“Outra seita protestante”? Bispo americano eleva o tom contra a FSSPX e expõe o tamanho da ruptura
O bispo Thomas Paprocki, de Springfield, no estado americano de Illinois, declarou que a FSSPX tornou-se “basicamente outra seita protestante”, por rejeitar a autoridade do Papa e os ensinamentos doutrinais do Concílio Vaticano II.

Foto: Bishop Thomas John Paprocki/ Facebook
Redação (24/07/2026 09:24, Gaudium Press) As consequências das sagrações episcopais realizadas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) no dia 1º de julho continuam repercutindo na Igreja. Em reportagem publicada pelo The Catholic Herald, o bispo Thomas John Paprocki, de Springfield, no estado americano de Illinois, fez a declaração mais contundente de um bispo em atividade desde o início da recente crise: para ele, a FSSPX tornou-se “basicamente outra seita protestante”, por rejeitar a autoridade do Papa e os ensinamentos doutrinais do Concílio Vaticano II.
A afirmação chama atenção justamente porque não parte de um bispo identificado com correntes progressistas. Pelo contrário. Paprocki construiu sua reputação como um dos prelados mais conservadores do episcopado norte-americano. É conhecido por sua firme defesa da moral católica, pela oposição ao aborto, à ideologia de gênero, às agendas LGBT e até às imposições relacionadas às vacinas durante a pandemia. Em praticamente todos esses temas, suas posições costumam coincidir com aquelas defendidas pela própria Fraternidade São Pio X. Justamente por isso, sua crítica possui um peso particular: ela não nasce de uma divergência ideológica, mas da convicção de que a ruptura provocada pelas recentes sagrações atingiu um ponto sem precedentes.
Segundo o bispo, o problema jamais foi a celebração da Missa Tradicional em latim. Essa distinção merece destaque, pois o debate público frequentemente reduz toda a questão litúrgica a uma disputa entre rito antigo e rito novo. Paprocki rejeita essa interpretação e ressalta que a raiz da crise está na rejeição ao Concílio Vaticano II e, sobretudo, na recusa em obedecer ao Romano Pontífice. Ao comentar as sagrações episcopais realizadas sem mandato pontifício, ele foi direto: “católicos fiéis não deveriam participar de missas da FSSPX”. Embora reconheça que a simples participação não implique excomunhão automática, comparou essa atitude a “brincar com fogo”.
O bispo também sustenta que confissões e casamentos celebrados pela Fraternidade seriam inválidos. Trata-se, porém, de um ponto que permanece objeto de intenso debate entre canonistas. Durante o pontificado do Papa Francisco, a Santa Sé concedeu expressamente aos sacerdotes da FSSPX faculdades para absolver validamente no Sacramento da Penitência e estabeleceu mecanismos para a assistência válida aos matrimônios. Muitos especialistas sustentam que tais concessões continuam em vigor até que o Papa Leão XIV determine o contrário — algo que, até o momento, não aconteceu. Isso demonstra que a situação canônica da Fraternidade é mais complexa do que muitas declarações públicas deixam transparecer.
A expressão utilizada por Paprocki — “outra seita protestante” — certamente produzirá forte repercussão. Historicamente, a comparação com o protestantismo sempre foi utilizada para descrever grupos que colocam sua interpretação particular acima da autoridade da Igreja. Na avaliação do bispo americano, ao considerar que o Papa está errado e que a própria Fraternidade possui a interpretação correta da fé, a FSSPX acabaria reproduzindo precisamente esse mecanismo, substituindo o magistério vivo da Igreja pelo próprio juízo.
A Fraternidade, naturalmente, rejeita essa caracterização. Em documento publicado após as sagrações, reafirmou permanecer plenamente católica, frisando que seus sacerdotes e bispos administram os sacramentos válida e licitamente e que jamais rompeu com a Igreja. Ao mesmo tempo, um detalhe destacado pelo The Catholic Herald merece atenção: diferentemente do que ocorreu após as sagrações de 1988 realizadas por Dom Marcel Lefebvre, desta vez a própria FSSPX apresentou recurso canônico contra o decreto de excomunhão dos seis novos bispos.
Esse movimento possui relevância jurídica e eclesiológica. Em 1988, Dom Lefebvre sustentou que a pena jamais existira, invocando o estado de necessidade previsto pelo Código de Direito Canônico. Agora, ao recorrer formalmente às instâncias jurídicas da Santa Sé, a Fraternidade parece reconhecer, ao menos implicitamente, a competência da autoridade romana para julgar o caso. Ao mesmo tempo, continua afirmando que as excomunhões seriam injustas e inválidas. Caso essa permaneça sendo sua linha argumentativa, dificilmente Roma encontrará fundamentos para rever as penas, já que qualquer eventual levantamento da excomunhão pressupõe, em regra, algum grau de reconhecimento da legitimidade da autoridade que a impôs.
Forma-se, assim, um impasse que vai muito além da disciplina canônica. De um lado, a Santa Sé dificilmente abrirá mão da exigência fundamental de obediência ao Sucessor de Pedro; de outro, a Fraternidade mantém que age em estado de necessidade para preservar a Tradição da Igreja — argumento utilizado desde os tempos de Dom Marcel Lefebvre e que permanece no centro de sua autocompreensão.
As declarações de Thomas Paprocki indicam que cresce dentro do episcopado uma disposição cada vez menor para tratar a atual situação como uma simples irregularidade canônica. O vocabulário empregado já não é apenas jurídico, mas claramente eclesiológico: fala-se em rejeição ao Concílio Vaticano II, ruptura da comunhão e até em uma aproximação prática com a lógica que marcou a Reforma Protestante.
A reconciliação, que durante anos pareceu possível, tornou-se hoje muito mais difícil. O grande desafio para o Papa Leão XIV talvez já não seja apenas resolver uma questão disciplinar, mas reconstruir a confiança entre Roma e um grupo que continua a se declarar plenamente católico, enquanto uma parcela crescente da hierarquia passa a enxergá-lo como uma comunidade que, na prática, percorre um caminho cada vez mais distante da plena comunhão com a Igreja.
Por Rafael Ribeiro





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