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Noruega: Igreja Católica avança com o processo de canonização de Sigrid Undset, Nobel de Literatura

“Ela é muito mais do que uma escritora e ganhadora do Prêmio Nobel. Para nós, ela é um exemplo de fé cristã, de uma vida vivida com virtude e da busca pela santidade”, declarou o bispo Fredrik Hansen.

Foto: Wikipedia

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Redação (08/07/2026 09:30, Gaudium Press) Em um marco histórico para a Igreja na Noruega, o bispo Fredrik Hansen, de Oslo, anunciou nesta quarta-feira, dia 8 de julho, o início dos trabalhos preparatórios para a abertura da causa de beatificação e possível canonização de Sigrid Undset, uma das maiores escritoras do século XX e figura central na literatura e na fé católica norueguesa.

O anúncio ocorreu durante a Missa celebrada nas ruínas do mosteiro da ilha de Selja, local de grande importância na história cristã da Noruega e centro de veneração de Santa Sunniva, a primeira santa do país. A data coincidiu com o centenário da visita de Undset ao local, considerado por muitos o berço do cristianismo norueguês.

“Ela demonstrou uma preocupação constante e prática com os pobres. Ela se dedicou de corpo e alma ao cuidado da filha e ao compromisso com a vida e com a santidade da vida. Por meio de seus muitos livros, ela moldou a vida de inúmeros fiéis, inspirou-os a viver em Cristo e prestou testemunho dos nossos santos medievais”, ressaltou Dom Fredrik, explicando os motivos da iniciativa.

Se o processo chegar à canonização, Undset se tornaria a segunda mulher santa da Noruega, após Santa Sunniva, e a segunda laureada com o Nobel a ser elevada aos altares, depois de Santa Madre Teresa de Calcutá, agraciada com o Nobel da Paz em 1979.

Uma vida marcada pela fé, literatura e coragem

Sigrid Undset nasceu em 20 de maio de 1882, em Kalundborg, na Dinamarca, filha de um arqueólogo norueguês e uma mãe dinamarquesa. Mudou-se ainda criança para Kristiania (atual Oslo), onde cresceu em um ambiente familiar de inclinações ateias e secularizadas. Perdeu o pai aos 11 anos e, ainda jovem, trabalhou como secretária em uma empresa de engenharia para ajudar a sustentar a família.

Sua obra-prima, a trilogia Kristin Lavransdatter[1] (publicada entre 1920 e 1922), retrata com maestria a vida na Noruega medieval, explorando temas como amor, pecado, redenção, maternidade e espiritualidade. O romance histórico consolidou sua reputação internacional e contribuiu para que recebesse o Prêmio Nobel de Literatura em 1928, “principalmente por suas descrições impactantes da vida no Norte durante a Idade Média”.

Antes mesmo do Nobel, Undset já mergulhava no estudo do catolicismo medieval. Em 1º de novembro de 1924, aos 42 anos, foi recebida na Igreja Católica na Capela de São Torfino, em Hamar. A conversão causou grande escândalo em uma Noruega predominantemente luterana e secular, onde o catolicismo era visto com desconfiança por grande parte da intelectualidade. Quatro anos depois, tornou-se dominicana leiga (terciária).

Além de Kristin Lavransdatter, escreveu a tetralogia Olav Audunssøn (conhecida em inglês como The Master of Hestviken), romances contemporâneos e ensaios apologéticos, como os reunidos em Etapper (Stages on the Road). Sua última obra, uma biografia de Santa Catarina de Siena, foi publicada postumamente. Undset também cultivava jardins botânicos e demonstrava profundo apreço pela vida doméstica e pela maternidade (foi mãe dedicada, especialmente no cuidado com a filha com deficiência), conciliando-a com uma carreira literária de sucesso.

Resistência ao nazismo e exílio

Durante a invasão alemã da Noruega em 1940, Undset, viúva e mãe de três filhos (um deles com deficiência), fugiu para os Estados Unidos. De lá, tornou-se uma voz ativa contra o nazismo e em defesa da liberdade norueguesa, proferindo palestras e escrevendo artigos. Seus livros foram proibidos na Alemanha nazista. No exílio, viveu em Nova York, onde fez amizade com figuras como a escritora Willa Cather e a ativista Dorothy Day. Colaborou inclusive em iniciativas de preservação cultural com a primeira-dama Eleanor Roosevelt.

Sua oposição firme ao totalitarismo, combinada com a defesa da vida humana, da dignidade dos pobres e da fé católica em tempos turbulentos, foi destacada pelo bispo Hansen.

Próximos passos

O bispo Erik Varden, monge trapista e responsável pelas prelazias territoriais de Trondheim e Tromsø, saudou a notícia. Ele observou que Undset provavelmente reagiria com humor e incredulidade à ideia de santidade, mas que sua vida revela virtudes heroicas: lutas reais, compreensão profunda do sofrimento humano e uma devoção “sem sentimentalismo”. Varden destacou sua relevância para os cristãos de hoje como intelectual católica engajada nos desafios morais do século XX, mãe dedicada e mulher de oração. Há relatos crescentes de devoção espontânea a ela em diferentes partes do mundo.

O processo de canonização começa formalmente na diocese onde a pessoa faleceu — no caso, a Diocese de Oslo, já que Undset morreu em Lillehammer, em 10 de junho de 1949, aos 67 anos. Após a abertura oficial da causa, ela receberá o título de “Serva de Deus”. Seguem-se investigações sobre sua vida, escritos, virtudes e fama de santidade. Os resultados vão para o Dicastério para as Causas dos Santos, no Vaticano. A declaração de “Venerável” depende do reconhecimento de virtudes heroicas; a beatificação, de um milagre; e a canonização, geralmente de um segundo milagre.

Com esse primeiro passo dado pelo bispo Hansen, após estudos e consultas, a figura de Sigrid Undset ganha novo destaque. Sua trajetória une genialidade literária, profundidade intelectual, testemunho público corajoso e uma fé católica vivida com integridade em meio às crises do século XX.

Com informações The Pillar


[1] Em português A Guirlanda, A Esposa e A Cruz.

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