Tantos amigos, nenhum verdadeiro
Conversamos com pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância, às vezes do outro lado do globo, mas não sabemos o nome do nosso vizinho.

Foto: magnific.com
Redação (15/08/2026 09:00, Gaudium Press) Sabemos de tudo e, ao mesmo tempo, não sabemos de nada. Fotografamos tudo com nossas lentes digitais, mas não vemos foto alguma da realidade ao nosso redor. Temos acesso instantâneo aos mais variados assuntos, debatemos o mundo inteiro, mas não formamos opinião genuína sobre quase nada. Visitamos todos os países pelas telas dos nossos celulares e, no entanto, sequer conhecemos a nossa própria rua; não sabemos quem mora no nosso prédio, não conhecemos o rosto de quem cruza o nosso caminho todos os dias.
Conversamos cotidianamente com pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância, às vezes do outro lado do globo. Consideramos essas presenças virtuais como nossos grandes amigos — criaturas que nunca vimos, de quem nunca sentimos o calor da presença ou a força de um abraço real. E, no entanto, descemos no mesmo elevador com o vizinho que mora no andar de cima, no andar de baixo, ou porta com porta. Dele nada sabemos e para ele nem olhamos.
Os mais velhos ainda arriscam um bom dia; os mais novos nem sequer a isso respondem. Entram nos elevadores fixados em suas telas, ignorando quem está presente. Já não conseguimos estar juntos. Somos, paradoxalmente, os seres mais solitários da história da humanidade. Conseguimos nos conectar com milhões de desconhecidos na rede, mas falhamos em nos conectar com a mãe que prepara o jantar, com o pai que provê o sustento, com os irmãos e parentes sob o mesmo teto.
A comunicação vazia
Tudo se resume, hoje, a uma comunicação superficial — aquela troca mecânica de palavras em que duas pessoas repetem expressões vazias, sem o menor interesse real uma pelo outra. É o clássico: “Olá, como vai?”, “Eu vou indo e você, tudo bem?”, “Tudo bem, eu vou indo”, como registrado em uma antiga canção.
Chegamos ao trabalho ou a um evento social e disparamos um “Tudo bem?” automático. A pessoa responde com outro “Tudo bem!” protocolar. Nem quem perguntou está bem, nem quem respondeu está bem, e nenhum dos dois se importa minimamente com a resposta. É a máscara social substituindo o encontro de almas.
Pessoas anseiam ser ouvidas, mas não estão dispostas a ouvir e, muito menos, a se responsabilizar pelo cultivo de uma amizade real. E assim, vamos passando pela vida uns dos outros sem tempo para parar e prestar a necessária atenção.
A calçada limpa do Sr. Sebastião
Em contraste com essa frieza, lembro-me de um senhor de seus 65 anos que morava em uma rua próxima à casa onde vivi por muitos anos. A sua casa tinha uma grade baixa e ele estava sempre ali, encostado ou sentado na varanda, pela manhã e pela tarde. Seu nome era Sebastião.
Quem passava ouvia seu cumprimento amável. Percebia-se o capricho na limpeza da varanda, do quintal e da calçada que ele varria religiosamente todas as manhãs — talvez a mais limpa da rua. Seu Sebastião era um homem extremamente asseado, vestido com simplicidade, mas sempre arrumado.
Um dia, ele adotou uma cachorra preta que apareceu na rua e lhe deu o nome — pouco original, mas cheio de afeto — de Pretinha. A partir dali, a Pretinha virou o eixo das suas conversas mais longas com os vizinhos. Contava que ela gostava de frango cozido com arroz, que tolerava a ração e apreciava pão, embora uma vizinha tivesse dito que que pão faz mal aos cães, e tentaria dar fígado, tido como muito nutritivo.
Até que, um dia, com o portão aberto, a Pretinha fugiu e desapareceu. Foi uma tristeza profunda. A vizinhança se mobilizou até que uma jovem publicou na internet a foto do animal. A verdadeira dona apareceu, provou que a cachorrinha era sua e revelou que ela estava perdida havia mais de um ano. Pretinha havia encontrado refúgio na casa do seu Sebastião, mas um dia voltou para o seu verdadeiro lar.
A tutora permitiu que ele a visitasse, mas a dor de ver a cachorrinha com outro nome e impossibilitada de voltar para casa foi tão avassaladora que o seu Sebastião preferiu nunca mais ir vê-la. Com o tempo, as conversas cessaram e o trato voltou a ser o truncado “Tudo bem? Tudo bem”.
O despencar na sombra
O tempo passou. Anos mais tarde, encontrei um homem no mercado que me perguntou se eu morava em tal rua e se conhecia seu irmão — o seu Sebastião. Respondi que sim, embora já não morasse mais lá. Com pesar, ele revelou: “É lamentável. Ele se envolveu com coisa ruim, está acolhendo moradores de rua, mexendo com o que não presta e até bebendo corote”.
Causou-me espanto. Aquele homem tão asseado, reservado e digno teria decaído assim? Pouco depois, passei em frente à casa dele e flagrei o triste desfecho: seu Sebastião remexia uma montanha de lixo acumulada na calçada pelos vizinhos.
Ao ver-me, levantou-se constrangido. Aproximei-me, toquei seu ombro e o conduzi para a calçada limpa. Ele estava irreconhecível: roupas encardidas, exalando mau cheiro, com o rosto marcado pela fuligem e as unhas pretas.
Tentou justificar-se dizendo que jogara algo fora por engano e estava procurando no lixo antes de o caminhão da coleta passar, mas era o triste retrato de quem buscava nos detritos o sustento para o vício ou objetos para vender nos ferros-velhos clandestinos.
Olhei para a varanda: a poeira acumulada, folhas secas, penas de pássaros. Era outro homem, e outra casa. Como um ser humano chega a esse ponto? A resposta é simples e devastadora: a solidão.
Nunca ninguém convidou o seu Sebastião para um café, nunca alguém bateu à sua porta para uma visita genuína. Sobraram apenas os cumprimentos vazios, a saudade da Pretinha e as dores da alma. Faltou-lhe afeto, faltou comunidade, faltou Deus.
O Rosário na noite escura
Tirei do bolso uma caixinha com um terço que ganhara em um retiro e coloquei em suas mãos calejadas. Perguntei-lhe se acreditava em Deus. Ele respondeu que sim. Disse-lhe para confiar, rezar e pedir que Deus lhe restituísse a dignidade. Com lágrimas nos olhos, ele me disse uma frase que ecoa como um epitáfio da alma humana: “É, moço, ninguém sabe o que se passa no coração de um homem”.
Toquei seu ombro e parti, pensando em quantos “Sebastiões” existem espalhados por aí, definhando silenciosamente em casas e apartamentos, cercados por telas, mas abandonados à própria sorte. A solidão é um monstro que consome vidas. Nunca nos relacionamos tanto com o mundo exterior, e nunca estivemos tão tragicamente sós. Pobres homens! Onde iremos parar?
Por Afonso Pessoa





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