México: diante de 15 mil fiéis, Núncio Apostólico celebra o centenário do martírio de quatro Cristeros
Em 15 de agosto de 1926, na festa da Assunção da Virgem Maria, foi executado o primeiro sacerdote sob a repressiva Lei Calles, juntamente com um pai de família e dois jovens mineradores que ofereceram suas vidas, declarando: “Deus não morre!”

Foto: Arquidiócesis de Durango/ Facebook
Redação (19/08/2026 09:37, Gaudium Press) Em 15 de agosto passado, cerca de 15 mil peregrinos se reuniram nos Lugares Santos de Chalchihuites, no estado mexicano de Zacatecas, para celebrar o centenário do martírio de quatro santos vinculados à Arquidiocese de Durango. A solene Eucaristia, que encerrou o Ano Jubilar dedicado a essa memória, foi presidida pelo núncio apostólico no México, Dom Joseph Spiteri, representante da Santa Sé.
A celebração marcou o ponto alto de uma peregrinação arquidiocesana de oito dias, que percorreu os caminhos onde, exatamente um século antes, os quatro fiéis deram a vida pela fé. O local, conhecido como Puerto de Santa Teresa, transformou-se ao longo das décadas em espaço de devoção e memória viva da Igreja no México.
O contexto da perseguição religiosa
Os acontecimentos de 15 de agosto de 1926 ocorreram no início de um dos períodos mais dramáticos da história da Igreja no país: a intensificação da perseguição religiosa sob o governo de Plutarco Elías Calles. A chamada “Lei Calles”, publicada em julho daquele ano, impôs severas restrições ao culto católico, limitando o número de sacerdotes, proibindo a educação religiosa e submetendo a Igreja a um rigoroso controle estatal.
O episcopado mexicano, com a aprovação de Roma, teve de suspender o culto público em todo o território nacional a partir de 31 de julho de 1926. Poucos dias depois, a repressão se abateu sobre comunidades inteiras. Foi nesse clima de tensão e violência que o Padre Luís Bátis Sáinz e três leigos próximos a ele foram detidos e executados.
Os quatro mártires
São Luís Bátis Sáinz, pároco de San Pedro de Chalchihuites, destacava-se pelo trabalho com a juventude e pela promoção do apostolado. Ordenado em 1894, havia chegado à paróquia pouco antes da crise e dedicava-se à formação de jovens e operários. Foi um dos primeiros sacerdotes executados após a entrada em vigor das medidas repressivas.
São Manuel Morales, esposo e pai de três filhos pequenos, era dirigente da Ação Católica da Juventude Mexicana (ACJM) e presidente local da Liga Nacional Defensora da Liberdade Religiosa. Quando o Pe. Bátis intercedeu junto aos soldados pedindo que poupassem a vida de Morales por causa da família, o leigo respondeu com palavras que se tornaram símbolo de sua fé: “Senhor padre, eu morro, mas Deus não morre. Ele cuidará de minha esposa e de meus filhos”.
São Salvador Lara Puente, de 21 anos, e São David Roldán Lara, seu primo de 19 anos, eram trabalhadores de minas e fiéis ativos do apostolado paroquial. Ambos enfrentaram a execução com serenidade, proclamando a fé até o último momento. Junto com o padre e Morales, gritaram “¡Viva Cristo Rey y la Virgen de Guadalupe!” antes de serem fuzilados.
Os quatro foram beatificados por São João Paulo II em 1992 e canonizados pelo mesmo pontífice em 21 de maio de 2000, integrando o grupo dos mártires mexicanos que inclui São Cristóbal Magallanes e companheiros.
A mensagem do núncio e a relevância atual
Na homilia da missa centenária, Dom Joseph Spiteri recordou que os mártires “ofereceram a vida professando livre e pacificamente sua fé no Deus da vida e na Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo”. O representante pontifício destacou que eles foram vítimas de uma ideologia que negava a liberdade de pensamento e de consciência e buscava impor-se pela violência. Diante da repressão, os mártires testemunharam que a verdadeira liberdade consiste em escolher conscientemente o bem, e não o mal.
Horas antes, ao chegar a Durango, o núncio havia sublinhado que esses santos “foram injustamente condenados e executados” e se tornaram modelos permanentes da defesa da liberdade de consciência.
No local do martírio, existe hoje um santuário jubilar dedicado a esses heróis da fé e também a São Mateus Correa Magallanes, sacerdote martirizado em Durango em 1927. A construção e a consolidação desse espaço sagrado têm acompanhado as celebrações do centenário, reforçando a memória e a devoção dos fiéis.
O testemunho dos mártires de Chalchihuites continua a ecoar no México e além de suas fronteiras. Em um tempo em que a liberdade religiosa ainda enfrenta desafios em diversas partes do mundo, a memória desses quatro homens — um sacerdote, um pai de família e dois jovens trabalhadores — recorda que a fidelidade à fé pode ser vivida em qualquer estado de vida.





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