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Cristãos sírios cancelam festas religiosas: um sinal inquietante da Síria pós-Assad

Quando uma comunidade de raízes tão antigas considera que já não existem condições para manifestar publicamente a sua fé, o problema ultrapassa em muito as fronteiras de uma pequena cidade síria.

Mosteiro de Nossa Senhora de Sednaya Foto: Wikipedia

Mosteiro de Nossa Senhora de Sednaya Foto: Wikipedia

Redação (07/08/2026 09:54, Gaudium Press) A decisão das comunidades cristãs de Sednaya de suspender as celebrações públicas das grandes festas religiosas de agosto e setembro vai muito além de uma simples alteração no calendário religioso. Trata-se de um sinal de alarme emitido por um dos lugares mais emblemáticos do Cristianismo sírio.

Segundo a InfoVaticana, os conselhos paroquiais das comunidades greco-ortodoxa, siríaco-ortodoxa e greco-católica melquita anunciaram o cancelamento das manifestações públicas ligadas à Transfiguração do Senhor, à festa de Nossa Senhora de Sednaya, à Exaltação da Santa Cruz e a Santa Sofia. As liturgias continuarão a ser celebradas no interior das igrejas, mas as tradicionais celebrações públicas permanecerão suspensas enquanto não forem libertados os jovens cristãos detidos, esclarecido o paradeiro das pessoas sequestradas e solucionados os processos que as comunidades consideram injustificados.

A gravidade do gesto só se compreende à luz da importância de Sednaya. Situada a cerca de 30 quilômetros ao norte de Damasco, a cidade abriga o célebre Mosteiro de Nossa Senhora de Sednaya e constitui, há séculos, um dos grandes centros de peregrinação cristã do Oriente Médio. Agora, os cristãos denunciam não somente detenções e sequestros, mas também controles considerados humilhantes na fronteira com o Líbano, roubos e uma crescente campanha de ameaças, difamação e incitação anticristã nas redes sociais. Não se trata, portanto, de mera prudência diante de um episódio isolado. Quando uma comunidade de raízes tão antigas considera que já não existem condições para manifestar publicamente a sua fé, o problema ultrapassa em muito as fronteiras de uma pequena cidade síria.

Para compreender o temor dos cristãos sírios é necessário recordar o preço que essa comunidade pagou desde o início da guerra civil, em 2011. Antes do conflito, a Síria contava com aproximadamente 1,5 milhão de cristãos. Dados reunidos pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) indicavam que esse número havia caído para cerca de 450 mil em 2019. Fontes eclesiásticas e oficiais consultadas posteriormente pela organização estimaram que restavam apenas entre 200 mil e 400 mil cristãos no país. Em Aleppo, outro centro histórico do Cristianismo oriental, a ACN registrou uma redução de cerca de 180 mil cristãos antes da guerra para não mais de 30 mil.

Não estamos falando apenas das consequências indistintas de uma guerra. Os cristãos sofreram também perseguição especificamente religiosa nas regiões dominadas por grupos jihadistas. Um levantamento divulgado pela ACN em 2019 contabilizou, nos primeiros oito anos do conflito, 1.707 cristãos assassinados e 677 sequestrados, além de 1.309 propriedades eclesiásticas destruídas e 7.802 casas e propriedades cristãs danificadas ou destruídas. O relatório mais recente da organização sobre a liberdade religiosa classifica atualmente a situação síria como de “discriminação religiosa”, apontando o extremismo religioso e a atuação de agentes estatais e não estatais como fatores centrais.

O temor na Síria pós-Assad

A queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, abriu uma etapa inteiramente nova. Ahmed al-Sharaa, antigo dirigente do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), assumiu a presidência interina. Inicialmente, houve esforços para tranquilizar as comunidades cristãs. Líderes cristãos demonstraram disposição para participar da reconstrução nacional e defenderam uma Síria baseada na cidadania e na igualdade perante a lei, recusando a condição de minoria meramente “tolerada”.

