Cidade do México celebra 500 anos da chegada dos primeiros dominicanos
A Ordem dos Dominicanos foi a segunda a se estabelecer na Nova Espanha, depois dos franciscanos, que haviam chegado em 1524.

Foto: Dominicos Mx
Redação (11/08/2026 10:07, Gaudium Press) Com uma série de celebrações culturais, acadêmicas e litúrgicas centradas na Cidade do México entre 23 e 26 de julho, a Província Dominicana de Santiago do México comemorou o quinto centenário da chegada dos primeiros frades da Ordem dos Pregadores ao território mexicano. O marco histórico remonta a 1526, quando doze religiosos desembarcaram no porto de San Juan de Ulúa, em Veracruz, e entraram na então capital da Nova Espanha[1] no dia 25 de julho, festa do Apóstolo Santiago.
Ao longo do ano, o Instituto Dominicano de Investigação Histórica da Província coordenou um amplo programa em diversas comunidades onde a Ordem está ou esteve presente, incluindo Oaxaca, Chiapas, Querétaro, Jalisco, Estado do México, Puebla, Chihuahua, Guanajuato e Aguascalientes. As comemorações oficiais começaram formalmente em 23 de junho em Veracruz, com a recriação do desembarque de 1526 na fortaleza de San Juan de Ulúa e uma missa solene na Catedral de Nuestra Señora de la Asunción, presidida pelo bispo Carlos Briseño Arch, OAR.
Cinco séculos de missão e evangelização
Os primeiros doze frades dominicanos, liderados pelo Fr. Tomás Ortiz, partiram da Espanha em fevereiro de 1526, passaram por La Española (atual República Dominicana e Haiti) e chegaram a San Juan de Ulúa, em 23 de junho. Dois dias depois, em 25 de julho, entraram na Cidade do México. A Ordem dos Dominicanos foi a segunda a se estabelecer na Nova Espanha, depois dos franciscanos, que haviam chegado em 1524.
A missão enfrentou dificuldades iniciais. Nos primeiros meses, vários frades morreram ou retornaram à Espanha por problemas de saúde. Permaneceram apenas três: Domingo de Betanzos, Gonzalo Lucero e Vicente de las Casas, considerados os verdadeiros fundadores da presença dominicana no país. A Província de Santiago de México foi erigida de forma independente em 1532, e formalmente instalada em 1535. A partir daí, os dominicanos se expandiram para regiões estratégicas como Tepetlaoxtoc, Chimalhuacán Chalco, Cuernavaca, Oaxaca e Yanhuitlán, com forte atuação nas zonas mixteca e zapoteca.
Ao longo dos séculos, a Ordem se destacou pelo estudo das línguas locais, pela contribuição à educação e, sobretudo, pela defesa dos povos indígenas. Entre as figuras mais relevantes estão Fr. Julián Garcés, primeiro bispo de Tlaxcala (a mais antiga diocese do México), e Fr Bartolomé de las Casas, primeiro bispo de Chiapas. Garcés escreveu uma carta influente ao Papa Paulo III, que ajudou a embasar a bula Sublimis Deus (1537), na qual a Igreja reconhecia a humanidade plena dos indígenas e condenava sua escravização. Las Casas, por sua vez, tornou-se um dos maiores defensores dos direitos dos povos originários, combatendo os abusos do sistema de encomendas e influenciando as Leis Novas de 1542.
Os dominicanos deixaram também um legado arquitetônico e cultural significativo, com conventos e templos que até hoje marcam o patrimônio mexicano, especialmente no centro-sul do país.
Atividades centrais do Jubileu
As celebrações principais na capital mexicana começaram em 23 de julho com um simpósio no Centro Universitario Cultural do Convento de San Alberto Magno, dividido em três partes: sobre a história da Ordem, a missão atual e seu papel na Igreja.
O programa incluiu momentos de renovação vocacional:
Em 24 de julho, durante as Vésperas no Convento de San Alberto Magno, o Mestre-Geral da Ordem, Fr. Gerard Timoner III, OP, impôs o hábito dominicano a oito noviços (seis para a Província do México e dois para a América Central).
Em 25 de julho, festa de Santiago Apóstolo e dia central do Jubileu, os membros da Família Dominicana se reuniram na Catedral Metropolitana — relembrando o acolhimento franciscano de 1526 — e processaram até o Templo de Nosso Pai São Domingos. Ali, o Pe. Gerard presidiu a Missa jubilar concelebrada por mais de 70 sacerdotes, entre eles Dom Raúl Vera, OP. No mesmo ato, sete noviços fizeram a profissão simples.
Em 26 de julho, na Casa de Santo Tomás de Aquino, 15 irmãos estudantes renovaram a profissão durante a Eucaristia.
Participaram autoridades da Ordem, como o Pe. Fernando Delgado, OP (Sócio para a América Latina e o Caribe), o Pe. Juan Manuel Hernández, OP (Sócio para a Vida Fraterna e a Formação), representantes da Família Dominicana e frades das províncias da América Central, Colômbia e Peru.
“Proclamar o Evangelho com inteligência, compaixão e valentia”
Na Missa central, o prior provincial, Pe. Luis Javier Rubio Guerrero, OP, destacou: “Não celebramos simplesmente uma data; celebramos a fidelidade de Deus, que sustentou a missão da Ordem”. Ele convidou a renovar a disposição de anunciar o Evangelho “com inteligência, compaixão e valentia”. No rito, uma vela comemorativa serviu para acender doze círios em memória dos primeiros missionários. Segundo o prior, essa chama representa o testemunho de São Domingos de Gusmão, que começou a arder em 25 de julho de 1526 e continua viva pela graça de Deus.
O Mestre da Ordem, Pe. Gerard Timoner III, na homilia, refletiu sobre o pedido dos filhos de Zebedeu no Evangelho: “Santiago ansiava pela grandeza. Cristo não extinguiu esse desejo; ele o purificou. (…) Porque a grandeza no Reino não se mede pelo prestígio nem pelo sucesso, mas pela fidelidade”. Ele classificou os cinco séculos como uma “história da fidelidade de Deus” e confiou o futuro da missão às novas gerações de religiosos.
O ciclo jubilar será formalmente encerrado nos dias 6 e 7 de outubro com atos solenes em Puebla, com a presença do Pe. Javier Carballo, OP, prior provincial de Hispânia. Outros eventos acadêmicos e culturais, como o Congresso Internacional em Querétaro em novembro, completam a programação de 2026.
Cinco séculos depois, a presença dominicana no México continua a ser lembrada não apenas como capítulo da evangelização, mas como parte da construção da identidade cultural, intelectual e social do país — marcada pelo estudo, pela defesa da dignidade humana e pela pregação da verdade.
Com informações Zenit
[1] A Nova Espanha (em espanhol, Nueva España) constituiu um vasto domínio colonial espanhol na América do Norte e Central, durante o período da colonização. Seu território abrangia regiões que hoje correspondem aos estados norte-americanos do Arizona, Califórnia, Colorado, Nevada, Novo México e Utah, estendendo-se até a Costa Rica, na América Central. A capital era a Cidade do México.
Criado em 1535, o vice-reinado durou até 1821. Além das terras americanas, a administração da Nova Espanha também incluía o arquipélago das Filipinas, na Ásia. Com a derrota das forças espanholas diante dos exércitos comandados por Agustín de Iturbide e Vicente Guerrero, o território continental (excluindo as possessões asiáticas) integrou-se ao Império Mexicano a partir de 28 de setembro de 1821.





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