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Em Hong Kong, até rezar e recordar se tornou ameaça ao Estado

O objetivo agora do governo chinês é controlar a memória, estabelecer quais sofrimentos podem ser recordados e determinar até mesmo por quem os mortos podem ser lamentados. 

Portão de Tiananmen Foto: Wikipedia

Portão de Tiananmen Foto: Wikipedia

Redação (26/08/2026 09:37, Gaudium Press) A condenação de dois ativistas por terem organizado uma vigília em memória das vítimas do massacre da Praça da Paz Celestial confirma que a repressão em Hong Kong entrou numa nova etapa. Já não se trata apenas de impedir manifestações, fechar jornais ou desarticular partidos de oposição. O objetivo agora é controlar a memória, estabelecer quais sofrimentos podem ser recordados e determinar até mesmo por quem os mortos podem ser lamentados.

Chow Hang-tung e Lee Cheuk-yan foram considerados culpados de “incitação à subversão” por sua participação na tradicional vigília de 4 de junho, realizada durante décadas no Victoria Park. Os encontros reuniam milhares de pessoas para recordar a repressão militar promovida pelo regime chinês contra os manifestantes de Tiananmen, em 1989.

As autoridades de Hong Kong sustentam que os acusados não foram julgados por suas convicções políticas nem por suas críticas ao governo. O problema, segundo o tribunal, residiria na defesa do fim da “ditadura de partido único”, interpretada como tentativa de enfraquecer a ordem constitucional chinesa. Curiosamente, os próprios juízes reconheceram que os ativistas não apresentaram um plano, um método ou um cronograma para derrubar o governo, tampouco promoveram a violência.

A subversão, portanto, não estava propriamente nos atos praticados, mas no significado político atribuído às palavras e à memória cultivada pelos acusados.

Esse detalhe é decisivo. Quando uma vigília pacífica passa a ser considerada ameaça à segurança nacional, a legislação deixa de servir apenas para punir ações concretas e se transforma em instrumento de vigilância das consciências. O Estado já não precisa provar a existência de uma conspiração. Basta interpretar uma oração, uma manifestação silenciosa ou uma crítica pública como tentativa de provocar “ódio e repulsa” contra o poder.

As condenações de Chow e Lee não constituem um episódio isolado, devendo ser compreendidas em conjunto com a sentença imposta em fevereiro ao empresário e ativista católico Jimmy Lai. Fundador do jornal Apple Daily e uma das figuras mais conhecidas do movimento democrático de Hong Kong, Lai recebeu uma pena de 20 anos de prisão por conspiração para colaborar com forças estrangeiras e publicar materiais considerados sediciosos.

É mais exato falar da recente condenação de Jimmy Lai do que de uma prisão recente. Ele se encontra detido desde dezembro de 2020, e já passou mais de cinco anos encarcerado, boa parte deles em isolamento. Aos 78 anos, uma sentença de duas décadas equivale, na prática, à possibilidade de morrer na prisão. Lai decidiu não recorrer da condenação, embora não tenham sido divulgadas as razões dessa decisão. O seu caso recebeu críticas internacionais e tornou-se um símbolo do desaparecimento da liberdade de imprensa em Hong Kong.

O que é perigoso para regimes totalitários

Há uma linha clara que une Jimmy Lai, a vigília de Tiananmen, a prisão de líderes políticos e a crescente pressão sobre sacerdotes e bispos. Todos representam formas de organização social que não dependem do Partido Comunista Chinês. Um jornal independente, uma associação de familiares de vítimas, uma comunidade paroquial ou um grupo que se reúne para rezar possuem algo que os regimes de inspiração totalitária consideram perigoso: vínculos pessoais e institucionais que não foram criados pelo Estado.

A questão não é simplesmente saber se esses grupos promovem uma revolução. O que incomoda é o fato de conservarem uma autoridade moral própria. Jimmy Lai não dispunha de armas nem comandava um exército. Possuía um jornal, convicções religiosas e contatos internacionais. Os organizadores da vigília de Tiananmen não apresentavam um programa militar; mantinham viva uma memória que o regime gostaria de apagar.

Nesse contexto, a pressão exercida sobre membros do clero católico adquire um significado especialmente preocupante. Segundo o site The Pillar, o bispo auxiliar Joseph Ha Chi-shing foi detido recentemente por agentes de imigração quando viajava de Hong Kong para Macau, embora tenha sido posteriormente autorizado a entrar no território. Sacerdotes associados à antiga vigília de Tiananmen estariam sendo submetidos a abordagens e detenções semelhantes.

