Gaudium news > China: Igreja clandestina teria ordenado pelo menos 10 bispos em segredo

China: Igreja clandestina teria ordenado pelo menos 10 bispos em segredo

O renomado historiador e especialista em Igreja na Ásia, Dr. Anthony E. Clark, descreveu o cenário dramático e complexo que a comunidade católica enfrenta na República Popular da China.
 Dr. Clark – Foto: Wikipedia

Dr. Clark – Foto: Wikipedia

Redação (26/08/2026 16:46, Gaudium Press) Em uma análise detalhada e reveladora publicada recentemente no Catholic World Report, o historiador e especialista em Igreja na Ásia Dr. Anthony E. Clark apresenta um retrato dramático e complexo da situação da comunidade católica na República Popular da China. Sob o sugestivo título “Unbroken: News from the Church in China” — referência ao antigo adágio chinês sobre perseverança “dobrar-se cem vezes, mas jamais se quebrar” —, Clark descreve a perseverança dos fiéis diante do controle persistente e crescente do regime comunista.

O texto baseia-se em conversas recentes com membros da Igreja Católica na China (muitos com identidades protegidas por segurança) e enquadra a crise atual numa longa tradição de perseverança.

Consagrações episcopais clandestinas em Fujian

O dado de maior impacto eclesial revelado por Clark é a resposta da Igreja “subterrânea” ao avanço do controle estatal. Na província de Fujian — um dos redutos históricos da resistência católica —, um bispo não afiliado à Associação Patriótica Católica Chinesa (órgão controlado pelo governo) informou ao historiador que a comunidade clandestina procedeu à consagração secreta de pelo menos dez novos bispos. O prelado não revelou nomes, datas nem identidade dos consagrantes, mas descreveu a situação como um verdadeiro “estado de emergência” pastoral e doutrinário após o Acordo Provisório de 2018 entre a Santa Sé e Pequim.

O objetivo dessas ordenações seria garantir a continuidade do ministério episcopal e a integridade da fé diante do temor de que a influência política comprometa a sucessão apostólica e o depósito da fé. A medida tem graves implicações canônicas e diplomáticas. Muitos católicos clandestinos vivem perplexos com a renovação do acordo (atualmente válido até outubro de 2028) e com a aprovação vaticana de prelados previamente selecionados por estruturas oficiais chinesas. Perguntam-se: quem exerce a verdadeira autoridade na Igreja local — o Papa ou o Partido?

O acordo, assinado em 2018 e renovado sucessivamente (a última vez por quatro anos em 2024), busca regular a nomeação de bispos, dando ao Papa o poder de veto sobre candidatos propostos por Pequim. Na prática, porém, o governo chinês tem avançado com nomeações e pressões que muitos consideram violações do espírito do pacto. Sob o Papa Leão XIV, várias ordenações foram aprovadas no âmbito do acordo, incluindo as de Joseph Chang Yanfeng para Chifeng e Francis Xavier Duan Yongkun como coadjutor de Bameng em julho deste.

A campanha de “sinicização”: o jugo ideológico sobre a fé

Sob Xi Jinping, a política religiosa intensificou a “sinicização das religiões”. Longe de ser uma mera inculturação do Evangelho na tradição chinesa, o programa busca subordinar dogmas, estrutura eclesial e vida pastoral à ideologia e aos interesses do Partido Comunista Chinês (PCC). A premissa é clara: todo habitante deve ser “primeiro um cidadão chinês obediente ao Partido, e só em segundo lugar um crente”. Em abril de 2025, Xi reforçou essa exigência em reunião do Departamento de Trabalho da Frente Unida.

Entre as ferramentas de pressão e coerção documentadas por Clark destacam-se:

– A campanha das “Quatro Introduções”: exigência de que templos católicos exibam de forma proeminente a bandeira nacional, a Constituição chinesa, lemas de valores socialistas e elementos da cultura tradicional promovida pelo Estado, alterando a atmosfera sagrada dos recintos de culto.

– A campanha dos “Três Amores”: patriotismo, amor ao Partido e amor ao socialismo, presentes em boletins paroquiais e atividades.

– Sessões obrigatórias de doutrinação política para paroquianos, seminaristas e clérigos, centradas no pensamento de ideológico do regime comunista e nas regulamentações governamentais para assuntos religiosos.

– Censura digital reforçada: proibição de publicação de material catequético, transmissão de liturgias ou difusão de ensinamentos sem autorização prévia do governo.

– Infiltração: relatos de que alguns padres seriam membros do Partido, num processo que o Pe. Paul Mariani descreve como o Partido da religião.

Um seminarista chinês relatou a Clark a quase ausência de direção espiritual nos seminários, substituída por cursos compulsórios do governo. Um sacerdote citou o esgotamento causado por reuniões e relatórios intermináveis que o afastam do trabalho pastoral.

Continuidade histórica de perseguição e martírio

Clark situa a crise atual numa longa história de repressão e martírio, lembrando figuras heroicas como o jesuíta Padre Zhu Hongsheng (1916-1993), que passou mais de 31 anos na prisão por se recusar a romper laços com Roma, e o Padre Shen Baishun (1903-1985), acusado de “atividades contrarrevolucionárias” e “interferência estrangeira” por fidelidade ao Vaticano. Ambos recusaram aderir à Igreja Patriótica. Para muitos fiéis, essas memórias são o espelho do presente: a fidelidade incondicional a Roma continua sendo tratada oficialmente como ameaça.

As linhas entre a Igreja “oficial” e a “subterrânea” são porosas. Os fiéis geralmente respeitam o clero de ambos os lados; a resistência é dirigida ao controle estatal, não aos irmãos na fé. Ainda assim, a pressão sobre comunidades não registradas — detenções, desaparecimentos forçados, confisco de propriedades e vigilância constante — permanece intensa, conforme relatórios de organizações de direitos humanos.

Apesar da vigilância asfixiante, do confisco de bens e do desgaste psicológico da clandestinidade ou do escrutínio estatal permanente, Clark conclui com uma nota de admiração pela fortaleza do rebanho chinês, que precisa se curvar continuamente diante da tormenta política, mas continua vivo. Eles continuam a celebrar a fé, a transmitir a memória dos mártires e a buscar caminhos para preservar a fé e a pureza doutrinal.

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas