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Quando o inferno bate à nossa porta

O mal avança celeremente porque permitimos que ele ocupe os espaços que deveriam ser guardados pela ordem, pela lei e pela graça.

Foto: Max Kleinen/ Unsplash

Foto: Max Kleinen/ Unsplash

Redação (02/08/2026 11:02, Gaudium Press) Até há poucos anos, o bairro onde se localiza a paróquia da cidade em que hoje vivo era um refúgio de paz; um lugar pacato, habitado por famílias tradicionais e pessoas idosas, conhecido pelo sossego, pela cordialidade entre os vizinhos, e por ser uma referência de bem-viver na cidade.

Hoje, esse cenário foi completamente modificado. O que se vê é um território tomado pela desolação, onde moradores antigos se sentem forçados a abandonar as casas de toda uma vida, deixando para trás memórias e raízes diante do avanço insuportável da criminalidade e da deterioração social.

Casas abandonadas são invadidas, depenadas e, não raro, incendiadas por marginais. O que antes era um oásis de tranquilidade transformou-se em um verdadeiro cenário de terror cotidiano, repetindo um drama que já não se restringe às grandes metrópoles, mas que se alastrou de Norte a Sul do país e cruza fronteiras pelo mundo.

Os zumbis do asfalto e a conivência silenciosa

O motor principal dessa tragédia urbana é o avanço implacável das drogas ilícitas. Indivíduos tomados pelo vício perambulam pelas ruas como verdadeiros zumbis — mortos-vivos que catam lixo, rasgam sacolas à procura de restos e roubam fios de energia elétrica e de telefone dos postes, além de aterrorizarem comércios e residências.

O mais revoltante nessa engrenagem de destruição é a impunidade e a cumplicidade estrutural que a alimentam. O bairro está coalhado de ferros-velhos clandestinos que funcionam abertamente como receptadores de material furtado.

Todo mundo sabe, todo mundo vê e se incomoda, mas nenhuma providência real é tomada. A inércia das autoridades — sejam policiais ou administrativas — cria um círculo vicioso em que o crime compensa, o trabalhador é refém e o cidadão de bem é empurrado para a margem da própria vida.

Quando até a casa de Deus é profanada

A vulnerabilidade dessa realidade desgovernada não respeita mais limite algum, tampouco o território do sagrado. A paróquia local, que está sendo construída há dezessete anos graças aos infindáveis sacrifícios da comunidade e do padre para erguer um templo capaz de acolher tantos fiéis — que hoje se amontoam no salão paroquial ou assistem às missas em telões improvisados no saguão —, tem sido assaltada inúmeras vezes.

No último e mais ousado ataque, marginais arrancaram uma janela da secretaria da instituição, invadiram o ambiente, reviraram gavetas, jogaram papéis e documentos no chão e roubaram o dinheiro em espécie destinado ao troco do bazar e às pequenas despesas paroquiais. Se tivesse ficado por aí, o prejuízo teria sido pequeno, porém os meliantes roubaram toda a fiação da parte superior da igreja, ainda em obras; material caro, fruto de doações e de uma quermesse.

Por um milagre de Deus, a relíquia de São Carlo Acutis, recém-chegada da Itália e guardada em um relicário de ouro, foi ignorada pelos invasores, que não souberam avaliar o seu valor. Mas o recado deixado pela violência é amedrontador: perderam-se totalmente o respeito e a noção do sagrado. No passado, mesmo criminosos empedernidos guardavam um resquício de temor reverente pelas igrejas. Hoje, o templo é tratado com o mesmo desprezo de um comércio abandonado.

A grande batalha invisível

Diante desse cenário de ruína, as famílias se encarceram; erguem muros cada vez mais altos, instalam concertinas, cercam-se de câmeras e alarmes e se trancam em suas próprias casas, como prisioneiros do medo, enquanto o mundo exterior se corrompe.

O que presenciamos nas calçadas das nossas cidades vai muito além de um simples problema de segurança pública; trata-se de uma das manifestações mais claras e terríveis do maligno sobre a Terra. É o inimigo de Deus cooptando consciências, anestesiando almas e transformando seres humanos em criaturas sem vontade própria, cujo único motor é a destruição da vida, das famílias e da paz social.

Enquanto a sociedade se volta para conflitos geopolíticos e guerras por interesse, uma grande guerra mundial acontece bem diante dos nossos narizes, nas esquinas dos nossos bairros, nas portas das nossas igrejas. É a luta ancestral do bem contra o mal, e o mal avança celeremente porque permitimos que ele ocupe os espaços que deveriam ser guardados pela ordem, pela lei e pela graça.

A única certeza

Restam, pois, as perguntas que rasgam o peito de qualquer cidadão consciente e de qualquer cristão fiel: o que faremos com isso? Como um problema de tal envergadura será resolvido? Existe solução para a decomposição moral e social em que mergulhamos?

Enquanto o poder público hesita e o tecido da nossa civilização se esgarça, cabe aos filhos de Deus manter a luz acesa, resistir espiritualmente e não naturalizar o horror. Porque, se permitirmos que a violência continue tomando conta das nossas ruas e que o sagrado seja profanado até dentro das nossas igrejas, restará apenas a barbárie. E a única certeza que deve nos sustentar é que, mesmo sob o peso das trevas mais densas, a última palavra pertence sempre ao Altíssimo: o mal avança, mas não triunfará!

Por Afonso Pessoa

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