Mas existem motivos concretos para preocupação. A Declaração Constitucional provisória de março de 2025 estabelece a jurisprudência islâmica como principal fonte da legislação, embora também declare protegidas a liberdade de crença e a realização dos ritos das religiões reconhecidas. A própria ACN registra que, depois da derrubada de Assad pelo HTS, difundiu-se entre muitos cristãos o “medo da islamização” da Síria.

Esse medo ganhou contornos dramáticos em junho de 2025, depois do atentado contra a igreja de Santo Elias, em Damasco. Em entrevista à ACN, o franciscano sírio Pe. Fadi Azar descreveu uma comunidade profundamente abalada e afirmou que os cristãos já não pediam mais comida ou medicamentos, mas ajuda para abandonar o país. Segundo o sacerdote, os cristãos que representavam cerca de 10% da população antes da guerra, haviam caído para aproximadamente 3%.

É nesse contexto que deve ser interpretado o protesto de Sednaya. Isoladamente, uma detenção pode ser um problema policial; um sequestro pode ser criminalidade comum; uma ameaça na internet pode ser obra de extremistas sem ligação com o governo. Mas quando detenções contestadas, desaparecimentos, ameaças, insegurança e restrições se acumulam a ponto de três Igrejas distintas decidirem conjuntamente retirar das ruas algumas de suas maiores festas, torna-se impossível ignorar a sensação de vulnerabilidade da comunidade.

Há ainda uma ironia histórica que merece ser mencionada. O regime de Bashar al-Assad foi autoritário, brutal com os adversários e responsável por gravíssimas violações de direitos humanos durante a guerra. Nada disso deve ser relativizado. Ao mesmo tempo, no terreno especificamente religioso, o Estado baathista mantinha um sistema secular que concedia às antigas comunidades cristãs uma margem considerável de liberdade de culto e de participação social. Isso ajuda a explicar por que tantos cristãos temiam os grupos jihadistas que combatiam o regime: nas regiões tomadas por esses grupos, a experiência cristã foi frequentemente de fuga, expulsão e perseguição. Em Idlib, por exemplo, o bispo Hanna Jallouf disse à ACN que uma população cristã de aproximadamente 10 mil pessoas antes da guerra havia sido reduzida a cerca de 650, sobretudo idosos, sob o domínio jihadista.

Seria simplista transformar Assad, por isso, em protetor ideal dos cristãos. O seu governo oferecia uma forma autoritária de estabilidade e tolerância religiosa, não uma democracia liberal fundada na plena liberdade dos cidadãos. Mas seria igualmente ingênuo ignorar aquilo que os próprios cristãos sírios parecem temer: a substituição de uma ordem autoritária e relativamente secular por outra na qual movimentos islamistas e grupos armados disponham de influência suficiente para reduzir progressivamente o espaço público das comunidades não muçulmanas.

Os cristãos da Síria não são estrangeiros nem uma presença recente que possa simplesmente procurar outro lugar. Suas comunidades remontam aos primeiros séculos do Cristianismo. Foi em Damasco que São Paulo viveu o episódio decisivo da sua conversão; foi em Antioquia da Síria que, segundo os Atos dos Apóstolos, os discípulos de Cristo foram pela primeira vez chamados de “cristãos”. O desaparecimento desta comunidade significaria não apenas uma tragédia demográfica, mas a amputação de uma parte da própria memória histórica do Cristianismo.

Por isso, as festas canceladas em Sednaya deveriam ser observadas com atenção pelo Ocidente. Com todos os seus enormes problemas e crimes, Bashar al-Assad mostrava-se relativamente tolerante com os cristãos no que dizia respeito à prática religiosa. A sua queda não significa necessariamente que a perseguição seja o destino inevitável da nova Síria, e as novas autoridades devem ser julgadas também por suas ações concretas. Os acontecimentos de Sednaya, porém, demonstram que as garantias formais não bastam. Na era pós-Bashar, se o novo Estado não conseguir assegurar efetivamente a liberdade religiosa, a segurança e a igualdade perante a lei, o futuro desta comunidade cristã milenar pode estar seriamente em perigo.

Por Rafael Ribeiro

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