Cardeal Sarah chama de “míope” a guerra à liturgia antiga e diz que ela ajuda a corrigir abusos
Ele relata que Bento XVI se deixou humilhar “como um cordeiro” quando a Traditiones Custodes reverteu suas disposições.
Redação (29/08/2026 08:22, Gaudium Press) O cardeal guineense Robert Sarah, prefeito emérito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, afirmou em recente entrevista que o acesso à forma extraordinária do rito romano — a tradicional Missa em latim — não pode ser limitado de maneira artificial por decretos e que a Igreja não deve “fazer guerra” contra os fiéis que participam dela com devoção.
A declaração foi feita ao jornalista Nico Spuntoni, do diário italiano Il Giornale, por ocasião do lançamento de seu mais recente livro, Il Cantico dell’Agnello. Musica sacra e liturgia celeste (O Cântico do Cordeiro. Música sacra e liturgia celeste), escrito em coautoria com Peter Carter e publicado pela editora Cantagalli. A obra aborda a importância da música sacra, do canto gregoriano e da liturgia como expressão da liturgia celeste, temas centrais na reflexão do purpurado ao longo de sua carreira. Na entrevista, o purpurado também tratou das restrições impostas pela Traditionis Custodes.
Sarah, conhecido por sua defesa da sacralidade litúrgica e por ter ocupado o cargo de prefeito do culto divino entre 2014 e 2021, destacou os efeitos positivos da liberalização da forma extraordinária promovida pelo papa Bento XVI por meio do motu proprio Summorum Pontificum, de 2007. Segundo o cardeal, essa medida não apenas facilitou o acesso ao rito tradicional, mas exerceu influência positiva — e até de correção — sobre eventuais abusos na celebração da forma ordinária (o Novus Ordo).
“Entre os efeitos da liberalização da forma extraordinária esteve a influência positiva, eu diria até de correção, dos possíveis abusos na celebração da forma ordinária”, afirmou. Ele ressaltou, porém, que tais abusos, embora gravíssimos, não devem ser identificados com a forma ordinária em si. Muitos sacerdotes, segundo o cardeal, testemunham que o contato com a forma extraordinária os ajudou a celebrar com maior reverência.
Na visão de Sarah, a intenção de Bento XVI incluía uma postura “profundamente humilde e democrática”: garantir a mais ampla difusão do rito para que o povo de Deus, ao longo das décadas, pudesse escolher a forma que melhor correspondia à vivência de sua fé.
Essa abertura, no entanto, foi interrompida pelo motu proprio Traditionis Custodes, promulgado pelo Papa Francisco em julho de 2021, que restringiu significativamente o uso da forma extraordinária. Sarah classificou a medida como “nem sábia nem respeitosa”, lamentando que tenha sido adotada enquanto o pontífice emérito ainda estava vivo. Sobre a reação de Bento XVI, o cardeal descreveu-o com palavras de grande sensibilidade: “Bento, homem manso como um cordeiro, deixou-se humilhar e, assim, no silêncio e na oração, ofereceu a Deus o seu sofrimento para se identificar melhor com a dor de Cristo por sua Igreja e purificá-la”.
Questionado sobre pedidos de ab-rogação das restrições, Sarah foi categórico: o acesso a formas rituais reconhecidas e existentes há séculos não pode ser limitado artificialmente por decretos. “Se um rito não servisse à fé, desapareceria por si só; se, ao contrário, custodia e promove a fé, não devemos limitá-lo, porque limitaríamos a preservação e a difusão da própria fé”.
O cardeal também comentou a aversão ao latim e ao canto gregoriano presente em certos setores eclesiásticos. Ele a atribuiu a “alguns círculos culturais autorreferenciais”, mais de natureza psicológica do que fundamentada, e previu que se trata de um problema geracional: “quando passar a geração dos sessenta e oito [referência ao maio de 1968], passarão também esses unilateralismos infundados que mortificam a própria estatura cultural do catolicismo latino”.
Sarah expressou admiração pelos fiéis que percorrem longas distâncias para participar de Missas na forma extraordinária, observando que o fenômeno continua em expansão. Ele apelou à hierarquia para ler os sinais dos tempos atuais, e não os do período de 1968, e abrir espaços de diálogo fraterno. “Não podemos, como Igreja, fazer guerra a quem participa devotamente da Missa só porque prefere uma forma em vez de outra: é uma atitude míope e totalmente ideológica, portanto não pastoral e não cristã. É danosa, destrutiva para a Igreja”, concluiu.
Nascido em 1945 na Guiné, Robert Sarah é uma das vozes mais influentes do catolicismo contemporâneo em temas de liturgia, silêncio, oração e defesa da doutrina tradicional. Sua trajetória inclui anos de serviço no Vaticano e diversos livros de grande repercussão, como Deus ou Nada. O novo volume sobre música sagrada reforça sua convicção de que a liturgia deve elevar o fiel ao mistério divino, e não se reduzir a expressões banais ou ideológicas.
As declarações do cardeal reabrem o debate sobre a unidade na diversidade litúrgica da Igreja, em um momento em que o tema da forma extraordinária continua a gerar discussões em diversas dioceses ao redor do mundo.






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