, após participarem da Missa da manhã. O veículo em que estavam foi alvo de uma emboscada.

Foto: screenshot/ Facebook
Redação (02/09/2026 10:05, Gaudium Press) Duas religiosas da Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD), que atuam na Diocese Católica de Torit, no Sudão do Sul, sobreviveram a um assalto armada na rodovia Juba-Torit, no último domingo, 30 de agosto. O ataque, ocorrido perto de Jebel Gutun, na região de Lirya, reacende preocupações com a segurança nessa estrada estratégica, onde, cinco anos antes, duas religiosas de outra congregação foram assassinadas.
Segundo informações da rádio local Emmanuel 89 FM e de veículos de comunicação católicos, as Irmãs Helen e Ansa deixaram Torit logo após a missa matinal e seguiam em direção a Juba quando o veículo em que viajavam foi interceptado por bandidos armados. Um dos agressores teria golpeado a Irmã Helen na cabeça — relatos apontam o uso do cano de uma arma —, causando ferimentos cuja gravidade ainda não foi detalhada. As religiosas e os demais passageiros tiveram todos os pertences roubados. Informações preliminares indicam ainda o sequestro de duas crianças durante o ataque, sem atualizações sobre o paradeiro delas.
Assim que tomou conhecimento dos fatos, o bispo de Torit, Dom Emmanuel Bernardino Lowi Napeta, mobilizou imediatamente ajuda a partir de Juba. As Irmãs foram transferidas para a capital, onde a Irmã Helen recebeu atendimento médico.
Um trecho marcado pela insegurança
A rodovia Juba-Torit é historicamente reconhecida como uma das rotas mais perigosas do Sudão do Sul devido a emboscadas violentas de bandidos armados, saques e assassinatos. A via conecta a capital, Juba, à capital regional de Torit, servindo de ligação essencial para o estado de Equatória Oriental e para a fronteira com o Quênia.
A região enfrenta desafios ligados a grupos armados, banditismo e tensões locais, em um país que ainda lida com as consequências de décadas de conflitos internos, apesar do acordo de paz de 2018.
Este episódio faz eco a um ataque trágico de 16 de agosto de 2021. Naquela ocasião, um ônibus que transportava sete religiosas e outras pessoas foi emboscado na mesma via. Morreram a Irmã Mary Daniel Abut, ex-superiora geral das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus e diretora de escola em Juba, e a Irmã Regina Roba, que atuava em formação de saúde na Diocese de Wau. Outras pessoas também perderam a vida. O então Papa Francisco enviou condolências e expressou esperança de que o sacrifício das religiosas contribuísse para a paz e a reconciliação na região.
A Igreja em meio às dificuldades
A Diocese de Torit tem se posicionado repetidamente contra a violência que atinge comunidades e trabalhadores da Igreja. Em abril de 2025, Dom Napeta condenou um ataque à paróquia de Nossa Senhora da Assunção, em Loa, no qual um civil morreu e outra pessoa ficou ferida. O bispo falou em “clima de medo e ansiedade” e pediu investigação imparcial, criticando também intimidações envolvendo forças de segurança.
Mesmo diante desses desafios, a Igreja local mantém sua missão pastoral e social. Em janeiro passado, o mesmo bispo destacou a paróquia da Sagrada Família de Palotaka — que celebrava seu centenário — como “refúgio de esperança” e espaço de construção da paz para as comunidades da região. A atuação inclui evangelização, caridade e apoio a populações marcadas por longos anos de instabilidade.
As Carmelitas Descalças, ordem contemplativa fundada no século XVI por Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, têm presença missionária em diversas partes do mundo, incluindo áreas de conflito. Sua atuação no Sudão do Sul se soma ao trabalho de outras congregações religiosas que, apesar dos riscos, continuam oferecendo educação, saúde e assistência espiritual em regiões isoladas.
Até o momento, não há informações oficiais sobre o número exato de agressores, suas identidades ou o motivo específico do ataque. As autoridades locais e a Igreja acompanham o caso, enquanto a segurança na rodovia Juba-Torit permanece uma preocupação constante para moradores locais, viajantes e religiosos.
O episódio reforça o apelo recorrente de líderes católicos no Sudão do Sul por diálogo, proteção das populações civis e respeito às instituições religiosas. Em um país onde a Igreja frequentemente se coloca como mediadora e provedora de serviços essenciais, a continuidade da missão em meio à insegurança é vista tanto como testemunho de fé quanto como desafio permanente.




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