A sombra de Trump sobre a viagem de Leão XIV
Leão XIV não viajará como líder da oposição a Trump, mas como pastor da Igreja universal.
Foto: Vatican News/ Vatican Media
Redação (16/08/2026 11:49, Gaudium Press) Em seu artigo Figure of Trump likely to loom over pope’s trip to Latin America (Figura de Trump provavelmente pairará sobre a viagem do papa à América Latina), publicado no site Crux, o jornalista Charles Collins parte de uma percepção razoável: a viagem de Leão XIV à América Latina dificilmente será noticiada apenas por sua dimensão religiosa. O Papa visitará Uruguai, Argentina e Peru poucos dias depois das eleições legislativas norte-americanas, em um continente marcado por mudanças políticas e por governos que mantêm relações muito distintas com Donald Trump.
A tese do artigo, porém, diz menos respeito à viagem em si do que à maneira pela qual ela será apresentada ao público. Segundo Collins, Trump poderá ocupar o centro da narrativa mesmo sem estar presente. Qualquer palavra de Leão XIV sobre imigração, paz, corrupção ou Estado de Direito corre o risco de ser imediatamente interpretada como resposta ao presidente norte-americano.
Nisso Collins tem razão. Trump possui uma habilidade incomum para transformar acontecimentos alheios em capítulos de sua própria história. Além disso, sendo Leão XIV o primeiro Papa nascido nos Estados Unidos, será inevitável que parte da imprensa compare seus ensinamentos às políticas da Casa Branca.
O próprio Pontífice, contudo, já ofereceu uma chave mais adequada para compreender sua identidade. Leão XIV declarou que se considera um Papa para todos que “por acaso é americano”. Sua decisão de visitar a América Latina antes dos Estados Unidos não precisa, portanto, ser interpretada como afronta a Trump. Ela pode ser explicada por razões pastorais muito mais evidentes.
O Peru ocupa um lugar central na vida do Papa, que ali trabalhou como missionário e foi bispo de Chiclayo. A Argentina é a pátria de Francisco, que não regressou ao país durante seu pontificado. O Uruguai, por sua vez, representa o encontro com uma sociedade fortemente secularizada. Há matéria católica suficiente nessa viagem sem que seja necessário colocar um boné eleitoral em cada discurso pontifício.
O problema do artigo de Collins é que ele corre o risco de reproduzir o fenômeno que pretende denunciar. Ao afirmar que a figura de Trump pairará sobre a viagem do Papa, o jornalista acaba colocando o presidente norte-americano no centro de um acontecimento cujo protagonista deveria ser o sucessor de Pedro e cuja finalidade será essencialmente apostólica.
O texto examina demoradamente o alinhamento de Javier Milei e Keiko Fujimori com Trump, a guinada à direita de diversos governos latino-americanos e o fortalecimento da influência dos Estados Unidos na região. Dedica, entretanto, pouca atenção aos desafios propriamente religiosos do continente: a secularização, a redução relativa da presença católica, o crescimento das comunidades evangélicas, a crise de vocações, a pobreza, as migrações, a evangelização dos povos indígenas e a polarização existente dentro da própria Igreja.
Collins compreende perfeitamente o mecanismo pelo qual cada gesto pontifício poderá ser transformado em mais um episódio da disputa política norte-americana, mas diz pouco sobre o que a presença do Papa poderá representar para os católicos latino-americanos.
Também seria um erro apresentar Leão XIV como uma espécie de “anti-Trump” revestido de branco. Quando o Papa fala da dignidade dos migrantes, da paz ou dos limites morais do poder, não está necessariamente formulando uma plataforma partidária; está aplicando princípios permanentes da moral cristã.
Nenhuma corrente política, seja de direita ou de esquerda, possui o monopólio da doutrina católica. Um Papa pode condenar o tratamento desumano dos imigrantes e reconhecer o direito dos Estados de ordenar suas fronteiras. Pode defender a paz sem negar a legítima defesa. Pode denunciar a pobreza sem aderir ao socialismo e defender a vida e a família sem transformar a Igreja numa repartição religiosa de algum partido conservador.
A verdadeira pergunta, portanto, não é se Leão XIV apoiará ou enfrentará Trump, Milei ou Fujimori. A questão propriamente católica é saber como ele anunciará Cristo, confirmará os fiéis na fé e responderá aos graves desafios espirituais da América Latina.
Collins oferece uma advertência pertinente: a viagem poderá ser capturada pela polarização norte-americana. Trump talvez paire sobre a cobertura jornalística, sobretudo se resolver comentá-la nas redes sociais. Não deveria, contudo, pairar sobre a compreensão católica do acontecimento.
Leão XIV não viajará como líder da oposição a Trump, mas como pastor da Igreja universal. Caberá à imprensa católica recordar essa diferença e resistir à tentação de transformar cada homilia numa mensagem cifrada para a Casa Branca. Afinal, nem tudo no mundo gira em torno de Donald Trump (e seria bom avisá-lo).
Por Rafael Ribeiro





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