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E vós, quem dizeis que Eu sou?

A todo momento, somos cercados por dúvidas e decisões. Em determinadas ocasiões, tais escolhas recaem sobre matérias irrelevantes; porém, quando uma escolha puder prejudicar o restante de nossa vida presente e, inclusive, nossa vida futura, o que fazer?

Jesus entrega as chaves a São Pedro - Paróquia São Patrício, Boston (Estados Unidos) Foto: Gustavo Kralj

Jesus entrega as chaves a São Pedro – Paróquia São Patrício, Boston (Estados Unidos) Foto: Gustavo Kralj

Redação (22/08/2026 16:27, Gaudium Press) Desde o nascer do sol até o seu ocaso, os homens estão imersos em um mar de decisões, opiniões e incertezas, no qual se veem obrigados a escolher o que deverão fazer. Em algumas ocasiões, tais escolhas recaem sobre matérias irrelevantes; porém, em outros momentos, uma opção errada poderá prejudicar todo um relacionamento social, familiar, ou, o que é ainda mais grave, a nossa relação com o próprio Deus. É exatamente isto que a liturgia desse 21º Domingo do Tempo Comum nos ensina: onde alicerçar nossa opinião e nossas decisões.

A evidência posta à prova

O Evangelho de hoje insere-se em um contexto de singular esplendor, pois Nosso Senhor já havia multiplicado os pães, caminhado sobre as águas e acalmado o mar com a força de sua palavra. Mas não se limitara a isso: os endemoniados eram libertados, enquanto inumeráveis enfermos, uma vez curados, rendiam graças a Deus – mesmo aqueles que apenas logravam tocar a orla de seu manto. Em suma, o Salvador havia operado muitos milagres e portentos.

Assim, as multidões acorriam a Nosso Senhor para escutar sua sabedoria ou se verem livres de algum mal. Contudo, uma das maravilhas mais importantes para a Igreja Católica ainda se encontrava por realizar: a formação dos Apóstolos.

Esta condição indispensável à perpetuidade da Igreja não se operaria de maneira instantânea, mas progressiva. A doutrina nova trazida por Nosso Senhor não foi ministrada em um único lance, mas acompanhou o ritmo dos passos dos discípulos, fornecendo o alimento espiritual mais substancioso na medida em que o pudessem assimilar.

Os apóstolos já tinham recebido provas suficientes para crerem na divindade do Verbo Encarnado, todavia, a fim de não os deixarem serem arrastados pelo povo, surgiu dos lábios divinos uma pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13).

Nosso Senhor utilizou a expressão “quem dizem os homens”, ou seja, a opinião pública em geral, e não “quem dizem os fariseus e escribas”, pois, além de saber que não haveria boa consideração por parte destes, Ele desejava que os apóstolos superassem a consideração do comum dos homens. Tampouco perguntou “de Mim”, mas do “Filho do Homem”, porque o povo tinha uma opinião sobre o Filho do Homem, e não a respeito d’Ele, que é Deus.

À luz da divina pedagogia, os apóstolos poderiam se sentir fortemente atraídos pela opinião do povo acerca da grandeza dos milagres operados por Nosso Senhor, esquecendo, por sua vez, que este grande homem não é somente extraordinário, mas infinito. Infinito em sua sabedoria, em sua bondade, em seu poder, mas tudo isto em função de sua essência divina.

Aquilo que deveria constituir certeza para quem tanto conviveu com Nosso Senhor, é, assim, posto em dúvida.

Em certas ocasiões, as dúvidas, as incertezas e as inseguranças podem servir para consolidar uma firme convicção interior, ou para abalar e lançar por terra os edifícios carcomidos pela ferrugem do relativismo.

“Tu és o Filho de Deus!”

É altamente provável que, entre os discípulos de Nosso Senhor, existissem pessoas em cujo interior o joio do farisaísmo crescia. Estes, consideravam do seguinte modo tudo quanto Nosso Senhor fazia: “algo muito belo, grande e impressionante, à semelhança das obras operadas por Elias, por João Batista ou pelos profetas (cf. Mt 16,14). Mas, do mesmo modo que eles passaram, este outro Filho do Homem também passará, a ponto de eu não ter mais nenhuma relação com Ele. Se necessitar de algo recorro a Ele e, depois de curado, levo a minha vida como sempre”.

Desse modo, Nosso Senhor visava reafirmar nos apóstolos o motivo pelo qual realmente O seguiam, ou seja, não por realizar milagres, mas pelo fato de Ele ser Deus, merecendo todo o amor e devoção.

Para tal fim, renovou a pergunta com um matiz diferente: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Como que dizendo: “Esta era a opinião daqueles que Me conhecem somente como Filho do Homem, e vós, quem dizeis que Eu sou de fato?”

São Pedro, que não se deixava arrastar pela opinião dos outros, declarou: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Cabe-nos interrogar: não deveria esta afirmação ter despertado nos corações tíbios um monstro adormecido? Talvez um monstro de igualitarismo, de liberalismo ou de inveja, que, a partir desse momento, não descansaria senão no travesseiro pesado do crime, aos pés do Calvário.

E, dentro de uma gama de variações, quantas outras opiniões poderiam ter surgido? Provavelmente em número pouco inferior ao dos ouvintes. Contudo, a afirmação do futuro Papa foi revelada pelo “meu Pai que está no céu” (Mt 16,17). E, como prêmio do amor, o Pastor Eterno fundou a Igreja Católica sobre a rocha de Pedro (cf. Mt 16,18).

Uma pergunta eterna

De igual modo, poderíamos repetir, em nossos dias, a pergunta do Divino Mestre: “Quem dizes que Eu sou?”.

Talvez, após ler este artigo, poderíamos responder em um ímpeto fugaz com as palavras de São Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.

Contudo, será que não tenho interiormente a semente da dúvida semeada pelo mundo, pelo demônio ou pela carne? Será que recorro a Nosso Senhor mais para receber milagres do que para Lhe dar o meu amor? Ou será que sequer prefiro escutar tal pergunta para não ser cobrado pela resposta? Oxalá não sejamos fariseus, que, desde então, procuraram silenciar na consciência a voz doce do Divino Mestre chamando para mais alto.

Assim, uma interrogação formulada há dois milênios por Nosso Senhor continuará a ecoar para sempre nos corações abertos às inspirações do Pai, ou nos recônditos espíritos que tremem ante as dúvidas do mundo.

Por Lucas Cremasco

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