É normal ser tentado e provado!
Nosso Senhor caminha sobre as águas ao encontro dos apóstolos: preparação para a revelação da Eucaristia, imagem da alma tentada e figura da barca de Pedro que luta nos mares deste mundo.

Nosso Senhor salva Pedro das águas – Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Tampa (EUA) Foto: Angelis Ferreira
Redação (09/08/2026 08:02, Gaudium Press) Contemplamos, no Evangelho deste 19º Domingo do Tempo Comum, o episódio em que Nosso Senhor caminha sobre as águas para socorrer os apóstolos. Enquanto o Salvador subia ao monte a fim de rezar, os seus discípulos encontravam-se no meio do Mar de Tiberíades, cujas águas serenas logo foram agitadas por uma terrível tempestade.
Teria escapado à Sua onisciência divina a iminência dos turbilhões marítimos, quando os mandou ir à frente d’Ele na barca, para outro lado do mar, enquanto despedia as multidões (Cf. Mt 14,22)? Ou o aparente infortúnio foi o palco de uma aula magistral do maior dos mestres?
Sendo Autor da Criação, Jesus não restringia os seus ensinamentos aos padrões e recursos humanos. O Divino Mestre escolheu como instrumentos de sua lição, não plumas ou papiros, mas os ventos e os mares.
Com efeito, ao caminhar sobre as águas e imperar sobre os ventos e as ondas, Nosso Senhor continuava o que fizera ao multiplicar os pães e ao transformar a água em vinho nas bodas de Caná: mostrar aos seus a Sua onipotência.
Tendo, Ele mesmo, criado o homem psicossomático, quis respeitar as regras dessa relação, demonstrando – do visível ao invisível –, através dos sentidos, a verdade sobre a Eucaristia. Aquele que tem poder sobre a criação e domínio sobre o próprio corpo não pode, então, fazer-se presente no pão e no vinho como alimento?
Tais milagres operados pelo Senhor, além de preparar a sensibilidade dos seus escolhidos para a revelação da Sagrada Comunhão, são também para nós como caleidoscópios de infinitos ângulos, que manifestam constantemente novas maravilhas à humanidade.
Imagem da alma provada e tentada
A barca com os Apóstolos, sacudida pela tormenta, bem poderia ser imagem da nossa alma nas fases duras de tentação e provação. Quantas vezes ficamos angustiados ao nos depararmos em águas revoltas, sem perceber nisso uma lição divina? Os pensamentos de Deus, que são infinitamente superiores aos nossos, aproveitam-se – e quantas vezes Ele mesmo os envia – das contrariedades e sobressaltos da vida para nos fortificar na fé.
Se habitualmente os nossos espíritos dissipados são atraídos pelos brilhos fugidios do mundo, quiçá no cenário da aparente escuridão, em que o chão firme cede lugar às vagas bravias e turbulentas, lembraremos de olhar para Aquele que é a única Luz que as trevas não conseguiram dominar.
Por isso, na oração do Pai Nosso, não rezamos “livrai-nos da tentação”, e sim “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. A tentação e a provação são inerentes à nossa condição, pois nesta vida estamos em estado de prova. Nem os anjos, nem os nossos primeiros pais no Éden, nem o próprio Redentor foram isentos das provas… Por que, então, nos abalamos diante da tentação e da provação? É normal ser tentado e provado!
Assim como a população de um país situado sobre uma falha tectônica não se abala com um tremor sísmico qualquer, a alma cristã deveria enfrentar com muito mais coragem e fé as provas – indispensáveis para o nosso progresso espiritual – se soubesse vê-las com normalidade. Caso contrário, quando o panorama escurecer, ela verá no socorro Divino não o farol que indica o rumo e salva da procela, mas um fantasma, à semelhança dos apóstolos cuja fé, ainda incipiente, vacilava.
Figura da Igreja nos mares do mundo
Assim, enquanto é figura da nossa alma tentada, a nau de Pedro expressa a realidade da barca da Igreja em luta contra os vagalhões do mundo. Pode acontecer que, em meio aos ventos de ódio e aos sibilos caluniosos que rasgam os ares, alguns navegantes escorreguem e sejam tragados pelas ondas da perseguição. Nesses momentos, os que atravessam a borrasca não os fortes destemidos, mas os fracos que sabem vencer o medo confiando na luz de Maria – força dos fracos, esperança dos desvalidos, refúgio e consolação dulcíssima dos humildes.
Por Marcus Yip





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