Dom Mutsaerts: uma paróquia com pároco santo tem mais futuro do que diocese com 20 grupos sinodais
A carta aberta do Bispo Mutsaerts coloca no centro uma questão antiga e sempre atual: a missão da Igreja é, antes de tudo, conduzir as almas a Cristo. Para o bispo holandês, a clareza na proclamação do Evangelho e a busca da santidade continuam sendo o caminho mais eficaz — muito mais do que a perpetuação de processos e estruturas.

Rob Mutsaerts Bispo Auxiliar da Diocese de ’s-Hertogenbosch Foto: rede social X
Redação (17/08/2026 15:34, Gaudium Press) O bispo auxiliar de ’s-Hertogenbosch, nos Países Baixos, Dom Rob Mutsaerts, publicou, em 13 de agosto passado, uma longa carta aberta dirigida ao Papa Leão XIV. No texto, questiona os frutos concretos do processo sinodal e pede que a Igreja retome como prioridade absoluta a evangelização e a proclamação clara do Evangelho. A carta, divulgada no site pessoal do prelado, é uma das críticas episcopais mais detalhadas e articuladas ao modelo de sinodalidade impulsionado nos últimos anos.
Mutsaerts fundamenta toda a argumentação no princípio canônico clássico salus animarum suprema lex — a salvação das almas é a lei suprema. Sua pergunta central é direta: o processo sinodal está realmente ajudando a aproximar as almas de Cristo e de sua salvação eterna? O bispo enfatiza que não age por falta de respeito ao ministério petrino, mas por amor a ele e à Igreja.
Perguntas incômodas sobre os frutos
O núcleo da carta é uma série de perguntas objetivas. “Boas intenções devem ser reconhecidas. Mas não nos eximem da obrigação de avaliar seus frutos. O próprio Cristo nos forneceu um critério muito simples: ‘por seus frutos você os conhecerá’. Por esta razão, estou convencido de que, após anos de consultas sinodais, reuniões, relatórios e documentos, chegou a hora de perguntar com total franqueza quais são esses frutos”, destacou o prelado.
“Tem se falado em comunhão, participação e missão. Até já nasceu um novo vocabulário eclesial: sinodalidade, escuta, discernimento, participação, conversação no Espírito o’, iniciar processos’”, afirma Mutsaerts e, em seguida, pergunta se a fé foi fortalecida, se Cristo foi proclamado com maior clareza, se a identidade católica se aprofundou, se aumentaram as conversões, a frequência à Missa, as vocações sacerdotais, a reverência eucarística, se a doutrina moral da Igreja ficou mais clara e se a coragem dos missionários aumentou? Quando se coloca o foco nesses critérios, conclui, torna-se impossível considerar o Sínodo um sucesso.
Ele observa ainda que o processo não terminou. O que começou como o Sínodo sobre a Sinodalidade (2021-2024) segue em fase de implementação, com encontros diocesanos, nacionais e continentais, e deve culminar em uma Assembleia Eclesial em Roma em outubro de 2028. O risco, segundo o bispo, é que o que nasceu como um sínodo se transforme em uma forma permanente de governo eclesial.
Quando o meio se torna fim
Mutsaerts distingue o sínodo clássico — instrumento para enfrentar problemas concretos, como se fazia desde a Antiguidade — da sinodalidade transformada em paradigma permanente. Compara a situação a uma reunião que se reúne sem fim apenas para discutir como se deve reunir no futuro. No discurso atual, a sinodalidade ameaça tornar-se um fim em si mesma, o que, sob a ótica da tradição católica, representa um problema.
A Igreja, insiste, não nasce do diálogo humano. Cristo não fundou um fórum para debate: chamou apóstolos, deu-lhes autoridade e os enviou a pregar, batizar e ensinar. A fé é recebida, transmitida e custodiada, não produzida por consenso. O Cristianismo não pode ser democrático. Mesmo que a maioria dos católicos deixasse de crer na presença real de Cristo na Eucaristia ou rejeitasse determinada doutrina moral, a verdade não mudaria. A verdade não se fabrica por votação ou consenso.
Sobre o “ouvir”, Mutsaerts alerta para a inversão de prioridades. O bispo e o padre devem escutar, mas a quem a Igreja deve ouvir em primeiro lugar? A Cristo, às Escrituras, à Tradição apostólica, aos santos, ao testemunho de vinte séculos e ao Magistério — e, naturalmente, também aos fiéis.
Em alguns textos sinodais, porém, a ordem se inverte. Parte-se das experiências e desejos do homem contemporâneo para só depois perguntar como a Igreja deve reagir. Quando esses desejos colidem com o Evangelho, não é o Evangelho que deve mudar, mas o homem. Isso se chama conversão — palavra que, segundo o bispo, aparece pouco em muitas discussões eclesiais atuais.
O bispo sublinhou que “a Igreja dos Mártires não transformou o mundo romano organizando reuniões para ouvir, como se os romanos fossem capazes de entender a comunidade cristã de uma forma mais inclusiva”. Os apóstolos, os santos e papas anunciaram Cristo, pois “o alvo era a conversão a Cristo”.
A casa em chamas e as prioridades
Mutsaerts aponta o contraste entre a crise real da Igreja no Ocidente — igrejas que se esvaziam, paróquias que se fundem, mosteiros que desaparecem, ordens religiosas que envelhecem, conhecimento da fé que diminui, a confissão praticamente desapareceu para muitos católicos, vida sacramental enfraquecida — e a atenção concentrada em estruturas, participação, processos decisórios, papel das mulheres, inclusividade e as relações de autoridade e à forma de gestão dos órgãos eclesiásticos. Temas legítimos, reconhece, mas secundários diante de uma “casa em chamas”. Ele formula o que chama de “lei de Parkinson eclesiástica”: quanto menos evangelização, mais comissões sobre evangelização; quanto menos vocações, mais documentos sobre vocações; quanto menos gente na igreja, mais longas as reuniões sobre o “ser eclesial”.
