Cardeal Sarah alerta: sinodalidade e paganismo causam erosão da Igreja por dentro
Sinodalidade sem limites suficientemente definidos, abertura a elementos pagãos, banalização da liturgia e tentativa de ruptura com a tradição litúrgica são sinais de uma crise que se desenvolve no interior do próprio organismo eclesial.

Foto: screenshot/ dianemontagna.substack
Redação (07/08/2026 15:40, Gaudium Press) As declarações do Cardeal Robert Sarah, em recente entrevista à jornalista Diane Montagna, constituem um dos mais contundentes diagnósticos sobre os perigos que ameaçam a identidade da Igreja na atualidade. Sinodalidade sem limites suficientemente definidos, abertura a elementos pagãos, banalização da liturgia e tentativa de ruptura com a tradição litúrgica aparecem, nas palavras do purpurado africano, não como problemas isolados, mas como sinais de uma crise que se desenvolve no interior do próprio organismo eclesial.
A entrevista, realizada em 29 de junho, solenidade de São Pedro e São Paulo, ao término do segundo Consistório extraordinário do pontificado de Leão XIV, teve como um dos temas principais o futuro da Missa tradicional em latim. No entanto, Sarah foi muito além da questão litúrgica. O antigo prefeito da Congregação para o Culto Divino colocou no centro da discussão uma verdade elementar, mas decisiva: “A Igreja pertence a Cristo; ela não é nossa”.
É a partir desse princípio que se articulam suas críticas. Se a Igreja pertence a Cristo, não pode ser tratada como uma instituição humana que cada geração estaria autorizada a remodelar segundo as categorias culturais e ideológicas dominantes. Sua natureza não resulta de consensos, pesquisas de opinião ou processos administrativos. Foi recebida de seu Fundador e transmitida ao longo dos séculos.
O que significa, afinal, “sinodalidade”?
Entre as declarações mais significativas está a crítica de Sarah ao próprio conceito de sinodalidade. O cardeal admite nunca ter compreendido verdadeiramente o termo e, em comentários posteriores à entrevista, observou tratar-se de uma expressão abstrata, sem tradução adequada em diversas línguas africanas.
Não é, entretanto, uma simples objeção semântica. Sarah questiona a fundamentação e os limites teológicos de um conceito que adquiriu enorme importância na vida da Igreja nos últimos anos. Para ele, é urgente definir “o significado exato, as competências, os limites e a missão” da sinodalidade, preservando intactas a doutrina, a moral, a natureza e a estrutura da Igreja.
O purpurado recorda que Paulo VI restaurou o Sínodo dos Bispos com uma finalidade precisa: favorecer o exercício da colegialidade episcopal e auxiliar o Papa em sua missão de Pastor universal. Sarah identifica uma diferença substancial entre esse instrumento eclesial claramente delimitado e a transformação da “sinodalidade” numa espécie de nova característica definidora da própria Igreja.
Sua objeção torna-se ainda mais compreensível quando se recordam as definições tradicionais da Igreja: Ela é Esposa de Cristo, Mãe e Corpo Místico de Cristo. Diante dessas realidades enraizadas nas Escrituras e na Tradição, Sarah considera impróprio simplesmente qualificá-la como “sinodal”, sobretudo enquanto permanecerem imprecisos o alcance e as consequências desse conceito.
A questão deixa de ser teórica quando se chega aos temas morais. Ao comentar o trabalho do Grupo de Estudo nº 9 sobre questões que incluem a homossexualidade, Sarah defende que suas conclusões não deveriam chegar às dioceses sem exame prévio do Papa Leão XIV. Por trás dessa preocupação está o risco de que mecanismos consultivos ou sinodais produzam interpretações divergentes em matérias nas quais a Igreja não pode sacrificar a clareza doutrinal em nome de processos indefinidos.
Pachamama e a inversão da lógica missionária
Ainda mais fortes são as declarações do cardeal sobre a presença da Pachamama durante o Sínodo para a Amazônia de 2019. Sarah recorda que as imagens foram conduzidas em procissão e estiveram presentes nas atividades relacionadas ao encontro. Para o purpurado, o episódio representa algo muito mais sério do que uma controvérsia sobre símbolos culturais: revela o perigo de inversão da própria lógica missionária da Igreja.
Sua experiência africana confere particular força à comparação. Sarah recorda que os missionários que evangelizaram seu continente ensinavam os convertidos a abandonar os ídolos e as práticas religiosas incompatíveis com a fé cristã. Diante disso, ele manifesta perplexidade com a acolhida de símbolos que considera pagãos no coração da Igreja: “E agora nós trazemos a Pachamama para dentro da Basílica”.
