Nicarágua: regime de Ortega mostra bispo Dom Mata vivo após 40 dias desaparecido
Após mais de 40 dias de detenção e desaparecimento, o regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo finalmente mostrou vivo o bispo emérito de Estelí, Dom Juan Abelardo Mata.

Foto: Alfa y Omega
Redação (13/08/2026 14:50, Gaudium Press) O regime sandinista de Daniel Ortega e Rosario Murillo divulgou, no dia 12 de agosto, imagens e uma entrevista com o bispo emérito de Estelí, Dom Juan Abelardo Mata Guevara, de 80 anos. O religioso, que sofre de problemas de saúde e usa marcapasso, estava desaparecido há mais de um mês e meio após ser detido pela Polícia Nacional. A “prova de vida” chegou um dia depois de a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pedir à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) a ampliação de medidas provisórias de proteção para Mata e quatro pessoas de seu entorno, diante do que classificou como situação de extrema gravidade e risco de danos irreparáveis.
No vídeo, o bispo aparece sorridente, caminhando por uma propriedade rural, mostrando plantações de mamão e banana, colmeias e cavalos. Ele descreve uma “vida monacal” de oração, silêncio e trabalho intelectual. O jornalista Adolfo Pastrán — deputado sandinista e apresentador de um programa oficial do governo — afirma que Dom Mata goza de “enorme energia, enorme vitalidade e saúde”. A gravação, claramente encenada, não menciona a detenção, eventuais interrogatórios nem as semanas em que seu paradeiro era desconhecido. Também não esclarece se ele está em prisão domiciliar ou em liberdade plena. Sobre a saúde, o bispo se limita a dizer que “não há problema” com os check-ups, sem detalhar o uso do marcapasso, que havia gerado grande preocupação internacional.
Cronologia do caso
No domingo 28 de junho, durante uma missa na igreja Cruz del Calvario, em Estelí, Dom Mata pediu orações pela Igreja perseguida na Nicarágua, mencionando explicitamente o bispo Rolando Álvarez (exilado em Roma após forte perseguição) e o Pe. Frutos Constantino Valle Salmerón (sob restrições desde 2024). No dia seguinte, 29 de junho, a polícia o deteve enquanto ele estava em uma clínica particular em Estelí para revisão de rotina do marcapasso. Fontes indicam que ele foi levado ao complexo policial conhecido como “El Chipote”, em Manágua.
Houve relatos de detenção novamente em 30 de junho. O Ministério do Interior só se pronunciou em 4 de julho, afirmando que o bispo havia sido submetido a uma “indagação” sobre a origem de propriedades e vínculos familiares “que não coincidem com a condição sacerdotal” e que estava “em perfeitas condições” em sua residência em Tisma, departamento de Masaya. No entanto, familiares, pessoas próximas e a CIDH não conseguiram verificar de forma independente seu paradeiro ou estado de saúde por semanas. O governo dos Estados Unidos exigiu sua libertação “imediata e incondicional”, e organizações de direitos humanos, incluindo o Grupo de Especialistas da ONU sobre a Nicarágua, qualificaram o episódio como parte de um padrão de intimidação.
Um crítico do regime
Dom Juan Abelardo Mata Guevara foi bispo de Estelí por mais de três décadas e entregou a administração da diocese a Dom Rolando Álvarez em 2021, ao completar 75 anos. Desde 2018, durante os protestos contra o governo Ortega, ele foi uma das vozes mais firmes da Igreja Católica na denúncia da repressão. Participou da mesa de Diálogo Nacional e criticou publicamente o presidente, chamando-o de “oportunista”. Em 2018, chegou a sofrer agressões de grupos paramilitares. A CIDH já havia concedido medidas cautelares a ele e a outras pessoas em novembro de 2021, por perseguição, ameaças e vigilância constante.
A perseguição à Igreja Católica na Nicarágua se intensificou nos últimos anos: bispos e padres foram presos, desterrados, privados de nacionalidade ou colocados sob restrições severas. Organizações como a Christian Solidarity Worldwide documentaram centenas de violações à liberdade religiosa.
Contexto e reações
A reaparecimento monitorado de Mata, através de um veículo oficial do governo e sem possibilidade de verificação independente, segue um padrão conhecido do regime: mostrar presos políticos ou perseguidos em “entrevistas” cuidadosamente produzidas para tentar neutralizar a pressão internacional. A CIDH destacou que o caso se insere no padrão sistemático de perseguição a bispos, padres e leigos desde 2018 e que as medidas de proteção já existentes não foram devidamente cumpridas pelo Estado nicaraguense.
Enquanto o vídeo tenta transmitir normalidade e vitalidade, a ausência de menção à detenção, a falta de acesso de médicos e familiares de forma livre e o timing — logo após a solicitação da CIDH — reforçam as dúvidas sobre as reais condições em que se encontra o octogenário bispo. A comunidade internacional e organizações de direitos humanos continuam exigindo garantias efetivas de proteção, acesso médico adequado e o fim da perseguição religiosa na Nicarágua.





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