Gaudium news > Dois sermões inéditos de Santo Agostinho descobertos na Polônia

Dois sermões inéditos de Santo Agostinho descobertos na Polônia

Os historiadores estimam que Santo Agostinho tenha pregado cerca de 8 mil sermões ao longo de sua vida, dos quais apenas cerca de 500 chegaram até nós. Cada novo texto recuperado representa, portanto, uma contribuição preciosa para o aprofundamento do conhecimento de seu pensamento e de seu ministério pastoral.

Foto: Biblioteca da diocese de Pelplin/ Vatican News

Foto: Biblioteca da diocese de Pelplin/ Vatican News

Redação (11/07/2026 08:55, Gaudium Press) Uma descoberta extraordinária está animando o mundo da teologia, da filologia clássica e dos estudos patrísticos. Dois sermões até então desconhecidos de Santo Agostinho de Hipona (354-430), um dos maiores Padres da Igreja e Doutor da mesma, foram identificados em um manuscrito medieval do século XII conservado na Biblioteca Diocesana de Pelplin, no norte da Polônia.

O achado foi feito pelo professor Christian Tornau, especialista em latim da Universidade de Würzburg, na Alemanha. Em 2024, ele foi contatado pela Associação do Mosteiro de Bad Doberan (na Alemanha) para analisar um códice latino que pertenceu à abadia cisterciense de Bad Doberan e hoje está na Polônia, em um mosteiro filial. O manuscrito contém seis sermões atribuídos a Agostinho. Quatro já eram conhecidos dos pesquisadores, mas dois eram completamente inéditos.

O tema dos sermões: a necromante de Endor

Os dois sermões giram em torno de um episódio enigmático do Antigo Testamento: a história da necromante de Endor, narrada no 1º Livro de Samuel, capítulo 28. Pouco antes de uma batalha contra os filisteus, o rei Saul, desesperado porque Deus não responde mais às suas orações, disfarça-se e consulta uma mulher que invoca espíritos. Ela faz aparecer o espírito do profeta Samuel, que anuncia a derrota e a morte iminente de Saul.

Trata-se de uma passagem que sempre gerou debates teológicos, pois parece afirmar que evocar os mortos, embora proibido, é possível, e grandes exegetas da Antiguidade, como Orígenes, Eustáquio de Antioquia e Gregório de Nissa, já abordaram esse assunto. Talvez alguns copistas medievais tenham considerado pouco interessante uma análise homilética desse tema (que Agostinho, aliás, aborda no De diversis quaestionibus ad Simplicianum e no De octo Dulcitii quaestionibus).

Agostinho explora essas interpretações, apresentando as possibilidades aos fiéis sem impor uma resposta definitiva imediata — uma abordagem típica de seu estilo didático e retórico.

O primeiro sermão, pregado em um domingo, termina com a questão da teodiceia e as diferentes interpretações. O segundo, proferido na quarta-feira seguinte, aprofunda a análise. Agostinho dava tempo aos ouvintes para refletirem, demonstrando confiança na capacidade deles de lidar com questões complexas.

Autenticidade confirmada

Diante de casos históricos de textos falsamente atribuídos a Agostinho, Tornau agiu com cautela. Ele analisou os textos com o colega Clemens Weidmann e organizou um curso de verão em Viena, em 2025, com cerca de 20 especialistas em latim. O consenso foi unânime: o estilo, o humor, o conteúdo e o usus scribendi (modo de escrever) são autenticamente agostinianos.

O manuscrito do século XII é relativamente tardio para um texto de Agostinho. Os pesquisadores acreditam que ele pode ter sido copiado a partir de um exemplar mais antigo da abadia de Amelungsborn, na Baixa Saxônia, cuja biblioteca foi destruída durante a Guerra dos Trinta Anos. Uma edição crítica dos dois sermões, preparada em colaboração com o Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (CSEL), deve ser publicada ainda em 2026.

Importância da descoberta

Santo Agostinho pregou milhares de sermões ao longo de sua vida como bispo de Hipona (atual Argélia), mas apenas cerca de 500 chegaram até nós. Cada novo texto encontrado é um tesouro que enriquece nosso entendimento de sua teologia, especialmente sobre temas como graça, livre-arbítrio, o mistério da iniquidade e a ação de Deus na história.

Essa não é uma descoberta do porte das 30 homilias encontradas em Mainz (Alemanha), em 1990, mas representa um acréscimo valioso ao vasto corpus agostiniano. Como destacou o professor Tornau, esses sermões complementam a obra de um dos pensadores mais influentes da civilização ocidental, cujos escritos — como Confissões e A Cidade de Deus — continuam atuais.

Com informações Universität Würzburg

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas