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Santo Elias, profeta

Santo Elias Tesbita, profeta, lutou contra a corrupção e a idolatria através de portentosos milagres. Desafiou os sacerdotes de Baal, em nome do único Deus verdadeiro. Foi arrebatado num carro de fogo. É considerado o fundador da Ordem Carmelita. A Igreja celebra sua memória no dia 20 de julho.

Foto: Elizabeth Tran

Foto: Elizabeth Tran

Redação (19/07/2026 20:10, Gaudium Press) Quando Deus quer falar no curso da História, Ele Se comunica aos seus mais íntimos amigos, os profetas, arautos inconfundíveis de sua vontade. E como nem sempre a vontade dos homens coincide com a divina – para dizer pouco –, precisam lutar contra toda classe de respeito humano e mediocridade, enfrentando o ódio de uma cidade ou de um povo, num tempo preciso, e convertendo-se numa tocha de fidelidade e de martírio, em que a mecha incendiada é ele mesmo.

É, pois, com um brado de fidelidade que Elias irrompe na História. Na História decadente do povo eleito…

Israel passava por sérias dificuldades. De instabilidade em instabilidade, o reino chegou às mãos de um homem inseguro e infiel, a quem a Escritura acusa de ser pior ainda que todos os seus predecessores (cf. I Rs 16, 30): Acab. Como não bastasse ter desposado uma mulher pagã – delito proibido pelo próprio Deus (cf. Dt 7, 1-4), dado o perigo de idolatria – ainda introduziu o culto a Baal no templo que mandou construir: “Com efeito, não houve ninguém que praticasse tanto o mal aos olhos do Senhor como Acab, excitado como era por sua mulher Jezabel” (I Rs 21, 25). Um tremendo castigo assolava a Terra Prometida por causa do pecado de seus habitantes.

O único remédio para a situação era amargo, mas Elias não temeu administrá-lo, e na sua qualidade de homem de Deus ordenou às nuvens que não trouxessem chuva: “Com a palavra do Senhor ele fechou o céu, e dele fez cair fogo por três vezes” (Eclo 48, 3). Era a mais condigna das correções, conforme comenta Santo Ambrósio, que nela vê um “justo castigo para reprimir de modo adequado a falta de temperança, de maneira que o céu se fechasse para os ímpios que haviam manchado as coisas da terra”.

Foi nesse ínterim que Elias, por ordem divina, chegou a Sarepta da Sidônia. Após submeter a viúva que o hospedara a uma tremenda prova de confiança – que chega ao cúmulo de ela ver seu filho morrer – opera a primeira ressurreição narrada nas Escrituras. Não consta que o profeta hesitasse em operar esse milagre, tanto mais que a sua oração, precedida de filial queixume, mais se assemelha a uma ordem dada a Deus do que a um contingente pedido: “Senhor, meu Deus, até a uma viúva, que me hospeda, quereis afligir, matando-lhe o filho? […] Rogo-Vos que a alma deste menino volte a ele” (I Rs 17, 20-21). O Senhor ouviu a oração de Elias, e o jovem recuperou a vida.

Increpador incomparável

A seca decretada pelo profeta alastrou-se por três longos anos (cf. I Rs 18, 1), e só então o Altíssimo ordenou que ele se apresentasse a Acab, quiçá na esperança de uma retratação por parte do ímpio monarca… Longe disso, o rei o acusou de ser a causa dos problemas que atormentavam o país: “Estás aí, flagelo de Israel!” (I Rs 18, 17). Elias, cuja diplomacia mais se assemelhava a um raio fulminante do que a um golpe de esgrima, o increpou convocando os profetas de Jezabel para um sacrifício no alto do Carmelo, a fim de deixar claro quem era o verdadeiro Deus.

Num instante, Acab reuniu todos os profetas de Baal no local determinado. Elias também compareceu. O resultado foi bastante sugestivo: oitocentos e cinquenta sacerdotes pagãos contra um único servidor de Javé. Por que incitar uma prova pública de quem era o verdadeiro Deus? Não evocaria certo orgulho e temeridade? Não seria mais prudente, mais diplomático, recolher-se numa caverna em oração, à espera de que a vingança divina visitasse aqueles ímpios? Não. Era necessário ao povo que claudicava dos dois pés (cf. I Rs 18, 21) conhecer a verdade e, mediante isso, seguir o caminho certo. Eis uma das características do profeta: distinguir a verdade do erro.

