Acordo com a China: silêncio diplomático ou pacto com o diabo?
Parlamentar britânico questiona o Vaticano.

Foto: davidalton.net
Redação (24/08/2026 17:25, Gaudium Press) A classificação do acordo entre a Santa Sé e a China como um “pacto com o diabo” parece, à primeira vista, mais apropriada a uma homilia inflamada do que ao vocabulário diplomático. No entanto, quando a expressão vem de Lord David Alton – veterano parlamentar católico britânico e conhecido defensor da liberdade religiosa –, convém não a descartar como simples provocação.
Em entrevista ao site Crux, Alton acusa o Vaticano de ter mantido silêncio diante das graves violações praticadas pelo regime comunista chinês e, sobretudo, de ter abandonado os católicos da chamada Igreja clandestina. São bispos, sacerdotes e fiéis que, durante décadas, recusaram submeter-se à Associação Patriótica Católica Chinesa, controlada pelo Estado, precisamente para permanecerem em plena comunhão com Roma.
A intervenção de Alton ocorreu no contexto de uma campanha da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre em defesa do artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que garante a liberdade de pensamento, de consciência e de religião. O parlamentar recorda que o problema chinês não se limita aos católicos. O regime é acusado de crimes gravíssimos contra os uigures, de perseguição aos budistas tibetanos, protestantes, praticantes do Falun Gong e a qualquer comunidade religiosa que conserve alguma autonomia diante do Partido Comunista.
O acordo provisório entre a Santa Sé e Pequim foi assinado em 2018, durante o pontificado de Francisco. Seu conteúdo permanece secreto, mas sabe-se que trata da nomeação dos bispos chineses. Em termos gerais, as autoridades chinesas participam da seleção dos candidatos, enquanto o Papa conserva, ao menos formalmente, a palavra final. Renovado em 2020, 2022 e novamente em 2024, desta vez por quatro anos, o acordo permanece em vigor até outubro de 2028. Ao anunciar a última prorrogação, a Santa Sé afirmou desejar prosseguir um diálogo “respeitoso e construtivo” em benefício da Igreja na China e do povo chinês.
A lógica romana é compreensível. Após décadas de ordenações episcopais sem mandato pontifício, de dioceses divididas e de bispos excomungados, o Vaticano pretendia preservar a sucessão apostólica e impedir a consolidação definitiva de uma Igreja nacional separada de Roma. Do ponto de vista sacramental, o acordo produziu resultados. Novos bispos foram ordenados com o consentimento simultâneo de Pequim e do Papa, inclusive durante o pontificado de Leão XIV. Apenas em julho deste ano, a Santa Sé anunciou as ordenações de Joseph Chang Yanfeng como bispo de Chifeng e de Francis Xavier Duan Yongkun como coadjutor de Bameng, ambos aprovados no âmbito do acordo.
Esse constitui o argumento mais forte dos defensores da política vaticana. Sem algum entendimento com o regime, numerosas dioceses poderiam permanecer anos sem bispos ou receber prelados escolhidos unilateralmente pelo Partido. A Santa Sé não vê o acordo como uma aprovação moral do comunismo chinês, mas como um instrumento pastoral limitado, destinado a garantir que os bispos sejam reconhecidos pelo sucessor de Pedro.
O problema, no entanto, é que a questão já não pode ser avaliada apenas pela regularidade canônica das ordenações.
Um extenso relatório publicado em abril pela Human Rights Watch concluiu que a pressão contra os aproximadamente 12 milhões de católicos chineses aumentou, e não diminuiu, desde a assinatura do acordo. Segundo o documento, comunidades clandestinas foram submetidas a vigilância, detenções, desaparecimentos forçados e campanhas destinadas a obrigá-las a ingressar na estrutura oficial. Há relatos de sacerdotes impedidos de possuir contas bancárias, cartões telefônicos ou passaportes; de menores proibidos de frequentar igrejas e de homilias sujeitas à aprovação das autoridades.
A chamada “sinicização” da religião também adquiriu contornos cada vez mais ideológicos. O conceito poderia significar uma legítima inculturação do Evangelho na tradição chinesa. Na prática estabelecida por Xi Jinping, significa adequar doutrina, liturgia, arquitetura, formação do clero e atividades pastorais às prioridades do Partido Comunista. Um plano publicado pela associação patriótica menciona repetidamente a sinicização e a compatibilidade com a sociedade socialista, mas não faz referência à Santa Sé.
A acusação mais grave formulada por Alton, portanto, não é simplesmente a de que o acordo tenha fracassado. É a de que ele teria oferecido ao regime um argumento adicional para desmantelar a Igreja clandestina. As autoridades podem dizer aos resistentes que Roma já reconheceu a estrutura oficial e que, portanto, não existe mais motivo legítimo para recusá-la. O sacrifício heroico de gerações de católicos corre o risco de ser reinterpretado como uma resistência desnecessária ou até mesmo desobediente.
É preciso reconhecer, contudo, que atribuir toda a repressão ao acordo seria excessivo. A perseguição religiosa na China antecede 2018 e intensificou-se com a política de Xi Jinping em relação a todas as instituições independentes. Não há certeza de que a situação dos católicos seria melhor na ausência de qualquer diálogo entre Roma e Pequim. Talvez houvesse mais bispos clandestinos, mas também mais ordenações ilícitas, divisões e prisões. A diplomacia vaticana trabalha justamente nesse terreno ingrato, no qual nenhuma alternativa está livre de sofrimento.
O que enfraquece a posição da Santa Sé é a combinação entre segredo e silêncio. Como o texto do acordo não é conhecido, torna-se impossível verificar quais obrigações Pequim assumiu, quais violações ocorreram e quais mecanismos Roma possui para exigir seu cumprimento. A China já tomou decisões episcopais de forma unilateral e reorganizou circunscrições eclesiásticas segundo critérios estatais. Mesmo assim, o Vaticano continuou a renovar o pacto e raramente denunciou publicamente os abusos.
Leão XIV herdou esse problema, mas não está obrigado a herdar todas as escolhas de Francisco. A sua decisão de receber o Cardeal Joseph Zen, crítico histórico do acordo, evidenciou disposição para ouvir aqueles que se sentiram abandonados. Ao mesmo tempo, a aprovação de novos bispos indicou que o Papa não pretende romper precipitadamente o canal aberto com Pequim.
A questão que se coloca agora não é se Roma deve conversar com a China. A Igreja dialoga com governos muito piores quando isso pode proteger os fiéis. A verdadeira questão é saber quais frutos concretos esse diálogo produz e quais limites a Santa Sé está disposta a estabelecer.
Se o acordo garante mitras, mas não protege os homens que devem usá-las; se regulariza dioceses, mas permite que crianças sejam afastadas das igrejas; se evita uma ruptura formal com Roma, mas facilita a absorção da Igreja pelo Partido, seu balanço pastoral torna-se difícil de defender.
Denominá-lo de “pacto com o diabo” talvez seja uma fórmula deliberadamente explosiva. Porém, após oito anos, já não basta a Roma responder com a habitual promessa de diálogo construtivo. A diplomacia pode exigir prudência; não pode exigir que os perseguidos desapareçam também do discurso da Igreja. Afinal, um acordo secreto pode ser necessário por algum tempo; uma consciência secreta, não.
Por Rafael Ribeiro





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