Quem vencerá: o modernismo ou o Papa?
A São Pio X coube analisar, esquematizar e anatematizar o modernismo que, como um germe oculto, infiltrava-se no rebanho de Cristo.

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Redação (21/08/2026 09:27, Gaudium Press) Comemoramos hoje, 21 de agosto, a memória de um Papa que levou às últimas consequências o ofício de pastor, isto é, que tomou o cajado e com ele travou combate contra os lobos que assolavam a Igreja por dentro. Falamos, é claro, de São Pio X.
O “compêndio de todas as heresias”
A luta contra o modernismo não representou um ataque a mais, nem uma heresia como as precedentes, e sim o “compêndio mais substancial de todas as heresias”.[1]
Atacar diretamente a fé católica, os fundamentos da moral e a hierarquia da Igreja não parecia ser o objetivo dos modernistas. Sua estratégia era diferente: por meio de linguagem ambígua e vaga, em matérias que exigem definições precisas e claras, os adversários da verdade tentavam os seus avanços. E assim inculcavam nas mentalidades “semidefinidas” os piores erros.
Não se tratava de rejeitar os dogmas, mas de adaptá-los (ou deformá-los, se necessário) para que estivessem de acordo com os novos tempos. “Não queremos — afirmavam — nos separar da Igreja, mas fazer a nossa. Não deixamos de assistir à missa, mas o fazemos do nosso modo. A nossa realidade é a perpétua transformação”.[2]
Paulatinamente, esta heresia foi permeando o plano intelectual e, de tal forma, começou a ressoar na ordem cultural, social e política que, sob o rótulo das melhores intenções, o veneno modernista se espalhava como uma solução cômoda para longos tempos de ceticismo.
Assim nasceu o modernismo, com o intuito de ajustar a religião católica ao seu próprio “dogma” e modo de vida, que são sempre mutáveis. Quiçá teriam conseguido se um Papa não se lhes opusesse.
Um Papa contra o mundo inteiro
Até que ponto um Papa firme, resoluto e corajoso pode chegar a mudar o mundo?
Abundantes respostas nos são transmitidas pela História: São Leão Magno, pela Fé, expulsou Átila e suas tropas de Roma; São Gregório Magno, pela força da oração, extinguiu a peste da Cidade Eterna; São Gregório VII, por sua intransigência, dobrou os joelhos do Imperador Henrique IV; São Pio V, por uma graça de Deus, alcançou a definitiva vitória católica de Lepanto.
Com efeito, Nosso Senhor sustentou e confirmou o Seu Pontífice para defender o redil da Igreja contra os lobos; do mesmo modo, suscitou na alma de São Pio X a força para enfrentar e desbaratar a heresia de seu tempo. Luta, por muitos aspectos, mais difícil do que enfrentar um exército armado, pois como estorvar um inimigo que se alastra sorrateiramente como um lodo imundo? Como combater à espada um inimigo que se esconde? Como discutir com alguém que não tem voz?
Apenas de um modo: desmascarando-o!
Desmascarar o erro foi a atitude enérgica que tomou o Sumo Pontífice frente ao seu “inimigo invisível”, dando início a uma luta na qual um homem enfrentava o mundo inteiro.
Mas, como este homem era São Pio X, a luta estava equilibrada.
A vítima agonizante não morre
Como as nuvens dardejam seus raios sobre a terra, São Pio X abre a luta com um dos golpes mais fortes contra o modernismo: a encíclica Pascendi Dominici Gregis, com a qual o Papa denuncia o processo paganizante em que a humanidade se encontra inserida e, sobretudo, o fim desejado pelos fautores desse processo: a destruição da Igreja.
Exibindo toda a doutrina em um só quadro e denunciando que seus adeptos, embora disseminados pelo mundo, formam um só corpo, o Pontífice logra impedir os efeitos perniciosos que a relativização dos dogmas, a instrumentalização da fé, e o desprezo da tradição visavam alcançar.
A este documento sucedem-se vários outros, com o mesmo cunho e escopo: desvelar o sorrateiro envenenamento do pasto das ovelhas de Cristo.
Passada a efervescência do primeiro momento, os modernistas “perdem a maior parte de suas vantagens, pois todos os católicos de boa-fé se negam a aceitar o jogo”.[3] Débil e sem o alento das publicações, o modernismo está coagido ao desaparecimento definitivo, ou, ao menos, por algum tempo…
Temendo que a heresia modernista, já agonizante, pudesse ressurgir, São Pio X fez o que pôde para firmar o seu legado. Assim, decretou como obrigatório um “juramento antimodernista” para todos os católicos que exercessem algum cargo de realce. Estes, prometendo sobre os Santos Evangelhos ser contra a corrente revolucionária, ou eram realmente fiéis à Igreja, ou incorriam em perjúrio.
A vítima agonizante se disfarçou de morta, à semelhança de certos animais que, figurando-se inanimados, afastam o predador. A heresia estava disposta a permanecer inerte o tempo que fosse necessário, até se apresentar o momento propício para ressurgir.
“Instaurare omnia in Christo”
Perante São Pio X, nenhum erro encontrou ar suficiente para sobreviver: “Quem sabe se, frente a um Papa da têmpera de São Pio X, Lutero e Calvino teriam arrancado de Roma um terço da Europa cristã?”[4]
Seu lema de pontificado ilustra bem o ideal de sua vida: “Instaurare omnia in Christo”.[5] De fato, enquanto os modernistas se afastavam da verdade ao bafejo da revolução, ele restaurava, reconduzia e reavivava tudo em Cristo.
A São Pio X coube analisar, esquematizar e anatematizar os erros de sua época que, como germes ocultos, se infiltravam no rebanho de Cristo. Trabalho pleno de zelo que o consumiu até o conduzir à Eternidade.
Assim, enquanto o relógio marcava uma hora e quinze minutos da madrugada do dia 20 de agosto de 1914, o Santo Sucessor de Pedro deixava esta terra para, no Céu, interceder pela Igreja Militante.
Por Lucas Cremasco
[1] JAVIERRE, José Maria. Pio X. Trad. José Ervedosa. Lisboa: Aster, 1959, p. 284.
[2] Ibid., p. 285.
[3] Ibid., p. 290.
[4] Ibid., p. 286.
[5] Do latim: “Renovar todas as coisas em Cristo”.





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