Dom Georg Gänswein critica a FSSPX e defende maior flexibilidade à missa tradicional em latim
Bento XVI tentou, em vão, uma reconciliação em 2009, “mas agora dá para ver que eles estão ainda mais duros e obstinados; é incrível, é realmente terrível”, destacou o Arcebispo Georg Gänswein.
Foto: Vatican News
Redação (06/07/2026 15:29, Gaudium Press) Em uma entrevista ao Corriere della Sera, o Arcebispo Georg Gänswein, que foi secretário particular de Bento XVI por muitos anos e hoje atua como Núncio Apostólico nos Países Bálticos, fez uma avaliação direta e sem rodeios sobre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), o grupo tradicionalista fundado por Dom Marcel Lefebvre. Segundo ele, setores mais radicais da Fraternidade rejeitaram as ofertas de reconciliação com Roma e se tornaram ainda mais fechados do que na época de Bento XVI.
Gänswein expressou decepção com o fracasso dos esforços de Bento XVI para restaurar a plena comunhão. O Papa alemão dedicou anos a essa causa, convencido de que a unidade no altar era vital para a vida da Igreja. Ele via a divisão como uma ferida aberta que precisava ser curada com paciência pastoral.
As declarações ganharam força após a leitura pública, no seminário de Écône (Suíça), de um texto que acusa as autoridades eclesiais desde o Concílio Vaticano II de estarem animadas por um espírito contrário à fé e agiram contra a Sagrada Tradição. Para Gänswein, esse tipo de posicionamento revela uma visão distorcida da Tradição Católica. Muitos na FSSPX, segundo ele, parecem acreditar que a Tradição terminou com Pio XII (falecido em 1958) e interpretam tudo o que veio depois, especialmente o Concílio, como erro ou ruptura. Essa rigidez deixa pouco espaço para a continuidade legítima do magistério e da vida eclesial.
Os esforços de Bento XVI
Bento XVI “queria ser pontífice, literalmente: um construtor de pontes”, e um pai espiritual, procurando paz em vez da divisão, “uma mão estendida que, infelizmente, eles não aceitaram”. Eles “são como os protestantes de cinco séculos atrás; o cardeal Müller está certo”, ressaltou o arcebispo.
Um gesto marcante de Bento XVI foi a revogação, em 2009, da excomunhão dos quatro bispos ordenados por Lefebvre em 1988. O objetivo era criar condições para novos diálogos e reconciliação. No entanto, Gänswein avalia que correntes radicais dentro da Fraternidade resistiram desde o início e que, com o tempo, o grupo se afastou ainda mais de Roma. Embora a graça possa operar mudanças, os sinais atuais apontam para um crescente distanciamento da unidade desejada tanto por Bento XVI quanto pelo Papa Leão XIV.
Não se trata apenas de liturgia
Gänswein insiste que o problema com a FSSPX vai muito além da forma da Missa. Existem comunidades plenamente unidas a Roma que celebram a Missa Tridentina (forma extraordinária do Rito Romano) sem conflito, como a Fraternidade Sacerdotal São Pedro (FSSP). Fundada em 1988 por sacerdotes que deixaram a FSSPX, a FSSP segue o Missal de 1962, forma seminaristas e atua em diversas dioceses mantendo a obediência ao Papa. Isso demonstra que o apego ao rito antigo não implica necessariamente rejeição à autoridade papal ou ao Concílio.
Além disso, o próprio Concílio Vaticano II não aboliu o latim — a Constituição Sacrosanctum Concilium (assinada também por Lefebvre) previa o uso das línguas vernáculas, mas manteve o latim como língua oficial. O arcebispo francês participou do Concílio como padre conciliar e assinou o documento litúrgico.
Crítica ao Traditionis Custodes
Gänswein também criticou a política atual do Vaticano em relação à Missa em latim. Ele defende uma abordagem mais flexível, generosa e paternal para os fiéis e sacerdotes apegados ao Missal de 1962. Ele acredita que tal medida não apenas eliminaria um ponto frequente de discórdia explorado pela FSSPX, mas também contribuiria para uma maior harmonia dentro da Igreja. Na visão dele, as restrições impostas pelo motu proprio Traditionis Custodes (2021), de Francisco, foram um erro que pode e deve ser corrigido.
O documento de Francisco revogou grande parte da liberdade concedida por Bento XVI no Summorum Pontificum (2007), que permitia a celebração da forma extraordinária sem autorização especial do bispo.
Gänswein rejeitou o argumento de que a liberalização da liturgia tradicional por Bento XVI tenha promovido, principalmente, a divisão dentro da Igreja. Gänswein argumenta que, apesar de alguns abusos pontuais, a experiência de mais de uma década mostrou frutos positivos. Muitos bispos, segundo ele, preferiam manter as aberturas em vez de impor restrições gerais. O princípio clássico se aplica: abusus non tollit usum (o abuso não elimina o uso legítimo).
Restaurar maior liberdade para a celebração da missa tradicional em latim ajudaria a recuperar a “paz litúrgica” que foi prejudicada, removendo um argumento frequentemente explorado pelos setores mais radicais da FSSPX.
Gänswein, com sua proximidade histórica com Bento XVI, lembra que a unidade exige fidelidade à autoridade da Igreja, mas também abertura pastoral à diversidade litúrgica legítima. A reconciliação ainda é possível, mas depende de diálogo honesto sobre autoridade, doutrina e comunhão — acompanhado de um ambiente litúrgico mais pacífico e acolhedor dentro da Igreja una, santa, católica e apostólica.





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