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Carta da advogada de vítimas a Fernández pressiona Vaticano por transparência no caso Rupnik

Leão XIV herdou um dos processos mais delicados do pontificado anterior. A forma como esse julgamento será conduzido provavelmente marcará a percepção internacional sobre seu compromisso com a transparência administrativa e com a proteção das vítimas de abusos.

Obra de Rupnik desaparece de site do Vaticano sinal de mudanca etica ou apenas estetica 2

Redação (23/07/2026 08:40, Gaudium Press) O novo capítulo do caso do Pe. Marko Ivan Rupnik mostra que, mesmo após a mudança de pontificado, a principal ferida permanece aberta: a falta de transparência. Uma reportagem do Crux Now revela que cinco das mulheres que acusam o ex-jesuíta de abusos sexuais, espirituais e psicológicos continuam sem receber informações básicas sobre o andamento do processo canônico instaurado no Vaticano. Mais do que uma disputa jurídica, trata-se de um teste decisivo para a credibilidade da reforma da justiça eclesiástica prometida nos últimos anos.

A advogada Laura Sgrò, uma das mais conhecidas canonistas italianas e representante de cinco das supostas vítimas, enviou uma carta ao Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, denunciando aquilo que considera uma sequência de irregularidades processuais e cobrando esclarecimentos sobre o julgamento. Segundo Laura Sgrò, não existe confirmação oficial de que o processo esteja efetivamente em andamento. As mulheres que ela representa afirmam não terem sido convocadas para depor, desconhecem a composição do colégio de juízes e sequer receberam resposta ao pedido de reconhecimento formal como partes lesadas no processo.

São questionamentos elementares em qualquer procedimento judicial. Quando nem essas respostas chegam, o sentimento de abandono torna-se inevitável.

O caso Rupnik há muito ultrapassou a figura do sacerdote esloveno. Ele se tornou símbolo de uma cultura institucional que, por décadas, protegeu personalidades influentes enquanto as vítimas aguardavam por reconhecimento. As acusações, que remontam aos anos 1990, envolvem dezenas de religiosas que relatam abusos de natureza sexual, psicológica e espiritual durante aproximadamente três décadas.

A situação tornou-se ainda mais escandalosa quando veio à tona que Rupnik havia sido excomungado secretamente em 2020 pelo delito de absolver uma cúmplice em pecado contra o sexto mandamento — pena posteriormente levantada em tempo recorde — ao mesmo tempo em que continuava recebendo importantes missões da Santa Sé, incluindo a pregação dos exercícios espirituais da Cúria Romana.

Somente após intensa pressão da imprensa internacional e de diversos setores da Igreja é que o Papa Francisco decidiu, em 2023, levantar a prescrição das acusações mais graves e autorizar um novo julgamento.

Quando Leão XIV assumiu o pontificado, muitos esperavam que o caso avançasse de maneira mais célere. O novo Papa sempre manteve um discurso equilibrado: reconhece o sofrimento das vítimas, mas defende a preservação dos direitos de defesa do acusado e a presunção de inocência. Trata-se de uma posição juridicamente correta e coerente com a tradição canônica.

O problema, entretanto, parece não ser a duração do processo em si, mas a absoluta falta de comunicação sobre ele.

É perfeitamente possível que um processo complexo leve anos. O próprio Papa recordou que também os tribunais civis frequentemente funcionam em ritmo lento. Contudo, uma coisa é a demora; outra, muito diferente, é o silêncio institucional. Quando nem mesmo as pessoas que denunciaram os fatos sabem se o julgamento começou ou em que fase ele se encontra, a impressão transmitida é a de desorganização ou, pior, de falta de vontade política para enfrentar o caso.

Esse aspecto merece atenção especial porque a credibilidade da justiça eclesiástica não depende apenas da sentença final. Ela depende igualmente da confiança no procedimento.

A própria Laura Sgrò afirma, em sua carta ao cardeal Fernández, que suas clientes não pretendem abandonar a busca por justiça. Essa frase talvez seja o elemento mais importante de toda a reportagem. Depois de mais de trinta anos, essas mulheres continuam insistindo para serem ouvidas. Não pedem condenações antecipadas nem decisões midiáticas. Pedem apenas aquilo que qualquer sistema jurídico sério deveria oferecer: informação, participação e respeito.

Outro detalhe significativo é a comunicação vaticana. O Crux Now informa que procurou tanto o arcebispo John Kennedy, responsável pela seção disciplinar do Dicastério para a Doutrina da Fé, quanto Matteo Bruni, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé. Nenhum deles respondeu antes da publicação da reportagem. Somente ontem  diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, se pronunciou “a respeito de algumas informações divulgadas pela mídia nos últimos dias”.

O silêncio talvez seja compreensível sob o ponto de vista jurídico. Processos penais canônicos normalmente correm sob reserva. Entretanto, quando rumores de uma possível absolvição começam a circular internacionalmente — rumores que permanecem sem confirmação independente e que tiveram origem em informações divulgadas inicialmente pelo portal italiano Messa in Latino — a ausência de qualquer esclarecimento oficial acaba alimentando especulações ainda maiores.

Esse é precisamente o paradoxo que o Vaticano enfrenta. Na tentativa de preservar a discrição do processo, acaba permitindo que versões não confirmadas ocupem o espaço deixado pela comunicação institucional.

Leão XIV herdou um dos processos mais delicados do pontificado anterior. A forma como esse julgamento será conduzido provavelmente marcará a percepção internacional sobre seu compromisso com a transparência administrativa e com a proteção das vítimas de abusos.

Independentemente do resultado final — absolvição, condenação ou arquivamento — a Igreja precisará convencer os fiéis de que a decisão resultou de um processo justo, tecnicamente sólido e suficientemente transparente para inspirar confiança.

Porque, no fim das contas, a questão já deixou de ser apenas Marko Rupnik. O verdadeiro julgamento em andamento é o da própria credibilidade da justiça canônica. E, nesse tribunal, o silêncio dificilmente favorece a Igreja.

Por Rafael Ribeiro

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