Pressão crescente sobre os católicos na China comunista: libertação do Pe. Ma Xianshi
As autoridades chinesas o condenaram por suposta “venda pública ilegal de livros religiosos”, especificamente cânticos da Igreja.

Foto: Pixabay/Gaston Laborde
Redação (28/07/2026 09:37, Gaudium Press) No último dia 22 de julho, centenas de fiéis católicos se reuniram em frente ao centro de detenção de Yiwu, na província de Zhejiang, para receber o Pe. Ma Xianshi após o cumprimento de uma pena de 18 meses de prisão. As autoridades chinesas o condenaram por suposta “venda pública ilegal de livros religiosos”, especificamente cânticos da Igreja. O retorno do sacerdote se transformou em um momento emblemático para a Diocese de Wenzhou, destacando as tensões crescentes enfrentadas tanto pela comunidade católica oficial quanto pela clandestina no país.
Desde cedo, uma multidão aguardava do lado de fora da unidade prisional. No entanto, o horário previsto para a libertação passou sem que o sacerdote aparecesse. Familiares e apoiadores, preocupados, questionaram os oficiais e descobriram que as autoridades haviam transferido o religioso diretamente para uma delegacia próxima, temendo que a concentração de pessoas pudesse perturbar a ordem pública. Após negociações, Pe. Ma chegou em um veículo policial. Mais de uma centena de fiéis o receberam com flores. Em seguida, um comboio de dezenas de carros o escoltou de volta à sua cidade natal, em Wenzhou.
Detenção arbitrária do sacerdote
O Pe. Ma Xianshi foi detido em 22 de novembro de 2024, dia da festa de Santa Cecília. Durante o processo judicial, sua família ocultou a situação de sua mãe, uma idosa de quase 90 anos gravemente enferma e acamada. Os irmãos repetiam que ele estava estudando no exterior. O caso gerou muita incerteza na comunidade católica. Uma audiência inicialmente marcada para julho de 2025 foi adiada para novembro, período em que clérigos, irmãs religiosas e leigos relataram sofrer pressões e interrogatórios constantes das autoridades na tentativa de forçá-los a prestar depoimento e aumentar a pena imposta ao Pe. Ma.
As acusações giravam em torno da “atividade comercial ilegal” relacionada à venda de livros com hinos religiosos da diocese. O sacerdote sempre sustentou que não se tratava de lucro pessoal e que a atividade era pastoral, não comercial. Ele recusou-se a admitir culpa ou aceitar voluntariamente a sentença. Seu irmão, Zhuang Qiantuan, também envolvido na investigação, admitiu a culpa, foi solto sob fiança em fevereiro e reuniu-se à família.
Após o julgamento, demorou meses para que a sentença de 18 meses fosse confirmada. O sacerdote recorreu, mas a decisão foi mantida. Ele havia sido removido de seu cargo nas “Duas Associações” Católicas Provinciais de Zhejiang, embora seu status como representante legal da diocese não tenha sido imediatamente alterado. Rumores de libertação antecipada circularam no Ano Novo Chinês, mas só se confirmaram um mês antes da data efetiva.
Celebrações em Wenzhou com restrições
Em Wenzhou, mais de 400 fiéis da área de Lucheng, onde o sacerdote atuou por muitos anos, se reuniram na catedral principal. Autoridades negaram que ele presidisse a Missa dentro da igreja, permitindo apenas o uso de um salão com capacidade para mais de 200 pessoas. Mesmo assim, foi organizada uma Missa de Ação de Graças, presidida pelo Pe. Ma com três outros sacerdotes concelebrantes. Funcionários do Bureau de Assuntos Religiosos acompanharam o processo de libertação, e relatos indicam tentativas anteriores de persuasão para que ele assinasse documentos ou usasse transporte governamental.
O Pe. Ma ocupava posição de destaque na Igreja oficial de Wenzhou. Muitos acreditam que as acusações visavam enfraquecer sua influência e removê-lo da liderança. Permanece a dúvida sobre a renovação de suas credenciais como ministro religioso reconhecido. No curto prazo, ele deve priorizar os cuidados com a mãe idosa. Seu cargo já foi assumido pelo Pe. Hu Longjian, presidente da Associação Patriótica Católica local.
O caso ocorre em meio a um ambiente cada vez mais restritivo em Zhejiang e outras regiões. Recentemente, dois sacerdotes da comunidade clandestina de Wenzhou (identificados como Padres Gao e Wang) sofreram detenção administrativa e multas, sendo libertados em 9 de julho com alertas de que ministrar sacramentos poderia levar a processos criminais. Relatos indicam proibições de menores entrarem em igrejas, impossibilitando programas de catequese de verão, além de exigências burocráticas rigorosas para advogados em casos religiosos.
A Diocese de Wenzhou
Wenzhou abriga cerca de 200 mil católicos e é historicamente dividida entre comunidades oficial e clandestina. Cada uma contava com mais de 40 sacerdotes e representava aproximadamente metade dos fiéis. Nos últimos anos, o governo intensificou esforços para “integrar” ou “transformar” o clero clandestino. Sacerdotes de fora que não se filiam à Igreja oficial não podem residir na região, e os locais que recusam registro enfrentam restrições severas, incluindo multas altas para famílias que os acolhem.
Atualmente, a Igreja oficial conta com quase 50 sacerdotes e mais de 40 religiosas, enquanto a clandestina tem 24 sacerdotes e mais de 40 religiosas. Esta última continua reconhecendo Dom Peter Shao Zhumin como legítimo bispo, que também sofreu repetidas detenções e vigilância. A diocese reflete as complexidades do catolicismo chinês sob a política de “sinicização” das religiões promovida pelo governo, que busca alinhar as práticas religiosas aos valores do Partido Comunista.
Enquanto o acordo provisório entre a Santa Sé e Pequim sobre nomeações episcopais continua, relatos de organizações de direitos humanos apontam para pressões crescentes, incluindo detenções arbitrárias, vigilância e restrições a atividades pastorais, afetando tanto comunidades registradas quanto não registradas pelo governo comunista.
Com informações Asianews





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