Pe. Eusebio Francisco Kino: jesuíta que fundou missões no Arizona e norte do México
Eusebio Francisco Kino percorreu cerca de 30.000 quilômetros, fundou mais de trinta missões e deixou um legado que uniu fé, ciência e serviço aos povos indígenas.

Foto: Wikipedia
Redação (10/07/2026 08:43, Gaudium Press) Eusebio Francisco Kino é uma das figuras mais fascinantes da história da colonização no norte da antiga Nova Espanha. Jesuíta italiano, ele combinou fé, ciência e dedicação humanitária em mais de duas décadas de trabalho na região conhecida como Pimería Alta, que hoje abrange partes do norte de Sonora, no México, e do sul do Arizona, nos Estados Unidos. Missionário, cartógrafo, astrônomo, matemático e agricultor, Kino não apenas evangelizou povos indígenas, mas também promoveu o desenvolvimento agrícola, defendeu comunidades nativas e corrigiu erros geográficos.
Nascido em 10 de agosto de 1645, em Segno, no Tirol italiano (então parte do Sacro Império Romano-Germânico), Kino demonstrou desde cedo uma inteligência brilhante. Entrou na Companhia de Jesus em 1665, após uma grave doença que o marcou espiritualmente. Estudou em diversas universidades europeias, destacando-se em matemática, astronomia, geografia e cartografia. Chegou a ter a oportunidade de ocupar uma cátedra prestigiosa na Europa, mas renunciou a ela para seguir sua vocação missionária. Em 1681, embarcou para a Nova Espanha (atual México), chegando com o desejo de servir em terras distantes.
Primeiras missões e a chegada à Pimería Alta
Sua primeira grande missão foi na Baixa California, em 1683, como parte da expedição liderada por Isidro de Atondo y Antillón. O projeto enfrentou dificuldades extremas: seca prolongada, falta de recursos e condições hostis levaram ao abandono em 1685. Kino não se abateu. Em 1687, foi enviado à Pimería Alta, onde fundou a Missão de Nossa Senhora das Dores, sua principal base de operações. De lá, iniciou um trabalho missionário incansável que duraria até sua morte e que transformaria toda a região.
Nos 24 anos seguintes, Kino fundou ou fortaleceu cerca de 24 missões e capelas auxiliares, incluindo nomes icônicos como San Xavier del Bac (fundada em 1692, ainda ativa perto de Tucson), Tumacácori, San Ignacio, Magdalena, Caborca e Cocóspera. Ele viajou mais de 30.000 quilômetros a cavalo em cerca de 40 expedições, explorando rios como o Gila e o Colorado, e regiões montanhosas. Esse ritmo lhe rendeu o apelido carinhoso de “Padre a Cavalo”.
Contribuições além da fé: agricultura, ciência e diálogo
A atuação de Kino ia muito além da evangelização. Ele introduziu na região novos cultivos como trigo, cevada, milho, videiras e árvores frutíferas (maçãs, pêssegos, peras), além de gado, ovelhas, cabras e cavalos. As missões se tornaram centros autossustentáveis de produção agrícola e pecuária, ensinando técnicas europeias aos povos pimas (tohono o’odham), sobaipuris e outros grupos indígenas. Muitas comunidades indígenas aprenderam ofícios e formas de criar rebanhos, o que ajudou a diversificar sua economia.
Como cientista, Kino brilhou ao corrigir um dos maiores erros cartográficos da época: a crença de que a Califórnia era uma ilha. Por meio de expedições terrestres até o rio Colorado (notadamente em 1700-1702), ele comprovou que se tratava de uma península ligada ao continente. Seus mapas, publicados na Europa, foram os mais precisos da região por mais de 150 anos e influenciaram exploradores posteriores. Ele também nomeou diversos acidentes geográficos, como o rio Colorado.
Kino destacou-se pela abordagem respeitosa com os indígenas. Diferente de muitos missionários da época, ele não começava pregando de uma posição de autoridade, mas ouvia as preocupações das comunidades, participava de suas celebrações culturais (como danças e cantos) e usava mapas para dialogar. Construiu relações de confiança com líderes nativos, como o cacique Coro, e nunca sofreu atentados graves, algo raro na região conflituosa. Em 1695, durante uma revolta pima, interveio para promover a paz e defendeu os indígenas em Cidade do México contra acusações injustas, como o roubo de gado que ele mesmo havia introduzido.
Morte e legado duradouro

Em 15 de março de 1711, após inaugurar uma capela em Santa María Magdalena (atual Magdalena de Kino, Sonora), Kino faleceu enquanto descansava. Usava duas mantas indígenas como cama e a sela do cavalo como travesseiro — símbolo de sua vida simples e austera. Seu corpo foi sepultado ali e redescoberto em 1966.
Seu trabalho influenciou gerações posteriores. Após a expulsão dos jesuítas em 1767, o franciscano Junípero Serra deu continuidade à evangelização na Califórnia. Hoje, Kino é venerado tanto no México quanto nos EUA, sendo lembrado como um homem que soube integrar fé, ciência e serviço. Desde 1965, uma estátua sua representa o Arizona no National Statuary Hall do Capitólio em Washington. A Igreja Católica declarou-o Venerável, avançando seu processo de beatificação.
Mais de três séculos depois, a herança de Pe. Kino permanece viva na arquitetura das missões (muitas delas Patrimônio Histórico), na agricultura da região e na memória binacional. Ele representa um modelo de evangelização que integrava fé, conhecimento científico, desenvolvimento econômico e respeito intercultural.





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