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China: o maior teste diplomático de Leão XIV ainda está por vir

Os próximos dois anos mostrarão se o Papa Leão XIV pretende apenas administrar a herança de Francisco ou reformulá-la.

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Redação (05/08/2026 16:31, Gaudium Press) Faltam pouco mais de dois anos para o término, em outubro de 2028, a atual prorrogação do Acordo Provisório entre a Santa Sé e a República Popular da China sobre a nomeação de bispos. Para o Papa Leão XIV, esse período não será apenas uma contagem regressiva diplomática. Será o tempo necessário para responder a uma pergunta decisiva: o entendimento iniciado por Francisco pode tornar-se um instrumento efetivo de comunhão e liberdade para os católicos chineses, ou continuará sendo um mecanismo opaco, cujos resultados dependem sobretudo da boa vontade do Partido Comunista?

Assinado em 2018 e renovado inicialmente a cada dois anos, o acordo recebeu, em 22 de outubro de 2024, uma extensão excepcional de quatro anos. O comunicado oficial afirmou que as partes desejavam aprofundar um diálogo “respeitoso e construtivo”, em benefício da Igreja na China e do povo chinês. Seu texto integral, entretanto, permanece secreto.

Esse segredo constitui uma das fragilidades centrais da política vaticana. Os fiéis não conhecem com precisão as obrigações assumidas por Roma e por Pequim, os mecanismos previstos para solucionar violações nem as garantias que protegem a autoridade pontifícia. A Santa Sé sustenta que o Papa conserva a decisão final sobre as nomeações episcopais, enquanto os candidatos são apresentados por estruturas eclesiásticas controladas ou supervisionadas pelo Estado chinês.

Pequenos avanços, grande desconfiança

O artigo de Ed Condon no The Pillar parte de dois acontecimentos recentes: as ordenações de Joseph Chang Yanfeng como bispo de Chifeng e de Francis Xavier Duan Yongkun como coadjutor de Bameng, ambas na Mongólia Interior. Segundo o Vaticano, Leão XIV aprovou os nomes em 15 de junho de 2026, embora as nomeações tenham sido anunciadas somente nos dias das respectivas ordenações, em 22 e 29 de julho.

Condon reconhece que existe uma aparente normalização. Desde a eleição de Leão XIV, Pequim parece ter respeitado com maior regularidade a necessidade de aprovação papal. Além disso, os novos bispos não são apresentados simplesmente como representantes da Igreja “oficial” contra a Igreja “clandestina”. Essa divisão, embora ainda dolorosamente real, tornou-se mais complexa. Alguns prelados reconhecidos pelo governo mantêm uma comunhão sincera com Roma e colaboram com sacerdotes e bispos provenientes da clandestinidade.

O caso de Joseph Lin Yuntuan é significativo. Antigo bispo clandestino de Fuzhou, ele foi reconhecido como auxiliar da arquidiocese com o apoio do arcebispo Joseph Cai Bingrui, vinculado às estruturas oficiais. Para o The Pillar, episódios como este indicam que uma nova geração episcopal, menos rigidamente dividida entre “pró-Roma” e “pró-Pequim”, pode estar surgindo.

Não se deve, porém, confundir uma melhora processual com uma solução eclesial. Durante a sé vacante de 2025, autoridades chinesas conduziram unilateralmente a escolha de dois bispos, demonstrando que o sistema estatal pretendia continuar funcionando mesmo sem um Papa que pudesse conceder o mandato canônico. Uma dessas escolhas envolveu Xinxiang, diocese para a qual Roma já reconhecia outro bispo legítimo.

A prova da transparência

A primeira meta concreta de Leão XIV deveria ser simples: anunciar os bispos chineses quando forem aprovados pelo Papa, e não apenas quando estiverem prestes a ser ordenados.

Como observa Condon, se a aprovação pontifícia realmente ocorre semanas ou meses antes da ordenação, a divulgação antecipada seria uma demonstração pública de que Roma participa efetivamente do processo. Enquanto os anúncios continuarem coincidindo com cerimônias já organizadas na China, permanecerá a suspeita de que o Vaticano esteja apenas ratificando fatos consumados.

A transparência, neste contexto, não é uma exigência secundária da imprensa. Ela protege a própria autoridade do Papa e oferece aos católicos chineses um sinal visível de que seus pastores não são meros funcionários religiosos escolhidos pelo Estado, mas sucessores dos Apóstolos em comunhão com Pedro.

