Vaticano intensifica esforços diplomáticos em relação à guerra entre Rússia e Ucrânia
O objetivo da viagem de Dom Paul Richard Gallagher a Moscou é avaliar a disposição para condições mínimas de diálogo, explorar caminhos para cessar as hostilidades e evitar o isolamento diplomático total.
Foto: Vatican News
Redação (24/08/2026 17:25, Gaudium Press) O Vaticano parece determinado a agir com energia renovada para influenciar a mitigação dos estragos da guerra russo-ucraniana, que já se arrasta por mais de quatro anos. A Santa Sé se consolida como um dos poucos governos internacionais capazes de manter canais de diálogo abertos com ambas as partes do conflito, em um momento de crescente polarização global.
Segundo reportagens, como as do Il Messaggero e de veículos oficiais como o Vatican News, essa iniciativa se articula em duas dimensões complementares: uma fase política e institucional, liderada por Dom Paul Richard Gallagher, secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais; e outra de caráter estritamente humanitário, sob a coordenação do Cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana e enviado especial do Papa.
O chamado do Papa Leão XIV e os antecedentes
As bases dessa ofensiva pela paz se consolidaram em julho. Dom Gallagher realizou uma visita à Ucrânia, passando por Kiev, Leópolis e outras localidades. Durante a missão, o arcebispo britânico avaliou a situação no terreno, visitou locais atingidos por bombardeios, encontrou-se com o presidente Volodymyr Zelensky e autoridades locais, e transmitiu a solidariedade do pontífice.
O Cardeal Zuppi também esteve na Ucrânia em julho, visitando um campo de prisioneiros de guerra russos na região de Leópolis e reunindo-se com oficiais ucranianos para discutir trocas de prisioneiros, retorno de crianças e assistência humanitária. Ele reiterou que “mesmo um soldado, um civil ou uma criança reunidos à família é um passo em direção à paz”.
No Ângelus de 9 de agosto, o Papa Leão XIV fez um apelo premente para interromper a “espiral de violência” e abrir espaço à diplomacia e ao diálogo. O pontífice expressou proximidade às famílias das vítimas em ambos os lados, pediu respeito ao direito humanitário e o fim dos ataques a alvos civis — incluindo crianças —, afirmando que “a guerra só gera mais guerra e provoca enormes sofrimentos”. Foi nesse contexto que se confirmou a preparação da missão à capital russa, reafirmando a vocação da Igreja como construtora de pontes.
Diálogo institucional em Moscou
A primeira grande etapa dessa missão teve início neste 24 de agosto, com a chegada de Dom Gallagher a Moscou para uma visita que se estende até o dia 28. O encontro-chave com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, está marcado para esta terça-feira, 25 de agosto — o contato oficial de mais alto nível da Santa Sé em território russo desde antes da invasão em larga escala de 2022 (a última visita de Gallagher a Moscou data de novembro de 2021).
O programa inclui ainda reuniões com o metropolita Antônio de Volokolamsk, responsável pelas relações externas do Patriarcado de Moscou; com Iuri Ushakov, assessor de política externa do presidente Vladimir Putin (prevista para 26 de agosto); e encontros com a pequena comunidade católica russa, incluindo celebração de missa na Catedral da Imaculada Conceição, em Moscou. Não está prevista audiência com o próprio Putin.
O objetivo da viagem é avaliar a disposição para condições mínimas de diálogo, explorar caminhos para cessar as hostilidades e evitar o isolamento diplomático total. A Santa Sé enfatiza sua determinação de continuar no caminho do diálogo mesmo em um dos períodos mais difíceis das relações internacionais.
A urgência da “diplomacia humanitária”
Como continuidade desses esforços, a segunda fase deve ocorrer em setembro. O Cardeal Matteo Zuppi — que já atuou como enviado do Papa Francisco em 2023 e 2024 e teve a missão confirmada por Leão XIV — deve assumir o protagonismo no terreno, com foco pastoral e humanitário. Ele próprio declarou recentemente esperar poder viajar “antes de setembro” ou “até o final de setembro”.
As prioridades centrais são:
– Troca de prisioneiros: facilitar acordos concretos para a libertação e o intercâmbio de prisioneiros de guerra (há relatos de milhares de ucranianos e russos detidos, com propostas de trocas “todos por todos”).
– Proteção da infância: impulsionar a repatriação de crianças ucranianas transferidas para território russo desde o início do conflito — um dos pontos mais delicados e que mais preocupam o Sumo Pontífice. A Santa Sé tem intermediado listas de nomes e cooperado em esforços internacionais para o retorno desses menores.
O Vaticano se destaca como talvez o único grande ator que ainda mantém capacidade de conversação com as partes. No entanto, observa-se uma certa cautela nos objetivos: a missão de Gallagher busca, em primeiro lugar, explorar possibilidades de diálogo e cessar-fogo. Em meio a bombardeios recentes no interior da Ucrânia e da Rússia, e com a guerra mais acesa do que nunca em muitos aspectos, os avanços permanecem desafiadores.





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