Rompendo o silêncio que cobria o Monte Carmelo, Elias propôs: “‘O deus que responder enviando fogo, é ele o Deus’. Todo o povo respondeu: ‘É boa a proposta’” (I Rs 18, 24).

Os sacerdotes de Baal rapidamente tomaram um novilho e, pela manhã, começaram a oração. Danças, cantos, súplicas… nada foi suficiente para acordar a divindade cananeia. Ao meio-dia, Elias pôs-se a escarnecer deles: “Gritai com mais força, pois – seguramente! – ele é deus; mas estará entretido em alguma conversa, ou ocupado, ou em viagem, ou estará dormindo… e isso o acordará” (I Rs 18, 27). Atingidos no amor-próprio e já um tanto inseguros quanto à veracidade de sua religião, retalharam-se com espadas e lanças, cobrindo-se de sangue para comover Baal. Em vão. Nada aconteceu…

“Aproximai-vos de mim” (I Rs 18, 30), exortou, por fim, Elias. Erigindo um altar ao Senhor, cavou uma vala em torno e fê-la inundar de água por três vezes, assim como o altar e o sacrifício. O povo acompanhava atônito. O profeta não precisava erguer os braços, nem tampouco um bastão. Quando muito elevou os olhos ao céu e rezou: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel, que eu sou vosso servo e que por vossa ordem fiz todas estas coisas. Ouvi-me, Senhor, ouvi-me, para que este povo reconheça que Vós, Senhor, sois Deus e que sois Vós que converteis os seus corações!” (I Rs 18, 36-37).

Imediatamente o fogo do Senhor desceu, consumindo, além da vítima, as pedras do altar e a água jazente em torno. O Senhor ouvira a prece do justo. Os baalitas gritaram. Elias rezou. E enquanto o povo adorava o verdadeiro Deus, o profeta ordenou: “Tomai agora os profetas de Baal. Não deixeis escapar um só deles! E eles os prenderam. Elias fê-los descer para perto da torrente do Quison e lá os degolou” (I Rs 18, 40).

O primeiro devoto de Maria

Terminada a cena, o homem de Deus recomendou que Acab comesse e bebesse, pois já ouvia “o ruído de uma grande chuva” (I Rs 18, 41). Subindo ao cimo do Monte Carmelo, prostrou-se em terra e, por sete vezes, enviou o seu servo para observar na direção do mar. Na sétima vez o servo exclamou: “Eis que sobe do mar uma pequena nuvem, do tamanho da palma da mão” (I Rs 18, 44). Elias mandou prevenir o rei que se apressasse para que a chuva não o detivesse pelo caminho. Acab, que já vira o fogo descer do céu pela palavra do profeta, partiu sem hesitar.

Os autores são concordes em relacionar a pequena nuvem, que anuncia uma tempestade torrencial, com o nascimento da Santíssima Virgem, a qual traria à terra um dilúvio de graças e o próprio Homem-Deus. Aquela era fruto de um castigo; esta, de um imenso perdão. Não deixa de ser simbólico que a pré-figura de Maria surja no horizonte logo após a derrota da idolatria. É quando a falsa religião sucumbe que Nossa Senhora reluz. Ou, quiçá, desfaz-se o império de Satanás tão só ao som dos passos d’Ela.

Após um ato heroico de fidelidade à verdadeira religião, Deus concede à História o maior prêmio até aquele momento: a promessa de uma Mãe para a humanidade órfã.

Depositário da fidelidade

Ora, retornando para sua casa, Acab nenhum desses fatos escondeu a Jezabel, a quem obedecia com verdadeira escravidão. Ela ferveu de raiva e enviou ao profeta a seguinte mensagem: “Que os deuses me tratem com o último rigor, se amanhã, a esta mesma hora, eu não fizer de tua vida o que fizeste da deles” (I Rs 19, 2). Elias teve medo e fugiu.