A publicação integral do acordo talvez ainda seja diplomaticamente difícil. Leão XIV poderia, no entanto, exigir ao menos a divulgação de seus princípios essenciais, das etapas do processo de nomeação e das garantias concedidas a Roma. Um acordo secreto pode ser tolerado como instrumento temporário; dificilmente pode tornar-se permanente sem algum grau de prestação de contas.

O alerta de Gagliarducci

Andrea Gagliarducci, no Monday Vatican, acrescenta uma perspectiva importante. Ainda no início do pontificado, ele registrou rumores de que setores vaticanos e chineses desejariam tornar o acordo permanente e publicar alguns de seus aspectos. Para Gagliarducci, uma aceleração imposta logo após a eleição do novo Papa poderia ser interpretada como tentativa de condicionar Leão XIV antes que ele realizasse a sua própria avaliação. O pontífice, portanto, poderia optar por desacelerar o processo.

A análise recorda também que o acordo pertence à herança diplomática de Francisco e do Cardeal Pietro Parolin. Leão recebeu uma estrutura já montada, com autoridades vaticanas pessoalmente comprometidas com a sua continuidade. Até 2028, porém, é provável que ocorra uma ampla renovação na Secretaria de Estado. Isso poderá permitir uma avaliação menos ligada à defesa do legado anterior e mais concentrada nos resultados concretos.

Em outro artigo, Gagliarducci advertiu que Pequim costuma utilizar qualquer gesto de aproximação do Vaticano como instrumento de legitimação internacional. Durante o pontificado de Francisco, o desejo de chegar à China e de ampliar o diálogo teria levado Roma a conceder crédito político ao governo chinês sem obter contrapartidas públicas proporcionais em matéria de liberdade religiosa. Para o vaticanista, a pergunta inevitável era: qual preço a Igreja estaria disposta a pagar pelo “sonho chinês” do Papa?

Leão XIV parece menos inclinado a uma diplomacia conduzida por gestos pessoais ou grandes sonhos simbólicos. O seu perfil administrativo favorece a definição de critérios, procedimentos e resultados verificáveis. Essa diferença pode transformar a relação com Pequim sem necessariamente provocar uma ruptura.

Não abandonar, mas renegociar

Romper imediatamente o acordo produziria uma declaração moralmente forte, mas poderia deixar os católicos chineses numa situação ainda mais vulnerável. Bispos reconhecidos por Roma e tolerados pelo governo seriam obrigados a escolher entre a clandestinidade e a submissão ao sistema estatal. Os fiéis leais ao Papa correriam o risco de voltar formalmente à ilegalidade.

Por isso, a estratégia mais prudente não seria simplesmente abandonar o diálogo, mas elevar o seu preço. A renovação de 2028 não deveria ser automática.

Entre as condições possíveis estão o anúncio antecipado das nomeações, o fim das eleições episcopais sem consentimento romano, o reconhecimento civil dos bispos ainda marginalizados, garantias para sacerdotes que recusam aderir à Associação Patriótica e limites claros à interferência política na formação dos seminaristas e na vida das dioceses.

Outra questão inevitável é o mapa eclesiástico chinês. Pequim deseja que as dioceses coincidam com as divisões administrativas civis, enquanto Roma conserva circunscrições estabelecidas ao longo de mais de um século. Leão XIV já aceitou reorganizações territoriais, como a supressão das antigas dioceses de Xuanhua e Xiwanzi e a criação da diocese de Zhangjiakou. Um acordo abrangente sobre as fronteiras diocesanas poderia eliminar jurisdições paralelas, mas só seria legítimo se viesse acompanhado de proteção real à vida da Igreja.

Os próximos dois anos mostrarão se o Papa pretende apenas administrar a herança de Francisco ou reformulá-la. O desafio de Leão XIV não consiste em escolher entre ingenuidade diplomática e confronto estéril. Consiste em preservar o diálogo sem permitir que o diálogo se transforme em silêncio diante da coerção.

O verdadeiro sucesso não será uma fotografia do Papa em Pequim, nem a transformação apressada do acordo provisório em tratado permanente. Será uma Igreja chinesa na qual a comunhão com Roma não precise ser escondida, os bispos não sejam instrumentos do Partido e os fiéis possam professar sua fé sem ter de escolher entre a obediência civil e a fidelidade católica.

Até 2028, Leão XIV terá de demonstrar que Roma continua a exercer, de forma efetiva, a sua autoridade à mesa de negociações. Caso contrário, o acordo poderá até permanecer em vigor, mas será difícil sustentar que ele preserva plenamente a autoridade soberana do Romano Pontífice na nomeação dos bispos.

Por Rafael Ribeiro

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