Cardeal Müller critica “catolicismo woke” na Alemanha e defende retorno à evangelização
O cardeal sustenta que o contínuo declínio na prática religiosa, nas vocações sacerdotais e na participação dos fiéis demonstra que as adaptações promovidas nas últimas décadas não trouxeram a renovação esperada.

Foto: Gerhard Cardinal Müller/ Facebook
Redação (26/07/2026 16:18, Gaudium Press) Em entrevista exclusiva ao The Catholic Herald, o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fez uma ampla análise dos primeiros meses do pontificado de Leão XIV, elogiando a retomada dos consistórios regulares e reiterando fortes reservas em relação ao chamado Caminho Sinodal alemão. Suas declarações oferecem um retrato do debate que continua a marcar a vida da Igreja na Europa.
Para o cardeal, a decisão de Leão XIV de reunir periodicamente o Colégio Cardinalício representa a recuperação de uma prática essencial para a comunhão e o governo da Igreja. Durante o pontificado de Francisco, a realização pouco frequente desses encontros fez com que muitos cardeais chegassem ao conclave de 2025 sem sequer se conhecerem pessoalmente, situação que evidenciou a necessidade de maior convivência e diálogo entre os colaboradores mais próximos do Papa.
Segundo Müller, os consistórios não devem ser vistos apenas como reuniões administrativas, mas como uma oportunidade para que cardeais de diferentes continentes compartilhem as realidades de suas Igrejas locais e auxiliem o Santo Padre no discernimento dos grandes desafios pastorais. Em sua avaliação, fortalecer a colegialidade não significa enfraquecer a autoridade do Papa, mas exercê-la de forma mais ampla e participativa.
Ao comentar a situação da Igreja na Alemanha, entretanto, o tom tornou-se bastante mais crítico. Müller voltou a afirmar que parte da liderança eclesiástica alemã estaria excessivamente influenciada pelas correntes culturais contemporâneas. Em sua opinião, algumas propostas do Caminho Sinodal procuram adaptar a doutrina às exigências da sociedade moderna, quando a missão da Igreja deveria ser justamente anunciar o Evangelho em sua integridade.
O purpurado rejeita ainda a ideia de que a crise do catolicismo alemão seja consequência de um excesso de fidelidade doutrinal; pelo contrário, ele sustenta que o contínuo declínio na prática religiosa, nas vocações sacerdotais e na participação dos fiéis demonstra que as adaptações promovidas nas últimas décadas não trouxeram a renovação esperada. Em síntese, o cardeal argumenta que uma Igreja mais alinhada às tendências culturais não se tornou, por isso, mais atraente nem mais fecunda.
Para Müller, toda verdadeira reforma da Igreja deve começar pela conversão pessoal, pela evangelização e pela redescoberta da identidade cristã, e não por mudanças estruturais ou administrativas. Reformas organizacionais podem ser úteis, afirma, mas jamais substituem a missão fundamental de conduzir as pessoas ao encontro com Cristo.
As declarações do cardeal revelam também um apoio prudente ao início do pontificado de Leão XIV. Sem abandonar suas conhecidas posições doutrinais, Müller considera positiva a disposição do novo Papa em ouvir os cardeais e em restaurar espaços permanentes de diálogo, vendo nisso um importante instrumento para fortalecer a unidade da Igreja universal.
A entrevista publicada pelo The Catholic Herald mostra que, embora o novo pontificado procure favorecer um clima de maior comunhão entre os pastores da Igreja, permanecem abertas importantes discussões sobre a melhor resposta aos desafios da secularização. Ao mesmo tempo, evidencia que vozes como a de Gerhard Müller continuam a exercer significativa influência no debate teológico contemporâneo e reforçam que, para uma parte expressiva da hierarquia, o futuro da Igreja na Europa dependerá menos da adaptação às correntes ideológicas do momento e mais da redescoberta da missão evangelizadora que sempre caracterizou o catolicismo.
Por Rafael Ribeiro





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