As autoridades podem apresentar cada episódio como um procedimento administrativo sem maior importância. Entretanto, a repetição dessas medidas produz um efeito perfeitamente calculado. Não é preciso prender todos os padres nem fechar imediatamente todas as igrejas. Basta demonstrar que os deslocamentos são monitorados, que determinados contatos têm consequências e que cada homilia ou manifestação pública poderá ser examinada à luz da segurança nacional.

Divergências entre cardeais

É também nesse ambiente que devem ser avaliadas as divergências entre os cardeais Stephen Chow e Joseph Zen. Chow procura manter abertos os canais com Pequim e tornou-se um importante defensor do acordo provisório firmado entre a Santa Sé e a China. Sua estratégia parece basear-se na convicção de que a Igreja poderá conservar certo espaço pastoral se evitar confrontos públicos e construir gradualmente uma relação de confiança com as autoridades.

Zen considera essa esperança perigosamente ingênua. Para o bispo emérito de Hong Kong, as concessões feitas ao governo chinês não asseguram maior liberdade à Igreja, mas facilitam a progressiva submissão das estruturas católicas aos interesses do Partido.

The Pillar afirma, citando fontes anônimas, que durante a visita ad limina dos bispos de Hong Kong e Macau, em junho, Chow teria manifestado ao Cardeal Pietro Parolin sua preocupação com as posições de Zen e do arcebispo Savio Hon Tai-Fai. Segundo essas fontes, ambos estariam tentando enfraquecer a autoridade de Chow e o protocolo sino-vaticano. Trata-se de uma informação grave que, por depender de relatos não oficialmente confirmados, deve ser apresentada com cautela.

Mesmo assim, a situação revela uma divisão pastoral real. De um lado, encontram-se aqueles que acreditam ser possível administrar a pressão política por meio da prudência diplomática; de outro, estão os que temem que cada silêncio seja interpretado pelo regime como autorização para avançar um pouco mais.

O problema da estratégia de acomodação é que os acontecimentos parecem demonstrar que Pequim não retribui necessariamente os gestos de boa vontade. Enquanto representantes eclesiásticos defendem o diálogo, um cardeal de 94 anos como Joseph Zen continua submetido a restrições judiciais; um leigo católico como Jimmy Lai recebeu uma pena de 20 anos; um bispo auxiliar é retido numa fronteira; sacerdotes são importunados e vigílias pacíficas passam a ser classificadas como subversivas.

Diplomacia e perseguição

Isso não significa que a Santa Sé deva abandonar toda negociação. Um rompimento poderia agravar ainda mais a situação dos católicos, especialmente no território continental. A diplomacia existe precisamente para lidar com interlocutores difíceis. Mas o diálogo deixa de ser prudência quando impede que se reconheça publicamente a realidade.

Também seria injusto reduzir Jimmy Lai a uma peça da disputa diplomática entre o Vaticano e Pequim. Sua importância decorre justamente do fato de ser um leigo católico que assumiu pessoalmente as consequências de suas escolhas. Ele poderia ter deixado Hong Kong, mas permaneceu. Sua situação revela que a perseguição aos cristãos nem sempre começa com a proibição da Missa ou com a retirada das cruzes. Pode começar com a criminalização da liberdade de imprensa, da associação civil e da memória histórica.

A promessa de “um país, dois sistemas” oferecia a Hong Kong um regime distinto daquele vigente na China continental. Hoje, essa distinção sobrevive cada vez mais como fórmula jurídica. A Lei de Segurança Nacional, imposta por Pequim em 2020, permitiu que atividades antes protegidas fossem reinterpretadas como ameaças existenciais ao Estado. A condenação dos organizadores da vigília de Tiananmen mostra até onde essa lógica pode chegar: pedir o fim do monopólio político, mesmo sem violência, passa a ser prova suficiente de subversão.

A pergunta mais incômoda para a Igreja não é se o cardeal Chow conseguirá navegar por esse ambiente, mas quanto restará da liberdade religiosa ao final da travessia. Em Hong Kong, o governo já demonstrou que não precisa fechar as igrejas para neutralizar a presença católica. Pode permitir que elas permaneçam abertas, desde que sejam progressivamente privadas da capacidade de recordar, denunciar e formar consciências livres.

Quando acender uma vela por Tiananmen se torna crime e um jornalista católico recebe uma sentença que provavelmente consumirá o restante de sua vida, a perseguição já não está batendo à porta da Igreja. Ela entrou, sentou-se no primeiro banco e espera, em silêncio, para saber se alguém terá coragem de mencioná-la na homilia.

Por Rafael Ribeiro

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