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Lourdes cobre Rupnik e expõe uma ferida que a Igreja já não pode esconder

Lourdes demonstra que uma autoridade eclesiástica pode agir pastoralmente sem antecipar uma sentença judicial.

Foto: Santuário de Lourdes/ Facebook

Foto: Santuário de Lourdes/ Facebook

Redação (23/08/2026 08:11, Gaudium Press) A decisão do Santuário de Lourdes de cobrir integralmente os mosaicos de Marko Rupnik na fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário representa uma mudança importante na maneira como a Igreja começa a enfrentar um dos casos mais constrangedores dos últimos anos. Não se trata apenas de ocultar obras associadas a um sacerdote acusado de graves abusos, mas reconhecer que a arte sacra também pode perder a sua capacidade de conduzir a Deus quando se torna inseparável do sofrimento provocado por seu autor.

Segundo a apuração publicada pelo jornalista Michael Haynes, correspondente do Catholic Herald junto à Santa Sé, serão cobertas todas as obras de Rupnik instaladas na parte externa da Basílica do Rosário. Isso inclui o grande conjunto de mosaicos que ocupa a fachada e representa os mistérios luminosos do Rosário, além das composições situadas ao redor das portas de entrada. Algumas delas já se encontravam ocultas desde março de 2025. Agora, o encobrimento abrangerá toda a fachada, sem exceções. Não é uma intervenção nas obras eventualmente existentes em outros espaços do santuário, mas especificamente no conjunto monumental que domina a entrada da basílica.

A medida será executada antes da chegada do Papa Leão XIV a Lourdes, prevista para o fim de setembro. A fachada receberá uma decoração provisória relacionada à viagem apostólica e, posteriormente, uma comissão ampliada, com a participação de artistas e teólogos, estudará uma nova solução permanente para o local.

Esse detalhe altera substancialmente o alcance da decisão. Lourdes não se limita a evitar que as imagens apareçam como cenário de uma celebração pontifícia transmitida ao mundo inteiro. O santuário está retirando, de maneira duradoura, uma das manifestações mais visíveis da arte de Rupnik. A visita de Leão XIV serviu como ocasião para concluir um processo iniciado anos antes, mas não constitui a sua única causa.

Os mosaicos foram instalados em 2008, por ocasião dos 150 anos das aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette. Sua posição lhes dava um peso que ia muito além do valor artístico. O peregrino que se aproximava da basílica inevitavelmente se deparava com a linguagem visual de Rupnik. As obras não estavam guardadas em uma capela lateral ou em uma área de circulação reduzida. Elas funcionavam como uma espécie de moldura catequética e simbólica para uma das igrejas mais importantes do santuário.

Foi justamente essa centralidade que tornou a sua permanência cada vez mais problemática. Rupnik é acusado por numerosas mulheres, muitas delas religiosas, de abusos sexuais, espirituais, psicológicos e de consciência. Alguns testemunhos sustentam ainda que sua concepção artística e teológica não estava simplesmente ao lado dos abusos, mas era utilizada como parte do mecanismo de domínio exercido sobre as vítimas. Nesse contexto, , a separação completa entre a obra e o artista tornou-se uma operação mais confortável para críticos de arte do que para quem sofreu diretamente as consequências de sua conduta.

O bispo de Tarbes e Lourdes, Dom Jean-Marc Micas, começou a tratar publicamente do assunto em 2023, ao criar uma comissão destinada a estudar o futuro das obras. O grupo ouviu vítimas e reuniu pessoas ligadas à arte sacra, à prevenção de abusos, ao direito e à pastoral do santuário. Em julho de 2024, o bispo revelou que sua preferência pessoal era a retirada os mosaicos, embora reconhecesse a ausência de consenso. Naquele momento, decidiu que as obras deixariam de ser iluminadas durante as procissões noturnas.

Em março de 2025, veio o primeiro encobrimento físico. Os mosaicos das portas laterais e, posteriormente, os da entrada central foram cobertos. A iniciativa ainda tinha caráter parcial e simbólico, mas apontava a direção do processo. A nova decisão completa esse movimento ao determinar que nenhum dos mosaicos da fachada permaneça visível.

O argumento de Dom Micas é essencialmente pastoral. Lourdes existe para acolher os enfermos, os feridos e aqueles que procuram consolo. Se vítimas de violência sexual ou espiritual afirmam que a exposição pública dessas imagens torna difícil ou até impossível sua entrada na basílica, o santuário não pode tratar essa reação como uma sensibilidade secundária. Entre a conservação de uma obra e o acolhimento de uma pessoa ferida, Lourdes decidiu que a pessoa deveria ocupar o primeiro lugar.

Isso não equivale a uma sentença canônica contra Rupnik. O processo conduzido pelo Dicastério para a Doutrina da Fé continua aberto, e a Santa Sé já desmentiu notícias de que o antigo jesuíta teria sido absolvido. O tribunal é composto por cinco juízes externos ao Dicastério e à Cúria Romana. Ao mesmo tempo, advogados de algumas denunciantes continuam reclamando da lentidão e da falta de informações sobre o andamento do caso.

A distinção é importante. Determinar juridicamente a culpabilidade de uma pessoa exige provas, contraditório e sentença. Decidir se a obra dessa pessoa deve continuar exposta em um santuário é uma questão pastoral diferente. Dom Micas já indicou que a sua posição sobre a fachada não dependerá do resultado do julgamento. Mesmo uma eventual absolvição canônica não apagaria o impacto adquirido pelas imagens nem a experiência das pessoas que dizem não conseguir rezar diante delas.

A cobertura também coloca a Santa Sé diante de uma incoerência que durante muito tempo se tornou difícil ignorar. Enquanto denúncias e testemunhos se acumulavam, imagens de Rupnik continuavam aparecendo em páginas e materiais oficiais do Vaticano. Essa permanência transmitia a impressão de que a carreira e o prestígio do artista estavam sendo protegidos enquanto as vítimas aguardavam respostas. Segundo Haynes, a utilização dessas imagens nos portais vaticanos foi discretamente interrompida já no pontificado de Leão XIV, indicando uma mudança de sensibilidade institucional.

Lourdes pode agora estabelecer um precedente. Há obras de Rupnik em Roma, Fátima, Madri, Washington, San Giovanni Rotondo e muitos outros lugares. Nem todas precisarão receber a mesma solução, pois cada espaço possui contexto próprio. Contudo, ficará mais difícil sustentar que nada pode ser feito até a conclusão do processo canônico. Lourdes demonstra que uma autoridade eclesiástica pode agir pastoralmente sem antecipar uma sentença judicial.

A nova decoração da fachada ainda exigirá tempo, prudência e qualidade artística. Seria um erro substituir precipitadamente uma obra controversa por algo pobre, meramente funcional ou concebido como gesto publicitário. O desafio será criar uma linguagem realmente sacra, capaz de servir à liturgia, à devoção mariana e à história do santuário, sem transformar a substituição numa revanche estética.

Ao cobrir os mosaicos, Lourdes não apaga a sua própria história. Ao contrário, reconhece que essa história comporta também páginas dolorosas. As pedras continuarão existindo atrás da cobertura, ao menos por enquanto, mas deixarão de ocupar o primeiro plano. Para um santuário cuja missão é recordar que Deus se aproxima dos pequenos e dos feridos, talvez este gesto seja uma expressão concreta da proximidade da Igreja para com os seus filhos que sofreram a tragédia do abuso, e uma recordação de que a reputação de ninguém pode estar acima do sofrimento das pessoas.

Por Rafael Ribeiro

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