Claude Lorrain, pintor do Sol
Além de temas religiosos, a História da Igreja precisa tratar também da arte, a qual pode glorificar ou ofender a Deus, bem como contribuir para a salvação ou perdição das almas.

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Redação (24/07/2026 08:49, Gaudium Press) A verdadeira arte deve alimentar o senso do maravilhoso, que “possui profundo vínculo com o amor a Deus, pois se trata de um meio superiormente apropriado para conduzir nossa alma ao desejo das grandezas divinas.
“Noutras palavras, Deus criou maravilhas para elevar o homem até Ele. Por exemplo, ao contemplarmos um lindo pôr do sol, é-nos dada a oportunidade de louvar de modo especial ao Criador. Razão pela qual um São Francisco de Assis cantou o “irmão sol”: porque é maravilhoso, e na sua maravilha ele ergue o coração humano até o Eterno, mais do que o poderia fazer, digamos, um grão de poeira reluzente ao brilho do mesmo sol.
“O maravilhoso é a arte produzida por Deus para externar a sua própria magnitude aos nossos olhos.
“Acontece, porém, que o nosso maravilhamento não incide apenas sobre as belezas saídas diretamente das mãos do Onipotente, mas também sobre aquelas engendradas pelo próprio homem”.[1]
Houve no século XVII dois pintores que, em suas obras, exprimiram eximiamente o belo, ajudando as pessoas a melhor conhecer e amar a Deus e, dessa forma, atuaram em favor da Contra-Revolução: Claude Lorrain e Zurbarán.
Claude Lorrain
Claude Gellée nasceu em 1600, numa cidade da Lorena – Leste da França – e por essa razão passou a ser conhecido como Claude Lorrain. Filho de camponeses, ficou órfão aos 12 anos e mudou-se para Roma a fim de contactar artistas que o ensinassem a pintar.
Dotado de grande dom pictórico, seus quadros alcançaram tanto sucesso que o Papa Urbano VIII adquiriu quatro deles para ornar sua residência. E o Rei da Espanha, Felipe IV, encomendou-lhe diversas obras.
Durante sua vida, ele pintou 200 quadros, que eram comprados por membros do alto clero e da nobreza. Tornou-se famoso na França, Espanha, Holanda e, sobretudo, na Inglaterra. Levava uma vida modesta e ajudava com generosidade os necessitados. Pessoas que conviveram com Lorrain afirmaram que ele era de caráter sereno, gentil para com seus alunos e muito dedicado ao trabalho.
Morreu na sua residência em Roma, em 1682, e foi sepultado na Igreja da Santíssima Trinità dei Monti.[2]
Estilo diáfano, encantador
Sintetizamos a seguir comentários feitos por Dr. Plinio Corrêa de Oliveira sobre esse assunto.
Depois do Beato Fra Angélico e de Zurbarán, o pintor cujas obras mais o impressionaram foi Claude Lorrain. “Seu estilo é diáfano, encantador, e revela uma habilidade única de reproduzir em suas telas aquilo sem o que — no dizer de um poeta francês[3] — as coisas não seriam senão o que elas são: a luz do sol.
“Lorrain é o pintor do sol. Seus quadros são fantasias em torno do astro diurno, que ele se compraz em representar na sua beleza plena, esplendorosa e régia, projetando a feeria dessa luz sobre naturezas e cenários os quais, sob a ação dela, parecem se transformar em imensas e suntuosas cortes.
“Os quadros de Claude Lorrain são quase uma previsão do Céu Empíreo.”
Seguindo a opinião do grande teólogo flamengo Cornélio a Lápide, Dr. Plinio afirma: “além do Céu dos Céus, onde veremos a Deus face a face, há um Céu material, de magnificência indizível, no qual os corpos dos justos, após a ressurreição dos mortos, poderão desfrutar uma eternidade feliz”[4].
Transmitiu algo de celestial nas suas obras
“Sua especialidade é pintar muros velhos, leprosos, escalavrados, que perderam pedaços de reboco e os tijolos se tornaram aparentes, sobre os quais, porém, bate um sol magnífico. E o muro, feíssimo, fica agradável de ver e contemplar.