Outro problema identificado é o estímulo a expectativas sobre questões em que a Igreja tem doutrina definida (diaconato feminino, sacerdócio, moral sexual, relações homossexuais, descentralização). Discuti-las durante anos gera a impressão de que podem ser alteradas. O resultado é um “paradoxo pastoral”: pede-se que as pessoas expressem desejos que depois não podem ser atendidos sem romper a continuidade doutrinal, gerando frustração em vez de ganho pastoral.
A alternativa da santidade
Diante desse quadro, Mutsaerts propõe recuperar o que historicamente impulsionou as grandes reformas católicas: a santidade. Com efeito, “um santo possui um poder missionário que nenhum documento de política pode igualar”. Ele enumera figuras como São Bento, São Francisco, São Domingos, Santa Catarina de Sena, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Ávila, São João Bosco, Santa Teresinha, São Maximiliano Kolbe e São João Paulo II. “Uma paróquia com um pároco santo tem mais futuro do que uma diocese com vinte grupos de trabalho sobre sinodalidade. Um convento com dez religiosos fervorosos evangeliza mais do que cem páginas de jargão eclesiástico. Um sacerdote que acredita visivelmente que está diante de Deus no altar pode conduzir mais pessoas à fé do que uma conferência sobre liturgia participativa”, escreveu.
Sua proposta é simples: não menos escuta, mas mais santidade; não menos participação, mas mais conversão; não menos diálogo, mas mais proclamação.
“Quando os católicos mal compreendem que a Missa é o sacrifício sacramental presente de Cristo; quando o sentido do sagrado enfraquece; quando o silêncio desaparece; quando os confessionários ficam vazios e a adoração eucarística se torna marginal, então a Igreja não tem um problema de governo. Tem um problema de fé. Uma nova estrutura de participação não pode resolver isso. Nem uma nova assembleia. Uma redescoberta de Deus, talvez o possa”.
O prelado ressalta que “as pessoas que participam intensamente nos processos de consulta eclesial não são necessariamente representativas de toda a Igreja. O católico silencioso que vai à Missa todas as manhãs, reza o terço e dá catequese aos netos normalmente não escreve um relatório sinodal. O jovem católico que viaja três horas para assistir a uma liturgia tradicional normalmente não se senta no grupo de trabalho diocesano. A mãe de seis filhos que tenta educar a família como católica pode ter pouco tempo para sessões de escuta. Uma irmã contemplativa não preenche um inquérito. Mas a sua fé pode estar mais profundamente enraizada do que a dos participantes profissionais em assembleias eclesiais”.
A discussão não é realmente sobre reunir-se, mas o que é a Igreja? O bispo explica que “a Igreja deve converter-se continuamente, mas está edificada sobre os apóstolos. Preserva uma fé que não inventou ela própria. Por isso, toda a sinodalidade deve, em última análise, ser limitada por algo que não está aberto à discussão sinodal: a verdade que Cristo revelou”. Por isso, “o mundo não espera por mais uma organização que o escute. Já há bastantes dessas. O mundo espera por alguém que lhe diga para que foi criado”.
A carta termina com uma releitura do episódio dos discípulos de Emaús. Cristo caminha com eles, escuta e deixa que falem — até aí, qualquer manual sinodal aprovaria. Mas o decisivo é que Ele corrige a interpretação deles, explica as Escrituras e se faz reconhecer na fração do pão. Os discípulos não ficam avaliando a experiência: levantam-se, voltam a Jerusalém e proclamam. O processo sinodal, segundo Mutsaerts, parece ter ficado preso em Emaús. A questão é se sairá de lá.
Em última análise, Rob Mutsaerts afirma que “a Igreja Católica não precisa de um sínodo permanente sobre si mesma. Precisa de santos. Bispos que ensinem. Sacerdotes que rezem. Religiosos que vivam radicalmente para Deus. Pais que transmitam a fé. Jovens que descubram que a verdade é mais do que uma opinião. Liturgia em que Deus está verdadeiramente no centro. Confissões onde os pecadores encontram perdão. Seminários onde se formam homens dispostos a dar a vida a Cristo. Católicos que não perguntam constantemente como a Igreja deve adaptar-se ao mundo, mas que têm a coragem de convidar o mundo a ser transformado por Cristo”.
Ele solicita ao Papa: “Dê-nos clareza. Quando o mundo fala com incerteza, que Pedro fale com clareza. Quando a Igreja se cansa das discussões internas, aponte-nos novamente a Cristo”. E recorda as palavras do próprio Pedro: “Senhor, a quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna”.
A carta de Mutsaerts se soma a críticas anteriores de outros prelados, como o bispo Joseph Strickland, o bispo auxiliar Athanasius Schneider e o bispo auxiliar emérito Marian Eleganti. O próprio Mutsaerts já havia se mostrado crítico a aspectos de processos sinodais anteriores. Gerard de Korte, bispo ordinário de ’s-Hertogenbosch, reagiu publicamente criticando não o conteúdo, mas a forma: argumentou que o auxiliar deveria ter canalizado as preocupações de maneira privada, pelos canais internos disponíveis, e não por carta aberta.





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