Uma língua que ninguém entende
A crise da linguagem moderna é, no fundo e na raiz, uma crise estritamente espiritual.
Redação (08/08/2026 10:38, Gaudium Press) De tempos em tempos, surge uma expressão nova, uma gíria que brota nos recantos mais inusitados — às vezes nascida nos pátios de presídios, outras nos confins anônimos da internet —, e que rapidamente toma conta do vocabulário coletivo. A maioria das pessoas a repete por puro automatismo, muitas vezes sem saber o seu significado exato, apenas para pertencer ao coro. É o eco desprovido de reflexão, a repetição mecânica de quem abdica de pensar por si mesmo para “surfar na crista de uma onda passageira”.
Um dos exemplos mais recentes dessa tendência é a expressão “farmar aura”. Ouvi alguns jovens repetindo esse termo em diversos lugares, até que alguém finalmente se dispôs a me explicar do que se tratava: uma tentativa cibernética de mensurar um suposto carisma ou prestígio social através de ações banais.
Diante daquela explicação rebuscada para algo tão efêmero, não pude deixar de me lembrar de um antigo personagem de programa humorístico, o Patropi, que falava de maneira completamente incompreensível, sem nexo ou substância, e cujo grande bordão era: “Sei lá, entende? É pá de cá, pá de lá e fica tudo certo”.
Para mim, esse tal de “farmar aura” nada mais é do que um moderno “pá de cá, pá de lá“. Daqui a pouco passa, evapora na atmosfera digital e será substituído por outro modismo laico igualmente vazio, deixando os seus adeptos órfãos de qualquer vocabulário duradouro.
Modismos musicais e gerações sem memória
Esses modismos comportamentais funcionam exatamente do mesmo modo que a indústria das músicas de sucesso instantâneo, a chamada música descartável. Surge um ritmo batido, fixa-se nas paradas por imposição de algoritmos, as rádios e as plataformas o repetem à exaustão, e a sociedade consome aquilo vorazmente, como quem consome fast-food cultural. No entanto, basta virar a página do tempo para que essa música seja esquecida como se nunca tivesse existido, incapaz de sobreviver à estação em que nasceu.
Ao contrário disso, as obras verdadeiramente magnas — sejam da música clássica de mestres atemporais ou da alta tradição popular enraizada na alma dos povos — atravessam anos, décadas e séculos. São melodias cravadas no imaginário humano de tal forma que bastam duas ou três notas para que reconheçamos imediatamente a sua identidade, a sua arquitetura e a sua grandeza estética.
O grande perigo civilizatório disso tudo é que estamos criando gerações sem memória, sem concretude histórica e sem profundidade metafísica. São gerações reféns de palavras vazias e termos estéreis que só possuem sentido restrito para o próprio gueto geracional — ou, quem sabe, nem para eles mesmos, pois balbuciam conceitos que não compreendem. São tentativas de comunicação empobrecidas, incapazes de levar uma mensagem real do emissor ao receptor. São, em suma, verdadeiras espumas ao vento: fazem muito barulho na superfície, mas somem ao primeiro raio de sol, sem deixar raiz, sem irrigar a terra do pensamento.
O poder do verbo e a criação do mundo
Portanto, é uma urgência vital recordar que a palavra importa profundamente, o substantivo tem peso, o adjetivo qualifica a realidade e a estrutura frasal carrega um sentido que jamais deveria ser banalizado.
Numa construção de linguagem, o elemento soberano, o verdadeiro motor da arquitetura da frase, é o verbo. É ele quem provoca a ação do sujeito, fazendo-o mover-se em uma direção, transformar-se, lutar, construir ou permanecer firme. Quem manda na frase é o verbo, porque ele é a própria dinâmica da existência expressada em som e grafia.
Metaforicamente, a importância do verbo é de tal magnitude cósmica que a própria revelação bíblica nos ensina a gênese de tudo: no princípio era o caos, a desolação e as trevas, e Deus disse “Faça-se a luz”, e a luz se fez, e o Criador viu que era boa. Nos primórdios da criação, o Arquiteto do Universo já utilizava o expediente da palavra e do verbo soberano para fazer com que a sua vontade, a sua ordem e a sua mensagem chegassem até nós, estruturando o cosmos a partir do nada.
Diante disso, cabe a pergunta incômoda: será que a nossa comunicação contemporânea continua carregando esse peso de verdade e criação? Ou estamos reduzindo a capacidade expressiva, poética e racional dos nossos jovens a resmungos digitais e berros cibernéticos?
O sentido do Verbo Encarnado
A grande questão que se impõe é se a nossa juventude conseguirá, um dia, resgatar conceitos mais sérios, dotados de propósito existencial e enraizados na realidade perene, reconhecendo o verdadeiro valor do Verbo Encarnado — Aquele que não foi apenas uma palavra dita ao vento, mas o próprio Verbo Divino que deixou a glória dos Céus, assumiu a nossa carne humana e veio habitar entre nós para dar sentido à nossa tragédia e à nossa esperança.
A crise da linguagem moderna é, no fundo e na raiz, uma crise estritamente espiritual. Quando esvaziamos a palavra humana, esvaziamos o pensamento crítico; e quando esvaziamos o pensamento, abrimos brecha para o niilismo e para o vazio existencial que consomem os nossos dias.
Podemos conviver com a oralidade e com as mudanças linguísticas, mas não podemos permitir que elas substituam as construções fundamentais da língua. Por isso, ainda que até nas escolas se ensine algo diferente, em nossas casas, com nossos filhos, podemos resgatar a sobriedade da linguagem culta, o valor da boa conversa familiar, a leitura dos clássicos e a reverência sacrossanta à Palavra que dá sustentação à vida, distanciando-nos da poeira fútil dos modismos que nada deixam de herança para a alma humana e só servem para tentar transformar o belo em vulgar e o sagrado em algo absolutamente banal.
Por Afonso Pessoa






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