“Isso nos evoca a ação da graça divina, que é, digamos, a tinta celestial que Nosso Senhor utiliza, como se fosse um infinito Claude Lorrain da Criação. O genial talento do pintor francês não foi senão pálida e pequena representação das perfeições incomensuráveis de Deus no que diz respeito a esta forma de talento.
“Visto à luz da graça concedida por Deus, tudo o que é árido e difícil se torna belo.”[5]
“O melhor de Lorrain está no fato de ele pintar tudo de uma terra concebida como se fosse um paraíso terrestre. Quer dizer, a luz saída de sua paleta confere um aspecto paradisíaco ao mundo, à vida terrena e, nessa perspectiva, desperta no homem um certo desejo de uma ordem de coisas que esteja acima desta palpável e temporal que encontramos todos os dias.”
“Assim como Fra Angélico soube dar uma impressão de sobrenatural nas faces de suas personagens, Claude Lorrain transmitiu algo de celestial nas suas obras”.[6]
“Nesta época em que vivemos, de “poluição do ar, da mente, do senso estético, os quadros de Claude Lorrain apresentam qualquer coisa de muito formativo neste sentido, com as restrições que se devem fazer às coisas do Ancien Régime”.[7]
“Criando lugares tão magníficos, Deus quis despertar em nossas almas o senso do maravilhoso que repousa no mais profundo do nosso ser, porque, depois de ter pensado e cogitado em todas as belezas existentes na Terra, a alma humana fica com certa intuição e desejo de algo superior que contém uma beleza e perfeição maiores, uma verdade mais profunda e uma excelência mais magnífica.”[8]
Zurbarán, pintor do Rei da Espanha Felipe IV
Francisco de Zurbarán nasceu em 1598, numa localidade de Badajoz – Sudoeste da Espanha, próxima à fronteira com Portugal.
Especializou-se em pintar figuras de santos e episódios da História Sagrada. Mudou-se para Sevilha, pois recebeu muitos pedidos dessa cidade, na qual existiam grande número de mosteiros masculinos e conventos femininos.
Felipe IV, Rei da Espanha, o apreciava muitíssimo e encomendou-lhe diversos quadros para seu palácio. E chegou inclusive a designá-lo: “Pintor do rei, rei dos pintores”.
A pintura “Apoteose de São Tomás de Aquino”, que se encontra no Museu de Belas Artes de Sevilha, é considerada sua obra prima.
Sexagenário, transferiu-se para Madri, onde continuou a pintar, e faleceu em 1664, aos 66 anos de idade.
No mundo atual, o feio e até o hediondo vai imperando nas pessoas, nos ambientes e em todos os campos da atividade humana. Roguemos a Nossa Senhora a graça de execrar essa má tendência e amar o maravilhoso, a fim de nos prepararmos para o Céu.
Por Paulo Francisco Martos
Noções de História da Igreja
[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Maravilhosa “neta” do Criador. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano IX, n. 100 (julho 2006), p. 67 e 69.
[2] Cf. BLUM, André. Les Eaux-fortes de Claude Gellée dit Le Lorrain. Paris: A. Morancé, 1923.
[3] ROSTAND, Edmond. Chantecler. Paris: E. Fasquelle, 1910, p. 28.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. E seremos repletos de grandeza... In Dr. Plinio. Ano V, n. 49 (abril 2002), p. 14 e 16.
[5] Idem. Feerias de sol, belezas de Deus. Ano III, n. 22 (janeiro 2000), p. 33-34.
[6] Idem. Percepção do sobrenatural. Ano X, n. 116 (novembro 2007), p. 33.
[7] Idem. À procura do belo e do superbelo. Ano XXIV, n. 279 (junho 2021), p. 32.
[8] Idem. Arte penetrada de senso do maravilhoso. Ano XXIV, n. 280 (julho 2021), p. 31.






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