A quem Deus ama com predileção, prova de maneira especial em seu alicerce axiológico: a promessa do cumprimento da própria vocação, a certeza da vitória. Assim, permite, e até promove, aparentes desmentidos e fracassos na vida de seus eleitos. Não foi diferente com Elias. Ele, que enfrentara o ódio de uma nação inteira, que vingara a honra do Senhor no Carmelo, que ainda faria descer fogo do céu sobre os soldados de Ocozias (cf. II Rs 1, 10-12), que representava a fidelidade inquebrantável… fugiu de uma única mulher.

Fatigado pela viagem e pela provação, Elias caiu desfalecido junto a um junípero: “Basta, Senhor – impetrou ele –, tirai-me a vida, porque não sou melhor do que meus pais” (I Rs 19, 4). Eis a grande perplexidade do profeta. Chamado a ser o varão de todas as fidelidades, sente, entretanto, as misérias do fracasso. E, nesse estado, adormeceu.

Em meio a pesado sono, um Anjo do Senhor deu-lhe por duas vezes um pão cozido, que lhe conferiu forças para caminhar quarenta dias e quarenta noites rumo ao Monte Horeb. Os comentaristas veem nesse misterioso alimento uma pré-figura da Eucaristia. Elias tornava-se assim o profeta dos dois maiores tesouros de Deus: Maria Santíssima e seu Divino Filho. Com efeito, não seria verdadeiro profeta da Mãe se não o fosse também do Filho.

O cume das montanhas sói representar, nas Sagradas Escrituras, o lugar da manifestação divina. Foi no alto do monte que Moisés recebeu a Lei (cf. Ex 19, 20); foi nas mesmas alturas que o Verbo Encarnado Se transfigurou (cf. Mt 17, 2).

Chegado Elias ao cimo do Horeb, o Senhor lhe ordenou que O esperasse na montanha. Furacões fenderam as rochas, terríveis tremores de terra se fizeram sentir e até o fogo marcou presença… mas o Todo-Poderoso não estava ali. Por fim, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Era o Deus de Israel que passava: “Que fazes aqui, Elias?” Diante de tal pergunta, o profeta respondeu com um brado que o imortalizará na História e cujo eco se prolongou nos lábios da humanidade, seja para os mais sinceros elogios, seja para as mais injustas antipatias: “Consumo-me de zelo pelo Senhor, Deus dos exércitos. Porque os israelitas abandonaram a vossa aliança, derrubaram os vossos altares e passaram os vossos profetas a fio de espada. Só eu fiquei e agora querem tirar-me a vida” (I Rs 19, 14).

Mais que um homem, um espírito

Elias havia levado a fidelidade ao Senhor a um tal apogeu que não mais era possível mantê-lo entre os seus. Não que o profeta temesse o povo. Este não era digno dele.

Retomando o Santo o caminho do deserto, Deus não o encaminhou a Israel, mas a Damasco. No percurso ungiu Eliseu como profeta em seu lugar: depositou sobre ele seu manto, e o novo discípulo, renunciando a tudo, o seguiu. É quando o Sol desponta que emite seus mais radiantes fulgores. Decerto, o encontro dos dois profetas foi um desses momentos que iluminaram o amanhecer de toda uma era histórica, e que serviria de paradigma de relacionamento entre fundador e discípulo, pai e filho até o fim do mundo. A missão terrena de Elias estava próxima do seu término.

Chegado o momento da partida, Eliseu, dirigindo-se àquele que já começava a chamar de pai, implorou o necessário para o cumprimento da própria vocação: uma “porção dobrada” (II Rs 2, 9) do espírito de Elias. E, enquanto conversavam, “um carro de fogo com cavalos de fogo” (II Rs 2, 11) os separou, levando o profeta ao céu num ígneo turbilhão.

Se na aurora manifestam-se os mais radiantes fulgores do Sol, é no ocaso que as nuvens se tingem de fogo. Foi num firmamento assim incendiado que Eliseu contemplou seu pai partir e sobre si mesmo descer a porção dobrada do espírito do mestre.

A história de Elias, muito longe de terminar, acabava de se imortalizar em Eliseu. Inaugurava-se o que se pode chamar de filão eliático, nobre estirpe dos profetas devotos de Maria Santíssima, cujos atos intrépidos e virtudes heroicas são imorredouros, já que participam da luz sobrenatural daquele que, outrora, foi o sol de Israel.

Por Rúben Manuel Cunha Guimarães

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho, julho 2026.

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