O problema, levantado por Sarah, não está na legítima inculturação do Evangelho. A Igreja sempre soube incorporar elementos das culturas evangelizadas quando compatíveis com a fé, purificando-os e elevando-os. O risco surge quando a direção desse processo se inverte. Em vez de o Evangelho transformar a cultura, elementos religiosos estranhos ao Cristianismo começam a penetrar na vida eclesial sob a justificativa de diálogo ou inculturação.
Nesse sentido, o episódio da Pachamama e as dúvidas sobre a sinodalidade convergem para a mesma preocupação fundamental: quem transforma quem? A Igreja continua levando Cristo às culturas ou passa, progressivamente, a modificar sua linguagem, seus símbolos e até sua autocompreensão para acomodar as categorias do mundo contemporâneo?
A liturgia não é entretenimento
Sarah identifica tendência semelhante no campo litúrgico. O antigo responsável pelo Culto Divino alerta para o perigo de transformar a liturgia numa espécie de “entretenimento”. Quando a criatividade, o protagonismo humano ou a necessidade de tornar a celebração atraente ocupam o centro, corre-se o risco de obscurecer aquilo que constitui sua finalidade: o culto prestado a Deus.
É nesse contexto que se compreende sua defesa da Missa tradicional em latim. O cardeal rejeita a possibilidade de considerar nociva ou ultrapassada uma forma litúrgica que alimentou a fé de incontáveis gerações de católicos. “Não podemos dizer que aquilo que foi feito durante 1.600 anos já não seja válido agora”, afirma.
Sua argumentação toca diretamente a questão da continuidade. Sarah questiona a pretensão de simplesmente cancelar o que foi transmitido durante séculos, porque, como enfatiza, “a Igreja é uma continuidade”. Não está em discussão a autoridade da Igreja para estabelecer disciplina litúrgica, mas a possibilidade de exercer essa autoridade como se o presente pudesse romper arbitrariamente com aquilo que a própria Igreja venerou no passado.
Por isso, o cardeal vê com esperança a atitude atribuída ao Papa Leão XIV em relação aos sacerdotes e fiéis ligados ao vetus ordo. Referindo-se à orientação dada aos bispos franceses para que demonstrassem abertura a essas comunidades, Sarah é categórico: “O que foi escrito aos bispos franceses deve aplicar-se a todos os bispos”.
A afirmação representa também uma crítica às restrições impostas nos últimos anos à liturgia tradicional. Para Sarah, não faz sentido transformar em motivo de marginalização o que durante séculos esteve no coração da vida católica. A atitude mais coerente com a continuidade da Igreja seria, portanto, a generosidade pastoral, e não a tentativa de extinção.
Uma crise que nasce dentro dos muros
O ponto mais importante da entrevista talvez esteja justamente na conexão entre esses diferentes assuntos. Sarah não descreve apenas ameaças externas provocadas pelo secularismo, pela perda da fé ou pela hostilidade do mundo moderno. Seu diagnóstico é mais inquietante: determinados elementos da crise contemporânea estão penetrando na própria Igreja e modificando silenciosamente a maneira como ela compreende sua identidade e sua missão.
Uma sinodalidade de alcance impreciso, elementos pagãos introduzidos sob o argumento da inculturação, uma liturgia sujeita à lógica do entretenimento e a tentativa de ruptura com uma tradição litúrgica secular seriam manifestações diferentes de uma mesma tendência: colocar o homem e suas categorias no centro da vida eclesial.
Contra essa tendência, Sarah retorna insistentemente ao princípio que atravessa toda a entrevista: a Igreja pertence a Cristo. Ela não é propriedade de um pontificado, de uma conferência episcopal, de um sínodo, de especialistas ou de uma geração de católicos. Ninguém recebeu autoridade para fabricar outra Igreja.
É sob essa perspectiva que deve ser entendido o título de seu novo livro, 2050. Sarah pergunta se, daqui a aproximadamente um quarto de século, a Igreja continuará capaz de iluminar o mundo. Apesar do tom grave de suas advertências, sua resposta é marcada pela esperança sobrenatural: sim, porque “Cristo não abandonará sua Igreja” e permanecerá com ela até o fim dos tempos.
Essa promessa, contudo, não dispensa a fidelidade. Exige, pelo contrário, uma conversão que começa dentro da própria Igreja. Sarah resume a questão numa frase que talvez seja a mais importante de toda a entrevista: “Nós devemos nos converter a Cristo; não é Cristo que deve converter-se a nós, às nossas ideias, à nossa mudança de paradigma”.
A advertência do cardeal é, portanto, muito mais profunda do que uma disputa entre conservadores e progressistas ou uma controvérsia sobre a Missa tradicional. O que está em jogo é a direção da missão católica. A Igreja existe para converter os homens a Cristo, não para converter Cristo às exigências dos homens. Quando essa ordem começa a ser invertida, a erosão já não vem apenas de fora. Ela já se instalou dentro.
Por Rafael Ribeiro





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